Pesquisar no Blog

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Genes únicos do bicho-preguiça, conservados por 30 milhões de anos, podem ajudar a entender doenças metabólicas humanas

Divulgação HSL
Pesquisa com participação do Hospital Sírio-Libanês realizou análise genômica inédita e identificou sequências de DNA exclusivas que podem abrir caminhos para estudos sobre diabetes e envelhecimento


Por que o bicho-preguiça é tão lento? A resposta está no DNA. Pela primeira vez, cientistas sequenciaram e analisaram o genoma completo da preguiça-de-dois dedos e identificaram sequências genéticas únicas, conservadas há 30 milhões de anos, que parecem estar diretamente ligadas ao metabolismo extraordinariamente lento desses animais. O estudo, publicado na revista BMC Biology, contou com a participação de pesquisadores do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, e foi conduzido em colaboração com o Wellcome Sanger Institute (Reino Unido), o Leibniz Institute for Zoo and Wildlife Research (Alemanha) e outras instituições internacionais.

As preguiças têm o metabolismo mais baixo entre todos os mamíferos, frequentemente inferior à metade do que seria esperado para animais do mesmo porte. Para economizar energia, chegam a deixar sua temperatura corporal oscilar com a do ambiente, algo raríssimo entre os mamíferos. Apesar disso, permanecem saudáveis. Entender como elas fazem isso é o que motivou a pesquisa.

As preguiças sempre foram difíceis de estudar. Vivem nas copas das árvores em florestas densas, se movem pouco e são raras em cativeiro. Por isso, apesar de conhecidas há séculos, sua biologia molecular permanecia praticamente inexplorada. O fato de conseguirem manter um metabolismo tão reduzido — e ainda assim permanecerem saudáveis — intrigava a ciência há décadas.

Para desvendar essa biologia singular, os cientistas sequenciaram o DNA de uma preguiça-de dois-dedos mantida em cativeiro e o compararam com o de mais de 40 outras espécies de mamíferos, incluindo tamanduá, tatu, humanos e primatas. Essa abordagem, conhecida como genômica comparativa, permite identificar o que é exclusivo de uma espécie ao mapear diferenças e semelhanças entre os “manuais genéticos” de animais distintos. Foi por meio dessa comparação que a análise revelou uma quantidade incomum de elementos genéticos chamados “genes saltadores”, que são sequências de DNA capazes de se copiar e se reinserir em outros pontos do genoma. Nos humanos, esses elementos existem, mas estão geralmente inativos e fragmentados. Nas preguiças, eles permanecem ativos e foram preservados ao longo de milhões de anos de evolução.

O achado mais significativo foi constatar que muitos desses genes saltadores estão associados às mitocôndrias, estruturas celulares responsáveis pela produção de energia, e aos mecanismos que regulam como o organismo produz e gasta energia. A hipótese dos pesquisadores é que, ao se inserirem nessas regiões do genoma, os genes saltadores funcionem como uma espécie de “sistema de apoio”, mantendo o funcionamento celular mesmo com uma demanda de energia muito abaixo do que é normal para qualquer outro mamífero.

Pedro Galante, pesquisador do Centro de Oncologia Molecular do Hospital Sírio-Libanês e co autor do estudo, destaca o potencial da descoberta para a medicina humana: “Muitas condições humanas, como diabetes, doenças relacionadas ao envelhecimento, neurodegeneração e perda muscular, envolvem problemas na produção de energia e na função mitocondrial. Embora ainda sejam necessárias mais pesquisas, as linhagens celulares de preguiças podem oferecer um modelo natural para entender como os organismos lidam com estados de baixa energia e o que acontece quando esse equilíbrio é rompido. A longo prazo, isso pode contribuir para pesquisas em preservação de tecidos, medicina intensiva, envelhecimento, doenças metabólicas e até viagens espaciais de longa duração.”

Na prática, a descoberta abre uma nova frente de investigação. Se esses genes ajudam as preguiças a funcionar bem com pouca energia, eles podem revelar mecanismos que a medicina ainda não conhece para lidar com situações em que células humanas também precisam sobreviver em condições de baixo suprimento energético — como em isquemias, cirurgias de grande porte, doenças degenerativas ou no envelhecimento. O próximo passo é estudar esses genes em experimentos de laboratório e em análises de células individuais, para confirmar como funcionam e avaliar se linhagens celulares de preguiças podem se tornar modelos para investigar doenças ligadas ao metabolismo e ao envelhecimento em mamíferos.

O estudo foi apoiado pelo Wellcome Trust, pelo Programa Horizon 2020 da União Europeia e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).



Hospital Sírio-Libanês
Saiba mais em: Link


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Posts mais acessados