Pesquisa com
participação do Hospital Sírio-Libanês realizou análise genômica inédita e
identificou sequências de DNA exclusivas que podem abrir caminhos para estudos
sobre diabetes e envelhecimento
Divulgação HSL
Por que o bicho-preguiça é tão lento? A resposta
está no DNA. Pela primeira vez, cientistas sequenciaram e analisaram o genoma
completo da preguiça-de-dois dedos e identificaram sequências genéticas únicas,
conservadas há 30 milhões de anos, que parecem estar diretamente ligadas ao
metabolismo extraordinariamente lento desses animais. O estudo, publicado na
revista BMC Biology, contou com a participação de pesquisadores do Hospital
Sírio-Libanês, em São Paulo, e foi conduzido em colaboração com o Wellcome Sanger
Institute (Reino Unido), o Leibniz Institute for Zoo and Wildlife Research
(Alemanha) e outras instituições internacionais.
As preguiças têm o metabolismo mais
baixo entre todos os mamíferos, frequentemente inferior à metade do que seria
esperado para animais do mesmo porte. Para economizar energia, chegam a deixar
sua temperatura corporal oscilar com a do ambiente, algo raríssimo entre os
mamíferos. Apesar disso, permanecem saudáveis. Entender como elas fazem isso é
o que motivou a pesquisa.
As preguiças sempre foram difíceis
de estudar. Vivem nas copas das árvores em florestas densas, se movem pouco e
são raras em cativeiro. Por isso, apesar de conhecidas há séculos, sua biologia
molecular permanecia praticamente inexplorada. O fato de conseguirem manter um
metabolismo tão reduzido — e ainda assim permanecerem saudáveis — intrigava a
ciência há décadas.
Para desvendar essa biologia
singular, os cientistas sequenciaram o DNA de uma preguiça-de dois-dedos
mantida em cativeiro e o compararam com o de mais de 40 outras espécies de
mamíferos, incluindo tamanduá, tatu, humanos e primatas. Essa abordagem,
conhecida como genômica comparativa, permite identificar o que é exclusivo de
uma espécie ao mapear diferenças e semelhanças entre os “manuais genéticos” de
animais distintos. Foi por meio dessa comparação que a análise revelou uma
quantidade incomum de elementos genéticos chamados “genes saltadores”, que são
sequências de DNA capazes de se copiar e se reinserir em outros pontos do
genoma. Nos humanos, esses elementos existem, mas estão geralmente inativos e
fragmentados. Nas preguiças, eles permanecem ativos e foram preservados ao
longo de milhões de anos de evolução.
O achado mais significativo foi
constatar que muitos desses genes saltadores estão associados às mitocôndrias,
estruturas celulares responsáveis pela produção de energia, e aos mecanismos
que regulam como o organismo produz e gasta energia. A hipótese dos
pesquisadores é que, ao se inserirem nessas regiões do genoma, os genes
saltadores funcionem como uma espécie de “sistema de apoio”, mantendo o
funcionamento celular mesmo com uma demanda de energia muito abaixo do que é
normal para qualquer outro mamífero.
Pedro Galante, pesquisador do Centro
de Oncologia Molecular do Hospital Sírio-Libanês e co autor do estudo, destaca
o potencial da descoberta para a medicina humana: “Muitas condições humanas,
como diabetes, doenças relacionadas ao envelhecimento, neurodegeneração e perda
muscular, envolvem problemas na produção de energia e na função mitocondrial.
Embora ainda sejam necessárias mais pesquisas, as linhagens celulares de
preguiças podem oferecer um modelo natural para entender como os organismos
lidam com estados de baixa energia e o que acontece quando esse equilíbrio é
rompido. A longo prazo, isso pode contribuir para pesquisas em preservação de
tecidos, medicina intensiva, envelhecimento, doenças metabólicas e até viagens
espaciais de longa duração.”
Na prática, a descoberta abre uma
nova frente de investigação. Se esses genes ajudam as preguiças a funcionar bem
com pouca energia, eles podem revelar mecanismos que a medicina ainda não
conhece para lidar com situações em que células humanas também precisam
sobreviver em condições de baixo suprimento energético — como em isquemias,
cirurgias de grande porte, doenças degenerativas ou no envelhecimento. O
próximo passo é estudar esses genes em experimentos de laboratório e em
análises de células individuais, para confirmar como funcionam e avaliar se
linhagens celulares de preguiças podem se tornar modelos para investigar
doenças ligadas ao metabolismo e ao envelhecimento em mamíferos.
O estudo foi apoiado pelo Wellcome
Trust, pelo Programa Horizon 2020 da União Europeia e pela Fundação de Amparo à
Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).
Hospital Sírio-Libanês
Saiba mais em: Link
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