Mudanças
hormonais, metabólicas e cognitivas do envelhecimento influenciam tanto a
mamografia quanto às decisões clínicas ao longo da jornada de cuidado; tema
será debatido na 56ª Jornada Paulista de Radiologia
Dados do IBGE mostram que a expectativa
de vida das mulheres no Brasil chegou a 79,9 anos em 2024. O instituto também
aponta que, ao atingir os 80 anos, as brasileiras ainda têm, em média, mais 9,5
anos de vida1. Nesse contexto de maior longevidade feminina, cresce
também a necessidade de discutir o câncer de mama para além das faixas etárias
mais lembradas no dia a dia dos serviços de saúde. Embora o risco da doença
aumente com a idade, mulheres idosas ainda podem ser invisibilizadas tanto nas
estratégias de rastreamento quanto nas decisões sobre investigação e
tratamento.
Segundo dados recentes do Instituto
Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve registrar 78.610 novos casos de câncer
de mama por ano2. Além da alta incidência, o cenário chama atenção
para o impacto da doença em idades mais avançadas: o instituto aponta que as
taxas de mortalidade são mais elevadas entre mulheres mais velhas e que, ao
longo do tempo, houve aumento da proporção de óbitos em pacientes com 80 anos
ou mais.
Para a Dra. Dandara Matos, Tecnóloga em
Radiologia e docente na área, esse cenário mostra que o envelhecimento não pode
ser tratado como um detalhe secundário no cuidado com a mama. “Existe uma falsa
percepção de que, em determinada idade, essa mulher sai do radar do
rastreamento e até da discussão terapêutica. Mas a realidade é que o câncer de
mama continua acontecendo em idades avançadas, inclusive após os 80 anos, e
essas pacientes não podem ser invisibilizadas pelos sistemas de saúde”,
afirma.
Desde setembro de 2025, o SUS ampliou o
acesso à mamografia ao incluir a possibilidade de realização do exame, mesmo
sem sintomas, por mulheres de 40 a 49 anos, desde que a decisão seja tomada em
conjunto com o profissional de saúde e com orientação sobre riscos e benefícios3.
A mudança também reforçou o rastreamento até os 74 anos, com periodicidade
bienal3. Em recomendações publicadas em 2023, o Colégio Brasileiro
de Radiologia e Diagnóstico por Imagem (CBR), a Sociedade Brasileira de
Mastologia (SBM) e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e
Obstetrícia (FEBRASGO) orientam manter o rastreamento mamográfico após os 75
anos quando a mulher não apresentar comorbidades que reduzam sua expectativa de
vida4.
Esse ponto é central porque envelhecer
não significa adoecer da mesma forma. O perfil das mulheres idosas mudou: hoje,
muitas seguem social, física e intelectualmente ativas, com mais autonomia e
maior expectativa de vida. Na prática, isso reforça a necessidade de avaliar
cada caso de forma individualizada, em vez de adotar decisões automáticas
baseadas apenas na idade cronológica.
Do ponto de vista radiológico, uma das
mudanças mais conhecidas do envelhecimento é a redução da densidade mamária
após a menopausa em parte das mulheres. Em geral, mamas menos densas tendem a
facilitar a visualização de algumas lesões na mamografia, o que pode favorecer
a leitura do exame. Ainda assim, essa não é uma regra absoluta: a composição
mamária varia entre pacientes, e a interpretação precisa sempre considerar
sintomas, achados prévios, uso de terapia hormonal, histórico familiar e
contexto clínico global.
“Perder densidade mamária pode, em
muitos casos, melhorar a detecção de lesões, mas isso não significa que o
rastreamento da mulher idosa seja simples ou que a decisão esteja resolvida. A
qualidade do cuidado depende de entender quem é essa paciente, qual é sua
funcionalidade, quais doenças coexistem, se ela consegue seguir com a
investigação e o acompanhamento e qual benefício real o rastreamento ou o
tratamento podem trazer para a sua vida”, explica Dra. Dandara.
Além das mudanças hormonais, o
envelhecimento também traz alterações metabólicas e sistêmicas que devem entrar
na conversa. Obesidade, diabetes, sedentarismo e inflamação crônica de baixo
grau podem influenciar o risco de câncer de mama e a jornada assistencial
dessas pacientes. Soma-se a isso o impacto das mudanças musculoesqueléticas,
que podem comprometer força, mobilidade, postura e provocar dor, interferindo
diretamente no posicionamento e na execução adequada da mamografia.
Outro aspecto importante é a dimensão
cognitiva e funcional. Dificuldades de memória, perda de autonomia, dependência
de cuidadores, limitações de mobilidade e barreiras de acesso ao serviço de
saúde podem comprometer a realização da mamografia, o retorno para exames
complementares e o início oportuno do tratamento. Em alguns casos, até sintomas
ou queixas relevantes podem deixar de ser valorizados, seja pela própria
paciente, seja por serem tratados de forma equivocada como algo “esperado da
idade”.
Na avaliação da especialista, esse debate
precisa avançar também para o pós-diagnóstico. “Quando uma paciente descobre um
câncer de mama aos 80 anos, por exemplo, ela não pode ser automaticamente
subtratada ou excluída de possibilidades terapêuticas apenas por causa da
idade. O etarismo ainda atravessa o cuidado em saúde. O mais adequado é avaliar
reserva funcional, cognição, comorbidades, desejo da paciente e potencial de
benefício. Individualização não é exceção: é parte central da boa prática”,
diz.
A mensagem, segundo a tecnóloga, é
clara: o envelhecimento precisa ser incorporado ao rastreamento e ao tratamento
de forma qualificada, sem generalizações. “A discussão não é apenas até que
idade fazer mamografia, mas como garantir que essa mulher seja vista
integralmente. Hoje temos uma população feminina mais longeva, ativa e
informada. Isso exige um olhar menos padronizado e mais humano, técnico e
individualizado”, conclui Dra. Dandara Matos.
O tema será debatido durante a JPR
2026, maior congresso de diagnóstico por imagem da América Latina, no dia 30 de
abril de 2026, das 16h40 às 17h40, em sessão voltada a Técnicos e Tecnólogos em
Radiologia. Na ocasião, a Dra. Dandara Matos ministra a aula “O Impacto das
Mudanças Hormonais, Metabólicas e Cognitivas na Qualidade do Rastreamento
Mamográfico em Idosas”.
Serviço — JPR 2026
Evento: 56ª Jornada Paulista de
Radiologia
Data: 30 de abril a 3 de maio de 2026
Local: Transamerica Expo Center — São Paulo (SP)
Mais informações: www.jpr.org.br JPR
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