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sexta-feira, 3 de abril de 2026

Dia Mundial da Saúde: terapia assistida por animais ajuda jovens a fortalecer saúde mental e reconstruir vínculos

Iniciativa aposta na conexão com a natureza para promover saúde emocional de jovens em vulnerabilidade; ONG Natureza Conecta já impactou 150 crianças e adolescentes neste ano 

 

Animais resgatados que um dia viveram abandono e negligência hoje cumprem um novo papel: atuam como co-terapeutas em sessões de terapia assistida por animais com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social, incluindo jovens internos da Fundação CASA. Esse é o trabalho da Natureza Conecta, ONG que utiliza a conexão com a natureza para apoiar saúde mental, promover regulação emocional e fortalecer vínculos.  

A iniciativa surge em um contexto desafiador. Muitos adolescentes carregam históricos marcados por traumas, ansiedade, depressão e sofrimento psíquico. Antes mesmo de chegarem ao sistema socioeducativo, já vivenciaram violência doméstica, abandono e insegurança alimentar. É nesse ponto que o cuidado emocional se torna estratégico. 

A gente trabalha com jovens que muitas vezes nunca tiveram espaço para se expressar ou construir vínculos seguros. Quando eles encontram esse espaço, mediado pelos animais, algo começa a mudar”, explica Daniela Gurgel, médica veterinária e fundadora da Natureza Conecta. 

Em 2025, a ONG atendeu 150 crianças e adolescentes de cinco instituições, com a realização de 184 sessões. As atividades ocorreram tanto na fazenda da organização quanto na unidade da Fundação em Sorocaba. 

Celebrado em 7 de abril, o Dia Mundial da Saúde, criado em 1948 com a fundação da Organização Mundial da Saúde, traz em 2026 o lema “Juntos pela saúde”, reforçando a importância da cooperação global para promover bem-estar físico, mental e social. Em um cenário em que a saúde mental ganha cada vez mais protagonismo, iniciativas brasileiras mostram, na prática, como o cuidado emocional pode ser decisivo para interromper ciclos de violência e exclusão entre jovens em situação de vulnerabilidade. 

De acordo com Gurgel, a terapia assistida por animais tem se mostrado uma ferramenta poderosa nesse processo. As sessões, realizadas tanto na fazenda da ONG quanto na unidade da Fundação em Sorocaba, criam um ambiente seguro para a autoexpressão, o desenvolvimento da autoestima e a construção de relações de confiança. Em contraste com a violência vivida por muitos desses jovens, o contato com os animais favorece a autonomia, a responsabilidade e a empatia, elementos fundamentais para quebrar ciclos de reincidência.

 

Método transforma animais em pontes para reconstrução emocional 

Um dos diferenciais do trabalho da Natureza Conecta está na forma como os animais são inseridos no processo terapêutico. Mais do que presença afetiva, eles representam arquétipos emocionais que ajudam os jovens a acessar, compreender e ressignificar suas próprias experiências. O programa tem duração aproximada de um ano e é dividido em ciclos, nos quais cada espécie cumpre um papel simbólico e terapêutico específico. 

O percurso começa com os cães, associados ao arquétipo do amigo fiel. Nesse primeiro momento, o foco está na socialização e na construção de confiança, tanto entre os participantes quanto com a equipe. Em um grupo que muitas vezes chega marcado por desconfiança e resistência, esse é o primeiro passo para abrir caminhos. 

Na sequência, entram bois e vacas, conectados ao arquétipo da grande mãe. Nesse estágio, são trabalhados temas como cuidado, nutrição emocional e criação de vínculos, aspectos especialmente sensíveis para jovens que vivenciaram rejeição ou abandono. 

Os cavalos aparecem como símbolo de força, poder e superação. O foco não está na montaria, mas na relação construída com o animal. A proposta é estimular conexão, respeito e consciência, evitando reforçar relações de dominação. 

O ciclo segue com cabras, que estimulam exploração e resiliência, e com porcos, ligados à construção e à consolidação de aprendizados. Ao final, os participantes percorrem uma jornada simbólica de reconstrução emocional, acompanhados por uma equipe multidisciplinar com psicólogos e profissionais da rede de acolhimento. 

“Os pacientes percebem que é possível recomeçar, mesmo depois da dor. Os animais são nossos maiores professores. Muitas vezes, aqueles que um dia precisaram ser salvos acabam se tornando agentes de cura para outros”, afirma Daniela. 

Atualmente, a fazenda da organização, localizada em Itu, no interior de São Paulo, abriga mais de 30 animais resgatados, entre cães, cavalos, porcos, vacas, cabras e aves. Os encontros com crianças e adolescentes acontecem semanalmente, com sessões de cerca de duas horas. Parte dos animais também é levada às unidades da Fundação CASA na região de Sorocaba, ampliando o alcance do atendimento.


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