Queda das temperaturas provoca alterações no organismo que aumentam a pressão arterial, favorecem a formação de coágulos e elevam o risco de eventos cardiovasculares
As baixas temperaturas do inverno não impactam apenas as
doenças respiratórias. O frio também representa um desafio importante para o
sistema cardiovascular e está associado ao aumento de internações e mortes por
infarto, AVC e insuficiência cardíaca em diferentes países.
Uma revisão publicada no Journal of the American College
of Cardiology identificou uma relação consistente entre a queda da temperatura
ambiente e o aumento de eventos cardiovasculares. Segundo os pesquisadores, o frio
intenso está associado a maior incidência de infarto agudo do miocárdio, AVC,
insuficiência cardíaca e mortalidade cardiovascular, especialmente entre idosos
e pessoas com doenças crônicas.
"O organismo reage ao frio tentando preservar calor.
Para isso, ocorre a contração dos vasos sanguíneos, um processo chamado
vasoconstrição. Isso faz a pressão arterial subir e aumenta o esforço que o
coração precisa fazer para bombear sangue", explica Dra. Bianca Maria
Prezepiorski, cardiologista do Hospital Costantini.
O impacto dessa resposta fisiológica pode ser
significativo. Um estudo publicado na revista BMJ Open analisou mais de 1,7
milhão de mortes ocorridas em 13 países e concluiu que temperaturas baixas
estiveram associadas a mais mortes do que temperaturas elevadas. Entre as
principais causas estão justamente as doenças cardiovasculares.
Além do aumento da pressão arterial, o frio também
provoca alterações na circulação sanguínea. Pesquisas mostram que durante
períodos de baixas temperaturas ocorre aumento da viscosidade do sangue e maior
ativação de mecanismos de coagulação.
"Quando uma pessoa já possui placas de gordura nas
artérias, esse cenário se torna mais perigoso. O aumento da pressão pode
contribuir para a ruptura dessas placas e a maior tendência à coagulação favorece
a formação de trombos que podem obstruir a circulação e provocar infarto ou
AVC", afirma a especialista.
Outro fator que preocupa os cardiologistas é a realização
de esforço físico intenso em ambientes frios. De acordo com a American Heart
Association, atividades como corrida, caminhada acelerada, ciclismo ou até
mesmo trabalhos domésticos pesados exigem um esforço adicional do coração
quando realizadas sob baixas temperaturas.
Isso ajuda a explicar por que o inverno costuma ser um
período de maior atenção para pacientes cardíacos.
Dados do Ministério da Saúde mostram que as doenças
cardiovasculares seguem como a principal causa de morte no Brasil. Entre elas,
infarto e AVC lideram os registros de óbitos e internações, o que reforça a importância
da prevenção durante períodos de maior risco.
Quem merece atenção especial
O risco cardiovascular durante o inverno é mais elevado
entre idosos, hipertensos, diabéticos, fumantes, pessoas com colesterol
elevado, obesidade ou histórico de doenças cardíacas.
Segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia, a
hipertensão arterial afeta cerca de 30% da população adulta brasileira e é um
dos principais fatores de risco para infarto, AVC e insuficiência cardíaca.
Como a pressão tende a aumentar nos meses frios, o acompanhamento médico e a
adesão ao tratamento tornam-se ainda mais importantes.
"É comum que os pacientes relaxem nos cuidados
durante o inverno. Muitos deixam de praticar atividade física, ganham peso,
consomem mais alimentos ricos em sódio e reduzem a hidratação. Essa combinação
aumenta ainda mais o risco cardiovascular", alerta Dra. Bianca.
O papel das infecções respiratórias
O inverno também traz um fator de risco indireto para o
coração: o aumento das infecções respiratórias.
Estudos internacionais mostram que gripe, pneumonia e
outras infecções podem desencadear processos inflamatórios capazes de aumentar
o risco de infarto e AVC nas semanas seguintes ao quadro infeccioso.
Por isso, especialistas recomendam que idosos,
cardiopatas e pacientes com doenças crônicas mantenham a vacinação atualizada
contra influenza e pneumococo.
"Vacinar-se não protege apenas contra complicações
respiratórias. Em muitos casos, também reduz o risco de descompensações
cardiovasculares associadas às infecções", explica a cardiologista.
Sinais que exigem atendimento imediato
O especialista alerta que qualquer suspeita de evento
cardiovascular deve ser tratada como emergência.
Os principais sinais de alerta incluem:
• Dor ou pressão no peito;
• Dor irradiada para braço, costas, mandíbula ou ombro;
• Falta súbita de ar;
• Suor frio;
• Tontura ou sensação de desmaio;
• Palpitações intensas;
• Fraqueza repentina em um lado do corpo;
• Alteração da fala ou confusão mental.
"Muitas mortes ocorrem porque as pessoas demoram para
procurar atendimento. Em cardiologia, tempo significa músculo cardíaco
preservado e vidas salvas", conclui Dra. Bianca Maria Prezepiorski.
Hospital Cardiológico Costantini
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