Considerada o sintoma mais
incapacitante da colangite biliar primária, doença rara e progressiva, exaustão
extrema que não melhora com o sono afeta até 80% das mulheres com a condição
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A exaustão extrema em mulheres é frequentemente relativizada e atribuída ao estresse ou à menopausa. No entanto, quando esse esgotamento se torna persistente, pode ser um sinal da colangite biliar primária (CBP), uma doença autoimune e crônica que ataca os pequenos canais que conduzem a bile dentro do fígado e pode evoluir para cirrose. Embora prevaleça em mulheres de 55 a 75 anos, a enfermidade acende um alerta ao surgir na faixa dos 35 aos 55 anos. Segundo a Dra Liliana Mendes, hepatologista do Hospital de Base de Brasília, o impacto nessa fase é ainda mais avassalador, pois coincide com o auge da atividade profissional, cuidados com filhos e a gestão de múltiplos projetos pessoais.
O grande desafio da CBP está em sua natureza silenciosa e na falta de especificidade dos sintomas iniciais, frequentemente confundidos com ansiedade ou depressão. “Muitas mulheres passam longos períodos assintomáticas, descobrindo a patologia de forma incidental por meio de alterações em exames laboratoriais de rotina, como a elevação da enzima fosfatase alcalina”, esclarece a especialista. De acordo com estudos, no momento do diagnóstico, 60% das pessoas com a doença estão assintomáticas.
O sintoma mais comum e limitante da doença é a fadiga, que afeta até 80% das pessoas1. Diferente do cansaço comum, ela não tem ligação com o esforço físico e não é resolvida com repouso, persistindo mesmo após uma boa noite de sono2. Quem tem a doença, descreve a sensação como "andar em uma névoa constante"3, uma exaustão invisível que gera incompreensão social. Liliana pontua que esse peso afeta o bem-estar de forma tridimensional: fisicamente, uma vez que reduz a força para tarefas simples; mentalmente, porque prejudica a cognição com lapsos de memória e concentração; e emocionalmente, pois gera frustração, ansiedade e isolamento - impactando diretamente o trabalho e os relacionamentos. Diante dessa realidade, contar com o suporte e a compreensão de familiares e amigos torna-se um pilar indispensável para mitigar o isolamento social e ajudar a mulher a manter sua qualidade de vida.
Além da exaustão, as manifestações clínicas da CBP costumam incluir o prurido - coceira intensa que ocorre sem lesões visíveis na pele, piora à noite e compromete a qualidade do sono -, secura nos olhos e na boca, dores abdominais e articulares, e a associação com outras condições autoimunes, como problemas na tireoide ou artrite. A especialista ressalta que, embora possa estar associada a outras doenças, a CBP exige um cuidado adequado específico (que permite maior controle da doença) e não deve ser vista apenas como consequência de outros problemas. “Atualmente, o Brasil já conta com uma terapia específica, aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), capaz de retardar a progressão da doença, melhorar o prurido e a fadiga e garantir mais qualidade de vida”, reforça a médica.
Por isso, a conscientização e o diagnóstico precoce são
fundamentais para mudar o desfecho clínico. “A maioria das mulheres alcança um
excelente prognóstico e evita a progressão das lesões hepáticas se a
intervenção ocorrer cedo. Sintomas persistentes não devem ser normalizados.
Enfrentar fadiga crônica ou coceira inexplicável por vários meses é um
indicativo mandatório para investigar a saúde do fígado e assegurar a
preservação da autonomia e da qualidade de vida”, finaliza a hepatologista.
Referências
1 Khanna A, Leighton J, Lee Wong L, Jones DE. Symptoms of
PBC—pathophysiology and management. Best Pract Res Clin Gastroenterol.
2018;34-35:41–7
2 Younossi ZM, et al. J Hepatol. 2024;81:726–742
3 Hale M, et al. BMJ. 2012;345:e7004
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