Eventos extremos, calor e elevação do nível do mar ameaçam setor, mas existem caminhos para mitigar os problemas
O setor de turismo já sente os efeitos da mudança climática e as perspectivas são preocupantes. Eventos climáticos extremos que antes ocorriam uma vez a cada 50 anos hoje acontecem quase cinco vezes mais e o calor elevado já compromete destinos inteiros.
Cidades turísticas da Espanha enfrentam verões em que andar nas ruas se torna quase insuportável, e ondas de calor na Europa têm afugentado viajantes de regiões historicamente procuradas. O nível do mar deve subir até 1,5 metro até 2100, ameaçando destinos costeiros em todo o mundo — de Cancún ao Rio de Janeiro.
No Brasil, entre 25% e 48% das praias arenosas podem desaparecer nesse período, colocando em risco não apenas paisagens, mas economias inteiras, segundo projeções publicadas na Nature Climate Change.
O
PIB brasileiro pode ter redução de até 20% até 2050 em função das mudanças
climáticas, com a perda de até 3,4 milhões de empregos. Só no Nordeste, o
turismo emprega mais de 569 mil trabalhadores formais, e os estados do Ceará e
Piauí estão entre os mais vulneráveis.
Mas existem medidas concretas que podem ser adotadas para mudar esse cenário. Os segmentos de transporte, hospedagem e gastronomia têm em mãos ferramentas reais de transformação e já existem experiências ao redor do mundo que mostram que é possível fazer turismo com muito menos impacto.
"A
boa vontade individual de turistas e empresas já não é suficiente para salvar
os destinos. Precisamos de uma transição regulada", disse Fernanda Westin,
gerente do Centro Brasil no Clima (CBC), durante o III Encontro Internacional
de Turismo da UFRN.
Transporte inteligente
No transporte, existe a possibilidade de fazer uma transição tecnológica que reduz emissões sem abrir mão da mobilidade. Vale lembrar que as viagens internacionais respondem por 60% de toda a pegada de carbono do turista, sendo 40% proveniente apenas da aviação.
Entre as iniciativas está o uso de combustíveis verdes, os SAFs. Segundo os dados apresentados por Fernanda, porta-voz do CBC, eles geram até 80% menos emissões aéreas ao aproveitar óleos e resíduos agrícolas reciclados.
Outro
caminho é o 'slow travel', que propõe substituir pontes aéreas curtas por
ferrovias e trens elétricos de alta velocidade. Esta mudança já avança em
países europeus e começa a entrar no debate brasileiro. Nos destinos, frotas de
veículos elétricos para aluguel completam essa transição de forma prática.
Hospedagem mais sustentável
O setor de hospedagem também pode liderar a mudança com edificações regenerativas que consomem menos e geram sua própria energia. A arquitetura bioclimática, que aproveita ventilação natural e sombreamento estratégico, reduz em até 60% o uso de ar-condicionado, de acordo com a gerente do CBC.
"Sensores
de presença evitam desperdício em ambientes vazios, e a adoção de energia 100%
fotovoltaica ou eólica já é tecnicamente e economicamente viável para grande
parte do setor hoteleiro brasileiro", afirma Fernanda.
Gastronomia regenerativa
Na gastronomia, o modelo regenerativo une sustentabilidade e valorização do território. Parcerias com agricultores locais e o uso de ingredientes sazonais encurtam a cadeia produtiva, reduzem emissões logísticas e fortalecem economias regionais.
O combate ativo ao desperdício inclui a revisão de modelos como grandes buffets e a compostagem integral de resíduos orgânicos para reuso em hortas fecham o ciclo de forma inteligente. Uma pesquisa do Ministério do Turismo revelou que 27% dos brasileiros já desistiram de alguma viagem por causa das mudanças climáticas — sinal de que o comportamento do consumidor também já está mudando.
A especialista destaca que o Plano Clima, lançado em 2026 pelo governo brasileiro, é um passo nessa direção: pela primeira vez, o Brasil conta com diretrizes específicas para o turismo organizadas por bioma, com integração de políticas e metas concretas para o setor. As soluções existem. O que o turismo precisa agora é de decisão e de escala.
Nota: Os dados citados pela especialista têm base em pesquisas de instituições como Nature Climate Change, IATA, European Environment Agency e UNWTO. Documentação completa disponível mediante solicitação.
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