Campanha Junho Vermelho reforça importância da doação contínua; especialistas alertam que estoques baixos podem comprometer atendimentos neurológicos de alta complexidade
O baixo estoque de sangue nos hemocentros das grandes cidades pode
trazer consequências que vão muito além do atendimento à vítimas de acidentes.
Em diversas especialidades médicas, incluindo a neurocirurgia, a
disponibilidade de hemocomponentes é fundamental para garantir a realização
segura de procedimentos complexos e o atendimento de emergências que exigem
resposta imediata.
Durante o Junho Vermelho, campanha nacional de conscientização
sobre a doação de sangue, especialistas chamam atenção para um problema
recorrente: a redução dos estoques em diferentes regiões do país. A situação
pode impactar desde cirurgias programadas até procedimentos de urgência
realizados em pacientes com aneurismas cerebrais, traumatismos cranianos e
outras condições neurológicas graves.
Segundo a Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN), embora nem
toda cirurgia cerebral exija transfusão sanguínea, diversos procedimentos
apresentam risco de sangramento e dependem da disponibilidade de sangue para
garantir segurança ao paciente e à equipe médica.
"Em neurocirurgia, frequentemente lidamos com situações em
que cada minuto faz diferença. Em casos como aneurisma cerebral roto,
traumatismos cranianos graves e algumas cirurgias vasculares complexas, a
disponibilidade imediata de sangue pode ser determinante para o sucesso do
tratamento e para a recuperação do paciente", explica a Dra. Vanessa Milanese, neurocirurgiã e Diretora de
Comunicação da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia.
Dependendo da complexidade do caso, uma única cirurgia pode
demandar múltiplas bolsas de sangue e seus componentes. Além disso, pacientes
submetidos a procedimentos extensos podem necessitar de reposição durante e
após a operação.
Os reflexos dos estoques reduzidos não atingem apenas os casos de
emergência. Quando os níveis de sangue ficam abaixo do recomendado, hospitais
podem ser obrigados a reorganizar agendas cirúrgicas, priorizando pacientes em
estado mais grave e adiando procedimentos eletivos.
Embora essa seja uma medida adotada para preservar a segurança
assistencial, especialistas alertam que os adiamentos podem gerar sofrimento
adicional aos pacientes que aguardam tratamento e aumentar o risco de
agravamento de algumas condições clínicas.
"A população costuma lembrar da doação de sangue em momentos
de tragédia ou grandes campanhas, mas os hospitais dependem de um fluxo
constante de doadores para atender demandas diárias. O sangue não pode ser
fabricado e possui prazo de validade, por isso a reposição precisa ser contínua",
destaca a especialista.
Pacientes submetidos a cirurgias de aneurismas, tumores cerebrais,
malformações vasculares e traumatismos cranianos estão entre aqueles que podem
necessitar de suporte transfusional. Além da neurocirurgia, o sangue também é
essencial para tratamentos oncológicos, transplantes, cirurgias cardíacas e
atendimentos de emergência em diversas especialidades.
Uma única doação pode beneficiar até quatro pessoas, já que o
sangue coletado é separado em componentes como hemácias, plaquetas, plasma e
crioprecipitado, utilizados conforme a necessidade de cada paciente.
Como doar
De acordo com o Ministério da Saúde, podem doar sangue pessoas
saudáveis com idade entre 16 e 69 anos, desde que a primeira doação tenha sido
realizada antes dos 60 anos. Menores de 18 anos precisam de autorização dos
responsáveis. No dia da doação, é necessário estar bem alimentado, descansado e
apresentar documento oficial com foto.
Para os especialistas, transformar a doação em um hábito regular é
uma das principais estratégias para garantir a manutenção dos estoques e evitar
impactos no atendimento à população.
"Quando alguém doa sangue, dificilmente sabe quem será
beneficiado. Mas essa doação pode estar diretamente ligada à realização de uma
cirurgia cerebral, ao atendimento de uma emergência neurológica ou à
recuperação de um paciente em estado grave. É um gesto simples que tem
potencial para salvar muitas vidas", conclui.
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