Pesquisadores analisaram amostras de sedimentos preservados em
estalagmites para reconstruir histórico de eventos climáticos na região. Século
20 concentra uma das maiores frequências de eventos extremos dos últimos 7,5
mil anos
Os cientistas analisaram estalagmites da Caverna do Malfazido,
no município de Doutor Ulysses, região metropolitana de Curitiba
foto: Julio Cauhy
Uma caverna no interior do Paraná guarda um “arquivo climático”
que permitiu a pesquisadores brasileiros reconstruir a história das chuvas
extremas na região Sul do Brasil nos últimos 7,5 mil anos. O resultado mostrou
que a frequência desses eventos no século 20 figura entre as mais elevadas de
toda a série histórica e apontou dois fatores que influenciam esse processo: a
variabilidade climática no continente antártico e a ocorrência de El Niño –
ambos presentes no cenário atual.
Os cientistas descobriram que períodos de verão com temperaturas
mais baixas na Antártida Ocidental tendem a coincidir com mais eventos extremos
no Sul do Brasil. A hipótese é que mudanças no gradiente térmico entre altas e
médias latitudes (ou seja, entre as regiões polares, que são mais frias, e as
zonas temperadas e subtropicais, mais quentes) alterem a circulação
atmosférica, favorecendo a formação de frentes frias e o transporte de umidade
da Amazônia para a região.
Nos últimos mil anos, também se nota uma relação significativa entre
a frequência de chuvas extremas e episódios moderados ou fortes de El Niño –
fenômeno caracterizado pelo aquecimento anormal e persistente das águas do
oceano Pacífico Equatorial, que altera a circulação dos ventos e a distribuição
de calor e umidade em todo o planeta.
Os achados ganham ainda mais relevância neste ano em função da
alta probabilidade de ocorrência de um El Niño de intensidade moderada a forte
nos próximos meses, segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM, ligada à Organização das Nações
Unidas). Os impactos serão sentidos no Brasil. O Centro Nacional de
Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) divulgou nota técnica com alertas
para a possível ocorrência de chuvas intensas e desastres hidrogeológicos na
região centro-sul do Brasil, enquanto no restante do país a preocupação é com
secas.
Arquivo natural
Motivados pela necessidade de compreender casos como as
enchentes que devastaram mais de 470 municípios no Rio Grande do Sul em maio de
2024 (um ano de El Niño), os cientistas analisaram espeleotemas (estalagmites)
da Caverna do Malfazido, localizada no município de Doutor Ulysses (região
metropolitana de Curitiba). Desde 2019, eles fazem monitoramento constante das
inundações no local.
Durante as cheias na caverna, sedimentos finos são depositados
sobre as estalagmites – formações rochosas de origem mineral que crescem a
partir do chão – e ficam preservados em camadas microscópicas dentro do
carbonato, que continua crescendo no local. Uma das peculiaridades em Malfazido
é o rápido crescimento dos espeleotemas, o que contribui para esse tipo de
estudo.
As estalagmites foram datadas por meio de métodos isotópicos
(que analisam a proporção de certos elementos químicos que funcionam como um
“relógio natural” para calcular a idade das amostras), resultando na
identificação de 921 dessas camadas de inundação. O método foi validado ao
comparar parte delas ao que foi registrado em 2023, quando enchentes atingiram
o rio Turvo, onde deságuam as águas da caverna, mostrando correspondência entre
os resultados geológicos e os atuais.
Assim, essas camadas funcionaram como uma espécie de “arquivo
natural”, permitindo estimar a frequência de eventos extremos ao longo de
milênios. Os achados foram publicados em abril na
revista Communications Earth & Environment.
“Até agora, todo o nosso conhecimento era limitado a séries
instrumentais, que geralmente cobrem os últimos cem anos, no máximo, no Brasil.
Havia, por exemplo, alguns registros de sedimentos em lagos, que têm problemas
cronológicos, outros utilizando anéis de árvore, que são muito descontínuos. Os
espeleotemas podem crescer de maneira contínua e rápida, como no caso da
Caverna do Malfazido, produzindo um registro de alta resolução. Ou seja, é
possível ter uma frequência interanual ou até anual da ocorrência dos eventos.
Com isso, conseguimos produzir o primeiro registro de eventos extremos para um
passado remoto”, resumiu à Agência FAPESP o geólogo Julio Cauhy, autor principal do artigo. Ele desenvolveu
parte da pesquisa no Instituto Max Planck de Química e na Universidade Johannes
Gutenberg Mainz, ambos na Alemanha.
Quando começou os estudos, há mais de sete anos, Cauhy cursava
mestrado na Universidade de São Paulo (USP). Contou com a colaboração dos
professores do Instituto de Geociências (IGc-USP) Nicolás Strikis e Francisco William da
Cruz Júnior, que foi pesquisador responsável pelo Projeto Temático “Pire: Pesquisa e
educação sobre o clima nas Américas usando exemplos de anéis de árvores e
espeleotemas”, financiado pela FAPESP.
A sequência de barragens de calcário no interior da caverna é conhecida
por “represas de travertinos”
foto: Julio Cauhy
A pesquisa só foi possível porque a caverna apresenta condições
particulares. Caracterizada por um conduto (uma espécie de “cano”) principal
alimentado por um rio subterrâneo que forma um cânion, Malfazido é dividida em
duas galerias: superior e inferior.
A primeira consiste em uma passagem estreita com zonas de
inundação definidas e numerosas estalagmites em forma de vela. A segunda tem
uma sequência de grandes barragens de calcita que interrompem o fluxo e criam
um sistema de “sifões”, aprisionando água e sedimentos durante inundações. Esse
represamento natural em ambas as galerias é crucial para a deposição de
sedimentos finos sobre os espeleotemas durante períodos prolongados de cheia.
A inundação começa na parte mais profunda da caverna e vai
gradualmente em direção à entrada, enchendo sucessivamente uma sequência de
barragens de calcário conhecida por “represas de travertinos”.
Na Caverna do Malfazido, esse tipo de formação, que pode atingir
até dois metros de altura, transforma o conduto em uma sequência de tanques
naturais. Eles se enchem de água e lama durante os eventos de inundação.
Dependendo do volume de chuvas, a água chega à entrada da caverna. Nesse ponto,
muitas estalagmites encontram-se submersas, com uma fina camada de lama sobre
seu topo que registra o evento de inundação.
“Isso a torna ideal. Andamos por centenas de cavernas pelo
Brasil e nunca tínhamos visto um conduto com essa configuração, que permite uma
abordagem única. Não é o tipo de coisa que se consegue fazer todos os dias. O
trabalho do Julio [Cauhy] virou uma referência”, diz Strikis.
Aumento da frequência
Os pesquisadores detectaram que entre 3 mil e 2 mil anos atrás
houve um período com poucas chuvas extremas. Por outro lado, a maior frequência
de eventos extremos foi observada no período entre 7,5 mil e 4 mil anos atrás e
durante o último milênio, sobretudo no século 20.
“Esse trabalho coloca os eventos extremos em perspectiva histórica.
A partir do momento em que começamos a observar que estão ficando mais
recorrentes e considerando o aumento da temperatura da atmosfera, podemos gerar
um cenário mais claro”, completa Strikis.
Nesse sentido, o estudo sugere que o aquecimento global provocado
pelas atividades humanas pode estar contribuindo para a intensificação recente desses
eventos. Por isso, enfatiza a necessidade de estratégias de mitigação e
adaptação às mudanças climáticas, especialmente para comunidades e regiões mais
expostas e vulneráveis.
O artigo A Holocene history of extreme rainfall events
in Southern Brazil pode ser lido em nature.com/articles/s43247-026-03506-y.
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/caverna-no-parana-revela-influencia-da-antartida-e-do-el-nino-em-chuvas-extremas-no-sul-do-brasil/58497
Nenhum comentário:
Postar um comentário