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quinta-feira, 25 de junho de 2026

Estudo indica que voto nasce fora da campanha política…, mas a comunicação ainda não entendeu isso

Eleitor decide com base na experiência cotidiana, não apenas em narrativa ou ideologia, aponta o recém-lançado livro ‘A Vida Antes do Voto’, do sociólogo Fábio Gomes
 


Mesmo com mais dados, mais tecnologia e mais canais, campanhas – políticas e de marca – seguem cometendo um erro básico: falar antes de entender. É o que indica o livro A Vida Antes do Voto - Reputação, bem-estar e a decisão eleitoral no Brasil real, do sociólogo Fábio Gomes, presidente do Instituto Informa, que analisa como a experiência cotidiana molda decisões eleitorais no Brasil. O principal achado da obra, com lançamento previsto para junho deste ano, tem implicações que vão além da política: o processo de decisão começa fora da comunicação. 

Segundo a pesquisa, 55,6% dos eleitores priorizam candidatos com boas propostas, independentemente de ideologia, enquanto apenas 14,5% escolhem com base em alinhamento político. O dado, por si só, já desloca o foco da disputa narrativa para a percepção de entrega. Mas o ponto mais relevante está na origem dessa decisão.
 

A experiência vem antes da narrativa 

O estudo mostra que o eleitor não parte da campanha para formar opinião. Ele chega à campanha com critérios já estabelecidos, construídos no dia a dia – na relação com segurança, renda, acesso a serviços e custo de vida. Na prática, isso significa que a comunicação não cria a demanda: ela tenta se encaixar nela. 

Esse deslocamento ajuda a explicar um fenômeno comum: campanhas bem executadas do ponto de vista criativo que não conseguem gerar conexão real. A mensagem pode ser esteticamente bem construída, mas não conversa com a experiência concreta do público.
 

O erro não é de execução, e sim de diagnóstico 

Para o autor, o principal problema não está na criatividade, mas na leitura de contexto. Em um ambiente pressionado por tempo e performance, estratégias muitas vezes partem de respostas prontas e passam a buscar dados que as confirmem. O resultado é uma comunicação que parece sofisticada, mas responde a perguntas que o público não está fazendo. 

“A maior parte das campanhas ainda parte da mensagem e tenta encontrar um público depois. O processo deveria ser o inverso: entender primeiro a experiência das pessoas e só então construir a comunicação”, destaca Gomes. 

Esse padrão não é exclusivo da política. Ele aparece também em campanhas de marca que apostam em narrativas aspiracionais sem considerar o contexto real do consumidor – especialmente em cenários de pressão econômica.
 

Baixo bem-estar muda a lógica da comunicação 

Outro dado relevante do estudo é que o Brasil apresenta o menor nível de bem-estar da América do Sul. Esse cenário altera a forma como as mensagens são recebidas: quando a experiência cotidiana é marcada por instabilidade, cansaço e pressão financeira, o consumidor – ou eleitor – tende a valorizar menos discurso e mais evidência de entrega.

Isso não significa que a narrativa perde importância, mas que ela precisa estar ancorada em algo verificável na realidade.
 

Menos sobre convencer, mais sobre corresponder 

O principal aprendizado é que a comunicação deixou de ser o ponto de partida da decisão e passou a ser um ponto de validação. Isso muda a lógica estratégica: mais do que persuadir, marcas e campanhas precisam demonstrar que entendem e respondem às condições reais do público. 

Em um ambiente em que a experiência pesa mais do que o discurso, comunicar bem continua sendo importante. Mas entender bem passou a ser indispensável. 

“Hoje, comunicar bem não é suficiente. Se a mensagem não estiver ancorada na realidade do público, ela não gera conexão e, muitas vezes, nem atenção”, conclui o autor.

 

Fábio Gomes - doutor em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), mestre pela FGV (Ebape/RJ), especialista em Comunicação Política (ECA- -USP) e sociólogo (UFJF). Diretor-presidente do Instituto Informa e membro da Esomar, atua há décadas em pesquisas no Brasil e no exterior. Também ministra aulas e palestras sobre comunicação, comportamento e decisão.


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