Especialistas explicam a condição e apontam sinais que merecem
análise e investigação
A disfagia é uma condição caracterizada pela dificuldade para
engolir alimentos, líquidos ou até mesmo saliva, podendo ter diferentes causas,
como doenças neurodegenerativas, pneumonia aspirativa e acidente vascular
cerebral (AVC), entre outras. Essa dificuldade ocorre quando há alterações nas
estruturas ou nos movimentos envolvidos na deglutição, processo que se inicia
na boca, passa pela garganta e segue pelo esôfago até chegar ao estômago. Dados
publicados no Brazilian Journal of Otorhinolaryngology indicam que a
prevalência da condição varia entre 2,3% e 22% na população geral, podendo
atingir de 10% a 30% entre idosos, o que reforça a importância do diagnóstico
precoce e do acompanhamento médico adequado.
De acordo com a Dra. Daniela Antenuzi da Silva, médica e
professora da pós-graduação em Gastroenterologia da Afya Brasília, muitas vezes
o problema está relacionado a alterações no esôfago. “A disfagia deve sempre
ser investigada. Trata-se de um sintoma que pode comprometer a rotina alimentar
e estar associado a diferentes condições, como inflamações, estreitamentos
(estenoses), distúrbios de motilidade, alergias e até neoplasias. Em alguns
casos, também pode ter relação com doenças neurológicas, efeitos colaterais de
medicamentos ou alterações no eixo cérebro-intestino”, explica.
Entre as causas digestivas mais comuns estão a doença do refluxo
gastroesofágico, inflamações no esôfago, cicatrizes provocadas pelo refluxo
crônico e distúrbios de motilidade, como a acalasia. Nessa condição, há
comprometimento da inervação esofágica, o que dificulta a passagem do alimento
do esôfago para o estômago e pode levar ao alargamento do órgão. Já em outros
casos, a dificuldade ocorre na fase inicial da deglutição, envolvendo boca e
garganta, situação conhecida como disfagia de transferência, que muitas
vezes leva o paciente a buscar inicialmente avaliação com o
otorrinolaringologista.
Segundo a professora Daniela, a investigação clínica é essencial
para identificar a origem do sintoma. “A causa mais frequente da disfagia está
relacionada ao refluxo gastroesofágico, que pode provocar espasmos no esôfago,
inflamações ou até estreitamentos decorrentes do refluxo crônico. Por isso, uma
boa anamnese é fundamental para diferenciar se a dificuldade está na passagem
do alimento da boca para a faringe ou se ocorre ao longo do esôfago, o que
orienta a escolha do especialista e dos exames necessários”, afirma.
De acordo com o Dr. Alexandre Martins, médico professor de
otorrinolaringologia da Afya Centro Universitário Itaperuna, sintomas como
engasgos e tosse durante as refeições podem indicar alterações na fase inicial
da deglutição. “Quando o paciente relata engasgos frequentes, tosse ao engolir
ou sensação de alimento parado na garganta, é importante investigar possíveis
alterações na fase orofaríngea da deglutição, que envolve estruturas como boca,
língua, faringe e laringe”, explica.
Segundo o especialista, durante o ato de engolir a laringe se
fecha para impedir que alimentos entrem nas vias aéreas; quando esse mecanismo
não funciona adequadamente, pode ocorrer penetração ou aspiração alimentar,
provocando tosse, engasgos ou a sensação de alimento preso na garganta. Nesses
casos, a avaliação com o otorrinolaringologista é fundamental para identificar
a causa e orientar o tratamento adequado.
Para investigar a causa do problema, podem ser solicitados exames
específicos que avaliam as diferentes etapas da deglutição. Entre eles estão a
nasofibrolaringoscopia flexível, realizada em consultório e que permite
visualizar a faringe e a laringe por meio de uma microcâmera; o
videodeglutograma, exame radiológico dinâmico que analisa em tempo real o
trajeto do alimento da boca até o esôfago; e a videoendoscopia da deglutição,
que avalia como o alimento passa pela garganta e identifica possíveis episódios
de aspiração.
Na investigação das causas digestivas da disfagia, a
endoscopia alta é um dos principais exames, pois permite avaliar a anatomia e a
mucosa do esôfago, identificando inflamações, estreitamentos (estenoses),
lesões ou neoplasias. Quando há suspeita de distúrbios motores, pode ser
indicada a manometria esofágica de alta resolução, exame que analisa o
funcionamento da musculatura do esôfago.
A impedanciometria também pode ser utilizada quando há dúvida
sobre a relação entre a doença do refluxo gastroesofágico e os sintomas. Já nos
casos de disfagia de transferência, o esofagodeglutograma pode ser
especialmente útil, pois realiza uma avaliação dinâmica da deglutição,
permitindo identificar alterações anatômicas ou funcionais da faringe e do
esôfago que nem sempre são observadas na endoscopia.
Segundo os especialistas, o tratamento depende da causa da
disfagia. Em alguns casos, mudanças na alimentação e reabilitação com
fonoaudiologia são suficientes. Em outros, pode ser necessário tratamento
medicamentoso ou procedimentos médicos. Quando diagnosticada precocemente, a
condição costuma ter boa resposta ao tratamento.
12 Sinais e sintomas que podem indicar disfagia, de acordo com os especialistas
1.
Sensação de alimento
preso na garganta ou no peito
2.
Engasgos frequentes
durante as refeições, ao comer ou beber
3.
Tosse ao engolir
alimentos ou líquidos ou durante a deglutição
4.
Dor ou desconforto ao
engolir
5.
Necessidade de beber
líquidos para ajudar a comida a descer
6.
Necessidade de engolir
várias vezes o mesmo alimento
7.
Alteração da voz após
engolir
8.
Sensação de impactação
do alimento na garganta ou no tórax, com ou sem dor
9.
Necessidade de reduzir
a consistência dos alimentos ou mastigar por mais tempo
10. Refeições que demoram mais que o habitual para
serem concluídas
11. Pneumonias de repetição
12. Perda de peso sem causa aparente ou
progressiva
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