Abril é marcado pela campanha Abril Azul Claro, que
chama a atenção da população para o câncer de esôfago, um tumor que, embora em
muitos casos possa ser prevenido, ainda costuma ser diagnosticado tardiamente.
No Brasil, os homens concentram quase quatro vezes mais mortes por esta doença,
cenário associado à maior exposição a fatores de risco como consumo de álcool e
tabaco (cigarro tradicional e eletrônico, narguilé e outros derivados). Ao
mesmo tempo, são estimados cerca de 11,3 mil novos casos por ano no país,
indicando que o problema permanece relevante tanto em incidência, quanto em
mortalidade
Mortalidade elevada e
desigualdade entre homens e mulheres
Dados levantados em março de 2026 pela Sociedade
Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) na base do Sistema de Informações
sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, mostram que o câncer de esôfago
causou 8.677 mortes em 2024, sendo 6.830 entre homens e 1.847 entre mulheres.
Esse padrão, segundo a entidade, reflete maior exposição do público masculino a
fatores de risco ao longo da vida, especialmente aqueles relacionados ao
consumo de álcool e ao tabagismo, que tendem a se acumular ao longo dos anos.
Ainda de acordo com os dados do SIM, houve aumento no número de mortes nos
últimos anos.
No país, os óbitos passaram de cerca de 8,3 mil em
2020 para mais de 8,6 mil em 2024, evidenciando uma tendência de crescimento da
doença. A série histórica mostra que, após um patamar de relativa estabilidade
entre 2016 e 2019, quando as mortes variaram de 8.338 a 8.716, houve uma leve
queda em 2020 (8.307, ano da pandemia de Covid-19), seguida de nova elevação
nos anos seguintes. Em 2021, foram registrados 8.430 óbitos, número que subiu
para 8.571 em 2022, recuou discretamente em 2023 (8.489) e voltou a crescer em
2024, atingindo 8.677 mortes. O movimento indica oscilações anuais, mas com
manutenção em níveis elevados e tendência geral de aumento no período recente.
De acordo com o cirurgião oncológico Paulo Henrique
Fernandes, presidente da SBCO, esse movimento não é isolado e se repete em
diferentes tipos de câncer. “A crescente tem sido observada em diversos
tumores, em parte pelo envelhecimento da população e pela maior exposição a
fatores de risco, inclusive o afrouxamento de campanhas antitabagismo no país”,
afirma Fernandes. O especialista ressalta ainda que o aumento das estimativas
de novos casos também contribui para pressionar os sistemas de saúde e reforça
a necessidade de estratégias mais efetivas de prevenção.
Diferenças regionais e
desafios no acesso ao diagnóstico
A análise regional dos dados obtidos pela SBCO no
SIM aponta que o Sudeste concentra o maior número de mortes, com 3.877 óbitos
em 2024, seguido pelo Nordeste, que apresentou crescimento consistente no
período, passando de 1.808 em 2020 para 2.051 em 2024. Outras regiões também
refletem esse cenário. O Sul, apesar de números elevados, apresentou leve
redução recente, com 1.833 mortes em 2024, enquanto o Centro-Oeste manteve
relativa estabilidade, com 578 óbitos no mesmo ano. Já a Região Norte, embora
com menor volume absoluto, apresentou aumento ao longo dos anos, passando de
280 para 338 mortes. Os dados de 2025 (em atualização pelo Ministério da Saúde,
não entraram na análise).
De acordo com Fernandes, essas diferenças regionais
também refletem desigualdades no acesso aos serviços de saúde, especialmente no
que diz respeito ao diagnóstico e ao tratamento especializado. “É importante
considerar a possibilidade de subnotificação e dificuldades no acesso ao
diagnóstico, especialmente em regiões com menor estrutura, o que pode mascarar
a real dimensão da doença”, diz. Esse cenário reforça a necessidade de
fortalecer a rede de atenção oncológica e ampliar o acesso a exames e serviços
especializados em todo o país.
Diagnóstico tardio, sinais de
alerta e fatores de risco
Apesar dos avanços no tratamento, a ausência de um
método de rastreamento estruturado contribui para que muitos casos sejam
identificados em estágios mais avançados, o que impacta diretamente as chances
de tratamento bem-sucedido. Conforme explica Fernandes, isso torna ainda mais
importante reduzir fatores de risco e reconhecer sinais precoces. “Como não há
um método de rastreio como os exames de prevenção, a doença pode ser silenciosa
e, quando surgem os primeiros sintomas, isso geralmente indica um quadro mais
avançado”, afirma Fernandes.
Entre os sinais que merecem atenção estão
dificuldade para engolir, perda de peso sem causa aparente, dor ou queimação no
peito, rouquidão persistente e indigestão frequente, sintomas que podem ser
confundidos com outras condições gastrointestinais e, por isso, muitas vezes
retardam a busca por avaliação médica.
O desenvolvimento do câncer de esôfago está
associado, sobretudo, a processos de irritação crônica do órgão. Segundo a
SBCO, fatores como tabagismo, consumo de álcool, obesidade, ingestão frequente
de bebidas muito quentes, alimentação rica em ultraprocessados e baixo consumo
de frutas e vegetais estão entre os principais determinantes da doença. A
Organização Mundial da Saúde reforça que não existe nível seguro para o consumo
de álcool ou de produtos derivados do tabaco, o que amplia a importância das
estratégias de prevenção e da conscientização da população.
Outras condições também estão associadas ao aumento
do risco, como doença do refluxo gastroesofágico e esôfago de Barrett, além de
histórico de radioterapia na região torácica. No caso do tabagismo, o alerta se
estende a todos os produtos da indústria do tabaco, incluindo dispositivos
eletrônicos, que têm ganhado espaço especialmente entre os mais jovens. “Quando
falamos em tabagismo, não estamos nos referindo apenas ao cigarro tradicional,
mas também aos dispositivos eletrônicos, que podem ser ainda mais prejudiciais
à saúde”, afirma Fernandes.
Diagnóstico e tratamento
exigem avaliação especializada
O diagnóstico do câncer de esôfago é feito, em
geral, por meio de biópsia realizada durante endoscopia digestiva alta, com
apoio de exames de imagem, como tomografia computadorizada e ressonância
magnética, para avaliação da extensão da doença. A identificação do estágio do
tumor é fundamental para a definição da melhor estratégia terapêutica e para o
prognóstico do paciente.
Entre os principais subtipos estão o carcinoma de
células escamosas e o adenocarcinoma, que juntos representam mais de 90% dos
casos. O tratamento pode envolver cirurgia, como a esofagectomia, além de
radioterapia e quimioterapia em situações específicas, muitas vezes combinadas
em diferentes etapas do cuidado. Segundo Fernandes, as abordagens variam
conforme o estágio do tumor e podem incluir técnicas minimamente invasivas, que
tendem a reduzir complicações, diminuir o tempo de internação e favorecer a
recuperação do paciente, com impacto direto na qualidade de vida após o
tratamento.
Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica - SBCO


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