Obesidade, má alimentação, sono ruim e sedentarismo persistente explicam o paradoxo
Dados recentes do
sistema Vigitel¹ divulgados em 2026 revelam um paradoxo preocupante na saúde
pública brasileira: embora o relato de hábitos saudáveis tenha crescido, o
número de hipertensos no país continua em ascensão, passando de 22,6% para
29,7% em 2024. Para o Dr. Ronaldo Gismondi, cardiologista e Diretor Médico da
Afya, a explicação está na complexa relação entre obesidade, qualidade de vida
e a natureza silenciosa da pressão alta.
O ponto central,
segundo o especialista, é o crescimento paralelo das taxas de obesidade. Mesmo
com a prática de pelo menos 150 minutos semanais de atividade física tendo
subido de 30,3% para 42,3% entre os brasileiros, o excesso de peso saltou de
42,6% para 62,6% no mesmo período e a obesidade mais que dobrou, atingindo
25,7% em 2024. O excesso de peso provoca consequências metabólicas diretas que
elevam a pressão arterial e os índices de glicose, favorecendo também o
desenvolvimento do diabetes.
"A obesidade
está totalmente relacionada com o aumento da hipertensão. Tanto é verdade que
pacientes que tratam a obesidade, seja com novos medicamentos ou cirurgia
metabólica, frequentemente se curam da pressão alta ao perderem peso",
afirma o Dr. Gismondi.
Além da obesidade,
outros fatores determinantes para o controle pressórico têm sido
negligenciados. Na alimentação, o consumo excessivo de sódio e ultraprocessados
segue elevado: embora a ingestão regular de refrigerantes e sucos artificiais
tenha caído de 30,9% para 16,2% entre 2007 e 2024, o consumo de frutas e
hortaliças ainda é baixo, alcançando apenas 31,4% da população. O desequilíbrio
entre descanso e estresse também pesa: 20,2% dos adultos dormem menos de seis
horas por noite e 31,7% relatam ao menos um sintoma de insônia, gatilhos
constantes para a elevação da pressão. Por fim, apesar do aumento pontual na
prática de exercícios, a maior parte da população ainda permanece pouco ativa.
Silenciosa
e perigosa
Um dos maiores
riscos da hipertensão é ser, na maioria das vezes, assintomática. "A
pessoa tem pressão alta no dia a dia, não sente nada, e isso vai lesando os
órgãos ao longo do tempo", alerta o Dr. Gismondi. Os danos crônicos se
manifestam no cérebro, com aumento drástico do risco de AVC isquêmico ou
hemorrágico; no coração, por meio de insuficiência cardíaca, infarto e
fibrilação atrial; nos rins, sendo a hipertensão a segunda maior causa de
doença renal crônica e de diálise no Brasil, atrás apenas do diabetes; e na
visão, com lesões na retina que podem comprometer severamente a acuidade
visual.
A referência ideal
de pressão arterial é 120/70 mmHg. Quando os valores se mantêm sustentados
acima de 140/90 mmHg, o uso de medicação torna-se frequentemente necessário
para evitar lesões em órgãos-alvo. A doença pode evoluir para hipertensão
resistente, quadro que exige acompanhamento especializado e monitoramento
rigoroso.
O que
fazer: sinais de alerta e orientações do especialista
Apesar da ausência
de sintomas na maioria dos casos, alguns sinais merecem atenção imediata: dores
de cabeça frequentes, especialmente na nuca, visão turva, zumbido no ouvido,
tontura súbita e sangramento nasal sem causa aparente podem indicar pressão
elevada e justificam uma consulta médica.
Para a população
em geral, o Dr. Gismondi recomenda medir a pressão arterial ao menos uma vez
por ano a partir dos 18 anos e com maior frequência para quem tem histórico
familiar de hipertensão, excesso de peso, diabetes ou já apresentou valores
limítrofes. "Não espere sentir algo para se cuidar. A hipertensão cobra
sua conta em silêncio, e o diagnóstico precoce faz toda a diferença",
reforça o cardiologista.
No dia a dia, as
orientações são conhecidas, mas precisam ser levadas a sério: reduzir o consumo
de sal e ultraprocessados, praticar pelo menos 150 minutos de atividade física
por semana, dormir entre sete e nove horas por noite, gerenciar o estresse e
manter o peso sob controle. Para quem já tem diagnóstico de hipertensão, a
adesão ao tratamento medicamentoso, quando prescrito, é indispensável para
evitar complicações.
www.afya.com.br
ir.afya.com.br.
Referência:
1.
Vigitel

Nenhum comentário:
Postar um comentário