Distribuição desigual de clínicas, custo elevado e falta de informação ainda limitam tratamentos em outras regiões do país
A maior parte dos embriões congelados no Brasil está concentrada
na região Sudeste. Segundo dados do Sistema Nacional de Produção de Embriões
(SisEmbrio), cerca de 74% do total armazenado no país está nos estados da
região, evidenciando uma desigualdade significativa no acesso à reprodução
assistida.
Enquanto o Sudeste soma 469.450 embriões congelados, outras
regiões apresentam números muito inferiores, como o Sul, com 84.499, o
Nordeste, com 73.661, e o Norte e Centro-Oeste, que juntos não chegam a 11 mil
embriões armazenados.
Para especialistas, essa concentração reflete uma combinação de
fatores estruturais, econômicos e culturais.
De acordo com a ginecologista e presidente da Associação Mulher,
Ciência e Reprodução Humana do Brasil (AMCR), Profª Dra. Marise Samama, a maior
presença de profissionais especializados e centros de tratamento é determinante
para esse cenário.
“O Sudeste concentra um maior número de especialistas, além de
maior poder aquisitivo da população e mais laboratórios de reprodução
assistida, o que naturalmente impacta o acesso aos tratamentos”, explica.
A distribuição das clínicas pelo país também influencia
diretamente esse panorama. No entanto, o setor vem apresentando sinais de
expansão nos últimos anos.
“Esse mercado está crescendo e se espalhando. Há 20 anos atuo como
professora em uma pós-graduação em reprodução assistida e observo um aumento
significativo de ginecologistas de todas as regiões do Brasil interessados em
atuar na área”, afirma.
Apesar da expansão, especialistas apontam que ainda existem
obstáculos importantes para o acesso à reprodução assistida fora dos grandes
centros.
Além da concentração de clínicas, o custo dos tratamentos continua
sendo um fator limitante, já que muitos dos insumos utilizados são importados.
“A reprodução assistida depende de insumos de importação, desde
equipamentos laboratoriais até medicamentos hormonais, o que impacta
diretamente o custo dos procedimentos”, destaca a médica.
Outro desafio é a falta de informação e o estigma em determinadas
regiões, o que pode afastar pacientes dos tratamentos. “Em algumas áreas, ainda
pode existir preconceito relacionado ao tema, muitas vezes por falta de
conhecimento”, diz.
Para reduzir a desigualdade regional, especialistas apontam que a
disseminação de informação e o apoio institucional são fundamentais.
“É essencial ampliar a divulgação de informação científica e
contar com maior apoio público e incentivo de empresas para tornar esses
tratamentos mais acessíveis”, afirma a especialista.
Na avaliação da AMCR, o avanço passa também por um processo de
conscientização da população. “A educação sobre o tema é o primeiro grande
passo. Desmistificar os preconceitos é urgente”, conclui.
AMCR – Associação Mulher, Ciência e Reprodução Humana do Brasil

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