Conhecida como cirurgia de redução de estômago, a
bariátrica promove reprogramação hormonal que age sobre o controle glicêmico
Wilmar
Lima, servidor público de 46 anos, descobriu que estava com pré-diabetes
durante os exames pré-operatórios para a cirurgia bariátrica, realizada em
janeiro deste ano. Cinco meses e meio depois do procedimento, ele já perdeu 22
quilos, mas outros benefícios chegaram bem antes disso. “Aproximadamente um mês
após a cirurgia, os exames já demonstravam que as minhas taxas estavam dentro
dos parâmetros normais”, conta. Além do controle glicêmico, Wilmar também
reverteu esteatose hepática grau 3 e normalizou a pressão arterial, que chegava
a episódios de 200 x 140 mmHg.
O
caminhoneiro João Paulo de Lima, de 45 anos, se submeteu à cirurgia em situação
mais crítica, mas os resultados vieram ainda mais rápido. Ele passou anos
usando medicações para diabetes tipo 2 e outras comorbidades e, por último,
enfrentou dores nas pernas — atribuídas ao ácido úrico elevado — que
comprometeram sua capacidade de andar. “As melhorias começaram logo na primeira
semana. Depois desse período, não tomei mais remédio para diabetes e nem para
pressão. Já faz três anos que não tomo nada e estou super bem”, relata o
paciente, que saiu de 132 para 98 quilos.
As
histórias ilustram um fenômeno que a medicina vem documentando com crescente
evidência científica: a cirurgia bariátrica e metabólica, também conhecida como
cirurgia de redução de estômago, não atua somente na diminuição da gordura
corporal. O cirurgião bariátrico César De Fazzio, diretor do ICD (Instituto de
Cirurgia Digestiva), em Brasília, explica os mecanismos por trás desse impacto
e por que a intervenção tem sido cada vez mais reconhecida como ferramenta de
tratamento do diabetes tipo 2, não apenas da obesidade.
“A
bariátrica não se limita à restrição da ingestão alimentar. Ela promove uma
verdadeira reprogramação endócrina”, explica De Fazzio. Com as alterações anatômicas
no trato gastrointestinal, ocorre uma modificação imediata na secreção de
hormônios responsáveis por estimular a produção de insulina pelo pâncreas e
melhorar a sensibilidade das células a esse hormônio, reduzindo a resistência à
insulina, diminuindo a inflamação sistêmica e reequilibrando o eixo metabólico
como um todo.
O
efeito sobre o diabetes é um dos mais rápidos e expressivos. Em sua prática
clínica, o médico observa que muitos pacientes em uso de medicamentos
antidiabéticos orais conseguem suspender completamente a medicação já nos
primeiros dias após a cirurgia. “Essa remissão quase imediata comprova que o
mecanismo de ação é primariamente hormonal, não mecânico. A melhora ocorre
independentemente de qualquer perda de peso significativa nesse período
inicial”, destaca.
Os
números da literatura científica reforçam esse argumento. Uma meta-análise
publicada na revista científica Diabetes, Obesity and Metabolism em 2025, que
analisou ensaios clínicos randomizados, identificou que 53,1% dos pacientes
submetidos à cirurgia bariátrica alcançaram remissão do diabetes tipo 2 após um
ano contra apenas 5,4% dos tratados exclusivamente com medicamentos. A
superioridade da cirurgia se manteve nos acompanhamentos de dois, três e cinco
anos.
Tratando a raiz do problema
Segundo
a Sociedade Brasileira de Diabetes, com base no Vigitel 2025, cerca de 19,9
milhões de adultos brasileiros convivem com diabetes hoje e, de acordo com a
Federação Internacional de Diabetes, o Brasil ocupa a 6ª posição no ranking
mundial de prevalência da doença. A obesidade é apontada como um dos principais
fatores de risco para o diabetes tipo 2, e ambas as condições formam o que
especialistas chamam de dupla epidemia. “O diabetes tipo 2 associado à
obesidade não é uma sentença. Quando tratamos a causa metabólica da doença, e
não apenas seus sintomas, o organismo tende a se reorganizar. É isso que vemos
acontecer no consultório, com frequência e consistência”, afirma o
especialista.
Essa lógica se estende à dependência de medicamentos. Para o cirurgião, o maior ganho do paciente que reduz ou abandona os remédios não é apenas a simplificação da rotina. “O verdadeiro ganho é que o paciente deixa de remediar as consequências das doenças e passa a tratar a causa. Antes da cirurgia, ele tomava remédios para controlar a pressão, o diabetes e o colesterol. Mas todos esses problemas são consequências do descontrole hormonal e metabólico causado pela obesidade. Por isso, os resultados mostram que reequilibrar o metabolismo trata o diabetes”, resume De Fazzio.
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