Especialista em
odontogeriatria e atendimento domiciliar, Dra. Cristiane Vasconcellos explica
como adaptar a rotina, reduzir riscos de infecções e prevenir internações
O Brasil já soma mais de 32 milhões de pessoas com
60 anos ou mais, segundo o IBGE, enquanto cerca de 18,6 milhões de brasileiros
vivem com algum tipo de deficiência, de acordo com a PNAD Contínua. No mundo,
doenças bucais afetam aproximadamente 3,5 bilhões de pessoas, conforme a
Organização Mundial da Saúde (OMS).
Esse cenário amplia a preocupação com a higiene
bucal de pacientes com limitações motoras, grupo mais exposto a infecções e
complicações clínicas.
Para a cirurgiã-dentista Dra. Cristiane
Vasconcellos, mestre em Clínica Odontológica Integrada e
referência em odontogeriatria e home care, a rotina de cuidados precisa ser
adaptada à realidade de cada paciente. “A higiene bucal nesses casos não é
pensando em estética, é uma medida de saúde que pode evitar complicações
graves e até internações”, afirma.
Com mais de duas décadas de atuação no atendimento
domiciliar de idosos e pessoas com deficiência, a especialista observa que
ainda há falhas importantes na execução desses cuidados, tanto por familiares
quanto por equipes assistenciais. “Muitos cuidadores não recebem orientação
técnica e acabam improvisando. Pequenos erros diários podem gerar lesões,
dor e perda da qualidade de vida”, diz.
Além do impacto clínico, o tema também ganha
relevância para empresas de saúde, operadoras e serviços de home care, que
lidam diretamente com custos relacionados a infecções evitáveis. A adoção de
protocolos adequados de higiene bucal diária podem reduzir complicações,
otimizar recursos e melhorar indicadores assistenciais.
A especialista aponta sete
cuidados para evitar infecções e complicações na higiene bucal de pacientes com
limitações motoras
A adaptação da higiene bucal exige atenção a detalhes práticos e à condição de cada paciente. Antes de listar as orientações, a especialista destaca que o primeiro passo é entender limitações motoras, cognitivas, quem vai realizar a higiene e o ambiente em que o cuidado será realizado.
- Escolher escovas adequadas e
adaptadas
Escovas com cabeça pequena e cerdas macias facilitam o acesso e reduzem o risco de lesões. Em alguns casos, adaptações no cabo ajudam o cuidador a ter mais firmeza, existem também as escovas curvas que ajudam demais. “A ferramenta correta resolve grande parte da dificuldade operacional”, explica.
- Uso do fio dental adequado
O fio dental de passar somente com uma mão é ideal quando o cuidado é realizado em outra pessoa, ajuda demais o manejo e a prevenção de cáries entre os dentes.
- Atenção à posição do
paciente
A higiene deve ser feita com o paciente levemente inclinado ou sentado, sempre que possível, para evitar aspiração de líquidos. “Esse cuidado simples reduz o risco de complicações respiratórias”, afirma. Muitas vezes é sugerido que essa higiene seja realizada na cama ou no sofá.
- Uso controlado de água e
produtos
Evitar excesso de água e utilizar uma pequena quantidade de creme dental é essencial (quantidade de “um grão de arroz”). Alternativas como gaze umedecida podem ser usadas em muitos pacientes.
- Observação de sinais de
alerta
Sangramentos frequentes, feridas/úlceras, dor, mau hálito persistente ou dificuldade para abrir a boca indicam necessidade de avaliação profissional. “A boca sinaliza problemas antes de outras partes do corpo”, diz.
- Analisar a quantidade de
saliva existente na cavidade bucal
Existem pacientes com excesso de saliva e outros com hipossalivação. Para cada tipo, existe uma conduta diferente, medicamentos para diminuição salivar, outros pacientes já utilizam a saliva artificial.
- Criação de rotina e
frequência adequada
A higiene deve ser realizada tres vezes ao dia. A previsibilidade ajuda tanto o paciente quanto o cuidador a manter o padrão de cuidado.
Como empresas e famílias podem
estruturar o cuidado
Para além da execução diária, a especialista aponta
que a estrutura do serviço faz diferença nos resultados. Empresas de home care
e famílias precisam avaliar critérios técnicos na contratação de profissionais.
Segundo ela, é fundamental buscar equipes com
formação específica em odontologia domiciliar ou hospitalar, além de experiência
com pacientes dependentes. “Não basta saber escovar dentes. É preciso entender
o quadro clínico, os riscos envolvidos e como adaptar o atendimento”, afirma.
Outro ponto relevante é a integração com equipes
multidisciplinares. A higiene bucal deve estar alinhada com médicos,
enfermeiros, fonoaudiólogos e fisioterapeutas, especialmente em pacientes com
doenças crônicas. “Quando o cuidado é integrado, os resultados aparecem mais
rápido e com mínimas intercorrências”, diz.
Vantagens e impactos para o
sistema de saúde
A adoção de protocolos adequados de higiene bucal
traz benefícios que vão além do paciente individual. Para operadoras e serviços
assistenciais, a redução de infecções e complicações clínicas impacta
diretamente custos e tempo de internação.
“A saúde bucal ainda é negligenciada em muitos
protocolos, mas ela influencia diretamente desfechos clínicos. Investir nisso é
uma decisão estratégica, não apenas assistencial”, afirma.
Ela também destaca que o avanço do atendimento
domiciliar no Brasil amplia a necessidade de qualificação nesse tipo de
cuidado. “Levar o consultório até o paciente exige tecnologia, experiência,
sabedoria e preparo. Quando isso é feito corretamente, conseguimos manter
dignidade, conforto e saúde”, conclui.
Cristiane Vasconcellos - cirurgiã-dentista, mestre em Clínica Odontológica Integrada e diretora clínica da Odontolar, em Vitória (ES). Atua há mais de duas décadas no atendimento odontológico voltado à idosos, pessoas com deficiência e pacientes com mobilidade reduzida, com foco em atendimentos hospitalares, em instituições geriátricas e atendimento domiciliares. Ao longo da carreira, consolidou sua atuação no Espírito Santo levando estrutura clínica e tecnologia até a casa de pacientes que não conseguem se deslocar até os consultórios odontológicos. Especialista em Geriatria e Gerontologia, Odontogeriatria, Odontologia Hospitalar, Laserterapia, Prótese Dentária e Saúde Coletiva, dedica sua prática à integração entre saúde bucal, qualidade de vida e cuidado humanizado nesse tipo de pacientes.
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Fontes de pesquisa
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/17270-pnad-continua.html
https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/9126-projecao-da-populacao.html
OMS – Organização Mundial da Saúde (WHO)
https://www.who.int/publications/i/item/9789240061484
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