A Organização das Nações Unidas para a Educação, a
Ciência e a Cultura (UNESCO), estima que metade dos estudantes em todo o mundo,
850 milhões de crianças e adolescentes de 102 países, terão que ficar em casa
por semanas ou meses. Diante de uma pandemia que exige o distanciamento social,
as sociedades têm enfrentado o desafio de se reorganizar para manter o fluxo de
trabalho e de educação dentro das próprias casas, contando com o apoio da
tecnologia para aproximar alunos, professores e pais. Da noite para o dia, a
sala de aula veio para dentro de muitos lares! Ao refletir sobre o papel
desempenhado pelos pais brasileiros na vida educacional dos filhos, vemos que
este momento pode ser acompanhado por uma grande oportunidade para que as
famílias se aproximem do processo de aprendizagem de crianças e jovens. Se
enxergamos esse momento em perspectiva, vamos interpretar essa vivência de um
modo mais otimista; uma experiência que nos levará a um novo patamar como pais
e mediadores corresponsáveis pela educação que se inicia em sala de aula, mas
que segue atuante em todos os momentos da vida do estudante. Não estamos
dizendo que o aprendizado a distância será o futuro da educação; ao contrário,
este é um momento de exceção e, apesar de ter que ser tratado como tal, também
pode ser visto como um potencial impulsionador de mudanças positivas – e tão
necessárias – na educação brasileira.
O desafio está imposto a todos. Para as famílias
cabe a ampliação do próprio repertório sobre o ato de educar. Quando pensamos a
educação em um sentido amplo e questionamos pais e responsáveis sobre o que
desejam para os filhos, invariavelmente eles respondem com palavras como
colaboração, solidariedade, empatia, compaixão, honestidade, responsabilidade,
resiliência, autocuidado e autoestima, capacidade de resolver problemas com
criatividade, pensamento crítico e científico, flexibilidade e adaptabilidade.
Nesse sentido, estamos diante de um momento que vai definitivamente marcar
nossas vidas com muitos aprendizados; vai, ainda, marcar a história da educação
com muitas transformações. São exatamente essas situações-limite – de maior
desafio, conflito e desconforto, que extrapolam a sala de aula –, que melhor
servem como alavanca de aprendizado significativo para lidar com os desafios da
vida.
Entretanto, os pais e responsáveis devem saber que
a educação online, implementada em um contexto como o da quarentena, tem
peculiaridades. Sair temporariamente da escola física para a digital requer um
preparo e profissionalismo que muitas soluções não oferecem. É necessário estar
atento ao uso da tecnologia com intencionalidade pedagógica, que apresenta um
olhar para a educação – uma forma de educar que dialoga com as demandas do
século XXI. Análise do Fórum Econômico Mundial revela que a
pandemia do coronavírus está mudando a forma como milhões de pessoas são
educadas no mundo ao fornecer uma brecha digital para que novas abordagens
pedagógicas, com uso de tecnologias, sejam implementadas como alternativas às
salas de aula fechadas. Com tantas mudanças, a oportunidade aqui é a da
inovação educacional para muitas escolas que mantêm o paradigma tradicional de
ensino e aprendizagem que não conversa mais com a geração atual de
estudantes.
Todos nós – escola, educadores, professores,
estudantes e famílias – estamos sendo convidados, ou melhor, obrigados, a
repensar crenças e atitudes; a desaprender e aprender; a se aventurar em novas
práticas e possibilidades. Ao mesmo tempo e, em especial, a desenvolver e
fortalecer valores como a colaboração, compaixão e solidariedade. Escolas e
professores estão trabalhando intensamente para redesenhar totalmente os
processos de ensino-aprendizagem, calendários e currículos para conseguirem não
somente se adaptarem ao modelo a distância, mas para garantir que ocorra com
máxima eficiência de aprendizagem. Em paralelo, ainda apoiam a formação dos
estudantes e famílias para lidarem com esses novos modelos de trabalho. Os
estudantes, por sua vez, estão sendo desafiados a aprenderem com maior
autonomia a assumirem uma maior responsabilidade pelo próprio aprendizado; a se
organizarem para atingir os objetivos definidos, desenvolverem novos hábitos e
rotinas de estudo. As famílias, que muitas vezes se mantiveram distantes da
rotina acadêmica dos filhos – em função de limitações impostas pela rotina do
trabalho –, estão tendo a oportunidade de se reaproximarem e se conectarem com
os filhos; retomarem o papel de mediadores, acompanhando e apoiando as rotinas
de estudo.
Quando pensamos
nos recursos didáticos, novas formas de trocas e relacionamento entre
professores e estudantes serão intensificadas daqui em diante. Este é um
processo já em curso, mas ainda tímido na educação brasileira; em
contrapartida, as experiências de outros países já mostram naturalidade nesta
relação entre tecnologia e educação. Neste contexto de isolamento, plataformas
de aprendizagem digitais e ferramentas de comunicação virtuais tornaram-se
imprescindíveis. O estudante de hoje, que já nasceu conectado à vida online,
tem a oportunidade de desenvolver novas competências do uso do digital que lhe
acompanharão por toda a vida, trazendo novos significados para além do
entretenimento e do lazer como a responsabilidade do uso e a consciência dos
riscos e oportunidades que o mundo virtual traz. Coordenadores, professores e
famílias poderão ampliar a capacidade de apoio e acompanhamento a partir de
dados e evidências oferecidos por um ambiente de aprendizagem digital.
Diante do novo e do inesperado, é natural que se
instale algum tipo de tensão e ansiedade – o que deverá exigir autogestão e
muito equilíbrio emocional de todos nós; competências essas, aliás, mais do que
essenciais em um mundo cada vez mais volátil, incerto, complexo e ambíguo. Para
que possamos aproveitar o momento imposto da melhor maneira possível, é
imprescindível que uma relação de confiança, cooperação e empatia se
estabeleçam entre todos os atores da comunidade escolar. Estaremos todos
aprendendo juntos. Não existe uma solução única e o caminho será construído em
conjunto. É fato que seremos muito desafiados; que algumas frustrações
ocorrerão; e isso faz parte! Mais do que "sempre", espera-se da
comunidade escolar uma atitude e mentalidade de crescimento, a partir da qual
os erros são parte indissociável da jornada de aprendizado.
Uma nova geração de aprendizes está nascendo com a
crise. Mais capaz e mais atenta aos desafios que virão pela frente. Talvez esse
seja o “empurrão” que faltava para promover a tão necessária e desejada
transformação da educação. O futuro nos confirmará as oportunidades que o
presente impôs.

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