Neurologista explica como a camuflagem social adoece a chamada "geração perdida" do autismo e por que a descoberta na fase adulta é o primeiro passo para a verdadeira qualidade de vida.
Mais do que
um laudo médico, o diagnóstico de autismo na vida adulta revela histórias
profundas de adaptação e desafios silenciosos. Para milhares de pessoas,
receber essa resposta tardiamente é uma experiência transformadora: é o momento
em que dificuldades sociais, interpessoais e sensoriais de longa data
finalmente ganham uma explicação lógica, dando sentido a uma vida inteira de
sentimentos de inadequação ou marginalização.
No entanto,
a ciência tem lançado luz sobre uma realidade preocupante. Existe uma
verdadeira "geração perdida" de adultos autistas que cresceram sem o
suporte adequado. Segundo o Dr. Matheus Trilico, neurologista referência no
atendimento de adultos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e TDAH, a falta
de diagnóstico precoce cobra um preço altíssimo da saúde mental.
"Muitos
adultos chegam ao consultório exaustos. Eles passaram décadas tentando se
encaixar em um mundo que parece funcionar em uma frequência incompreensível.
Para sobreviver a isso, desenvolvem o que chamamos de masking, ou camuflagem
social: um esforço constante e quase inconsciente para esconder seus traços
autistas e parecerem neurotípicos", explica o especialista.
O custo invisível de tentar
"parecer normal"
Embora a
camuflagem seja uma estratégia de sobrevivência para navegar nas situações
sociais, ela é devastadora a longo prazo. Estudos recentes mostram que o
masking — especialmente comum em adultos diagnosticados tardiamente e em mulheres
— está diretamente associado à exaustão crônica, confusão de identidade, baixa
autoestima e quadros graves de depressão e ansiedade.
O impacto
dessa falta de clareza é tão grande que cerca de um quarto dos adultos autistas
relata ter recebido diagnósticos psiquiátricos incorretos ao longo da vida.
Entre as mulheres, essa proporção é ainda maior, chegando a um terço.
"Muitos pacientes atribuem seus sintomas de trauma e ansiedade aos anos
vivendo com um autismo não diagnosticado, enfrentando solidão, exclusão e até
bullying sem entender o porquê. O diagnóstico tardio vem para corrigir essa
rota", pontua o Dr. Trilico.
O alívio da descoberta e os
caminhos para o bem-estar
Apesar de o
processo de descoberta na vida adulta ser muitas vezes confuso e esbarrar na
falta de serviços de saúde preparados para esse público, os benefícios do
diagnóstico são imensos. Ele promove a autoaceitação, o empoderamento e permite
que a pessoa finalmente se conecte com uma comunidade que a entende. No
ambiente familiar e de trabalho, o laudo abre portas para ajustes e acomodações
essenciais.
Para que
essa nova fase seja de fato libertadora, o neurologista ressalta que o foco do
tratamento não deve ser "consertar" o indivíduo, mas sim otimizar o
ambiente ao seu redor e tratar as condições que frequentemente caminham junto
com o autismo.
"Hoje
sabemos que a Terapia Cognitivo-Comportamental, quando adaptada especificamente
para o cérebro autista, é o tratamento de primeira linha para lidar com a
ansiedade e a depressão coexistentes. Além disso, precisamos criar ambientes
corporativos e sociais mais amigáveis à neurodiversidade", orienta o Dr.
Matheus.
O diagnóstico na vida adulta não é uma sentença de limitação. Pelo contrário, a ciência mostra que, com o passar dos anos e o autoconhecimento adequado, muitos adultos autistas relatam uma melhora significativa na qualidade de vida social. "O diagnóstico não define a pessoa, ele traz clareza para uma história vivida no escuro. É a permissão definitiva para que esse adulto pare de se camuflar e comece, finalmente, a viver de forma autêntica e respeitosa consigo mesmo", conclui o neurologista.
Dr. Matheus Luis Castelan Trilico - CRM 35805PR, RQE 24818. Médico pela Faculdade Estadual de Medicina de Marília (FAMEMA); Neurologista com residência médica pelo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC-UFPR); Mestre em Medicina Interna e Ciências da Saúde pelo HC-UFPR .Pós-graduação em Transtorno do Espectro Autista
Mais artigos sobre TEA e TDAH em adultos podem ser vistos no portal do neurologista: https://blog.matheustriliconeurologia.com.br/
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