Após prisões na Ultrafarma e Fast Shop,
especialista revela os crimes que podem levar executivos para a cadeia e aponta
o compliance como solução
A recente Operação Ícaro, que resultou na prisão de empresários de destaque
como o dono da Ultrafarma e um diretor da Fast Shop, reverberou no cenário
corporativo brasileiro, acendendo um sinal de alerta sobre os crescentes riscos
penais que executivos e empresas enfrentam. Em um ambiente de maior escrutínio
e rigor legal, a necessidade de conformidade e prevenção de ilícitos nunca foi
tão crucial.
Segundo
a especialista em Direito Penal Econômico, Jenifer Moraes, a atividade
empresarial, por sua natureza heterogênea, está suscetível a uma vasta gama de
crimes. "São diversas as modalidades delitivas que podem ocorrer no âmbito
empresarial, passando por crimes comuns até figuras mais específicas, como o
delito de cartel ou crimes contra a ordem tributária, que costumam deter um
certo protagonismo nessa seara", explica Moraes. A complexidade das
grandes estruturas corporativas, com suas amplas cadeias de delegação de
competências, é um dos maiores desafios para a identificação de provas e dos
verdadeiros executores de delitos.
A
Operação Ícaro, ao ter como um de seus alvos um diretor de uma gigante do
varejo, serve como um exemplo contundente dos riscos diretos à liberdade dos
administradores. "A escandalosa situação evidencia a preocupação que o
conselho administrativo e as empresas contemporâneas devem manter em relação ao
compliance especificamente voltado à mitigação de riscos penais", afirma
Moraes. Para além da supervisão direta, que muitas vezes é inviável em grandes
corporações, o foco deve ser a implementação de uma cultura de conformidade
robusta, que inclua mecanismos para que funcionários possam denunciar
anonimamente eventuais ilegalidades, permitindo que sejam sanadas a tempo.
É
fundamental compreender que, na maioria dos casos, a responsabilidade penal
recai sobre a pessoa física. "A responsabilidade penal só recai sobre a
pessoa jurídica nos crimes ambientais. Em todas as outras modalidades, quem
responde são os executores mediatos ou imediatos, ou seja, colaboradores,
gerentes, diretores e, até mesmo, administradores ou acionistas, a depender da
situação", esclarece a especialista. Essa responsabilidade pode ser tanto
por ação (comissiva) quanto por omissão, como a falta de fiscalização devida.
As
penas para crimes empresariais são severas. O delito de corrupção ativa, por
exemplo, prevê reclusão de 2 a 12 anos, mais multa. A sonegação fiscal pode
levar a 2 a 5 anos de reclusão, mais multa, enquanto a lavagem de dinheiro tem
pena de 3 a 10 anos de reclusão, mais multa.
Diante deste cenário, o investimento em programas de compliance eficazes e uma cultura organizacional pautada pela ética e legalidade tornam-se não apenas uma boa prática, mas uma necessidade imperativa para a proteção da reputação corporativa e, mais importante, da liberdade de seus líderes.
Fonte: Jenifer Moraes - professora de Direito Penal da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Doutoranda em Direito Penal pela Universidade de Salamanca. Mestre em Direito Penal pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário