A UNCCD (Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação) define a degradação da terra como a redução ou perda de produtividade (biológica ou econômica), de terras agrícolas, pastagens naturais, florestas e áreas com vegetação nativa. De acordo com a FAO, essa degradação já alcançou pelo menos 33% dos solos em nível global. No Brasil o cenário não é tão diferente, através do Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca, o MMA indicou que aproximadamente 28% do território brasileiro apresenta algum grau de degradação do solo. Esse resultado é estimulado utilização inadequada dos serviços ecossistêmicos, e uma combinação de outros fatores, como: erosão do solo, deterioração das propriedades físicas e químicas do solo, queimadas e acentuada conversão de vegetação nativa.
A degradação dos solos e seus impactos reverberaram
em diferentes frentes ambientais e socioeconômicas, ameaçando a segurança
alimentar e a resiliência climática. Ambientalmente, a redução do estoque de
matéria orgânica do solo contribui para as emissões de Gases do Efeito Estufa,
enquanto a erosão e a compactação comprometem a infiltração de água,
intensificando os efeitos de secas e enchentes. Socialmente, a instabilidade
produtiva e a vulnerabilidade climática podem levar à insegurança alimentar, ao
êxodo rural, assim como ter um efeito direto sobre os povos indígenas,
comunidades tradicionais e agricultores familiares, que mais dependem da saúde
do solo economicamente.
A mitigação da degradação dos solos passa,
imperativamente, pela escalabilidade dos sistemas produtivos regenerativos.
Isso implica, entre outros fatores, na promoção de práticas que visam preservar
e restaurar as propriedades físicas, químicas e biológicas dos solos. O Brasil,
um dos líderes mundiais em produção de alimentos, fibras e bioenergia e precisa
assumir o protagonismo no combate a degradação do solo e estimular a restauração
de áreas já degradas, conciliando produtividade e sustentabilidade, mitigando
emissões e preservando os serviços ecossistêmicos. A boa notícia é que estamos
direcionando esforços importantes em relação ao tema, fortalecendo programas
conduzidos pelo governo e experimentando um aumento considerável de iniciativas
do setor empresarial que reúnem inovação tecnológica, inclusão e eficiência
produtiva, e regeneração ecossistêmica o que contribui na transição dos
sistemas produtivos e consequentemente no alinhamento com os Objetivos de
Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU.
Para acelerar esse processo de transformação
precisamos superar desafios significativos. Neste movimento, o setor
empresarial, em consonância com a missão do Pacto Global da ONU de engajar
empresas na agenda de sustentabilidade, emerge como um catalisador de impacto
positivo. O Entre Solos, programa do Pacto Global da ONU Rede Brasil, que tem
como missão contribuir para escalarmos os sistemas alimentares regenerativos e
justos por meio de um debate público com base na ciência, e conta com a
participação de diferentes atores do agronegócio brasileiro, consolidou o
documento “Dialogo Entre Solos: Semeando Conexões 2025”, lançado na COP30, onde
foram elencadas 21 recomendações para intensificar a atuação do setor
empresarial na transição dos sistemas produtivos.
Entre as recomendações é destacada a importância do
fortalecimento de mercados e instrumentos financeiros adequados, incluindo
linhas de crédito com juros reduzidos, pagamentos por serviços ambientais (PSA)
e mecanismos de financiamento climático direcionados à agricultura,
viabilizando os investimentos iniciais, e que a integração efetiva entre
ciência, extensão rural e governança cooperativa é fundamental, garantindo
assistência técnica qualificada aos produtores. Além disso, é imprescindível
fortalecer a infraestrutura de monitoramento e rastreabilidade, que são pilares
para a transparência e a mensuração de impactos. Por fim, o documento reforça
que a responsabilidade da transição é compartilhada, e conta com a colaboração
de todos os elos da cadeia para que ocorra em escala e possa ser replicada.
O solo deve ser reconhecido como um ativo estratégico para o Brasil, não apenas como base da produção agrícola, mas como um elemento vital para a resiliência climática e a sustentabilidade. Ao alinhar políticas públicas, fomentar a colaboração entre os setores público e privado e valorizar o conhecimento técnico e científico, podemos criar as condições estruturantes necessárias para alavancar a produção regenerativa. A transição para esse modelo não é apenas uma escolha ambientalmente responsável, mas uma oportunidade concreta, capaz de gerar retorno ambiental, social e econômico.
Hugo Ricardo - Gerente de Agricultura e Florestas do
Pacto Global da ONU – Rede Brasil.
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