Iniciativa aposta na conexão com a natureza para promover saúde emocional de jovens em vulnerabilidade; ONG Natureza Conecta já impactou 150 crianças e adolescentes neste ano
Animais resgatados que um dia
viveram abandono e negligência hoje cumprem um novo papel: atuam como co-terapeutas
em sessões de terapia assistida por animais com crianças e adolescentes em
situação de vulnerabilidade social, incluindo jovens internos da Fundação CASA.
Esse é o trabalho da Natureza Conecta, ONG que utiliza a conexão com a natureza
para apoiar saúde mental, promover regulação emocional e fortalecer vínculos.
A iniciativa surge em um
contexto desafiador. Muitos adolescentes carregam históricos marcados por
traumas, ansiedade, depressão e sofrimento psíquico. Antes mesmo de chegarem ao
sistema socioeducativo, já vivenciaram violência doméstica, abandono e
insegurança alimentar. É nesse ponto que o cuidado emocional se torna
estratégico.
“A gente trabalha com
jovens que muitas vezes nunca tiveram espaço para se expressar ou construir
vínculos seguros. Quando eles encontram esse espaço, mediado pelos animais,
algo começa a mudar”, explica Daniela Gurgel, médica veterinária e
fundadora da Natureza Conecta.
Em 2025, a ONG atendeu 150 crianças e
adolescentes de cinco instituições, com a realização de 184 sessões. As
atividades ocorreram tanto na fazenda da organização quanto na unidade da
Fundação em Sorocaba.
Celebrado em 7 de abril, o Dia
Mundial da Saúde, criado em 1948 com a fundação da Organização Mundial da
Saúde, traz em 2026 o lema “Juntos pela saúde”, reforçando a importância da
cooperação global para promover bem-estar físico, mental e social. Em um
cenário em que a saúde mental ganha cada vez mais protagonismo, iniciativas
brasileiras mostram, na prática, como o cuidado emocional pode ser decisivo
para interromper ciclos de violência e exclusão entre jovens em situação de
vulnerabilidade.
De acordo com
Gurgel, a terapia assistida por animais tem se mostrado uma ferramenta poderosa
nesse processo. As sessões, realizadas tanto na fazenda da ONG quanto na
unidade da Fundação em Sorocaba, criam um ambiente seguro para a autoexpressão,
o desenvolvimento da autoestima e a construção de relações de confiança. Em
contraste com a violência vivida por muitos desses jovens, o contato com os animais
favorece a autonomia, a responsabilidade e a empatia, elementos fundamentais
para quebrar ciclos de reincidência.
Método transforma
animais em pontes para reconstrução emocional
Um dos diferenciais do
trabalho da Natureza Conecta está na forma como os animais são inseridos no
processo terapêutico. Mais do que presença afetiva, eles representam arquétipos
emocionais que ajudam os jovens a acessar, compreender e ressignificar suas
próprias experiências. O programa tem duração aproximada de um ano e é dividido
em ciclos, nos quais cada espécie cumpre um papel simbólico e terapêutico
específico.
O percurso começa com os cães,
associados ao arquétipo do amigo fiel. Nesse primeiro momento, o foco está na
socialização e na construção de confiança, tanto entre os participantes quanto
com a equipe. Em um grupo que muitas vezes chega marcado por desconfiança e resistência,
esse é o primeiro passo para abrir caminhos.
Na sequência, entram bois e vacas,
conectados ao arquétipo da grande mãe. Nesse estágio, são trabalhados temas
como cuidado, nutrição emocional e criação de vínculos, aspectos especialmente
sensíveis para jovens que vivenciaram rejeição ou abandono.
Os cavalos aparecem como
símbolo de força, poder e superação. O foco não está na montaria, mas na
relação construída com o animal. A proposta é estimular conexão, respeito e
consciência, evitando reforçar relações de dominação.
O ciclo segue com cabras, que
estimulam exploração e resiliência, e com porcos, ligados à construção e à
consolidação de aprendizados. Ao final, os participantes percorrem uma jornada
simbólica de reconstrução emocional, acompanhados por uma equipe
multidisciplinar com psicólogos e profissionais da rede de acolhimento.
“Os pacientes percebem que é
possível recomeçar, mesmo depois da dor. Os animais são nossos maiores professores.
Muitas vezes, aqueles que um dia precisaram ser salvos acabam se tornando
agentes de cura para outros”, afirma Daniela.
Atualmente, a fazenda da
organização, localizada em Itu, no interior de São Paulo, abriga mais de 30
animais resgatados, entre cães, cavalos, porcos, vacas, cabras e aves. Os
encontros com crianças e adolescentes acontecem semanalmente, com sessões de
cerca de duas horas. Parte dos animais também é levada às unidades da Fundação
CASA na região de Sorocaba, ampliando o alcance do atendimento.

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