Promovida pelo Grupo Brasileiro de Câncer de Cabeça e Pescoço (GBCP), a campanha Julho Verde 360 - Integração para transformar o futuro defende a mobilização de profissionais de saúde, pesquisadores, gestores, pacientes, familiares e sociedade para ampliar a prevenção e o diagnóstico precoce. O alerta é reforçado por pesquisa do INCA, segundo a qual 78,2% dos casos analisados no Brasil foram diagnosticados quando a doença já estava em fase avançada
Mais de 40 mil brasileiros deverão receber, neste
ano, o diagnóstico de alguns dos principais cânceres de cabeça e pescoço.
Embora os avanços observados nas áreas da cirurgia, radioterapia e tratamentos
sistêmicos tenham ampliado as possibilidades terapêuticas, o diagnóstico tardio
continua sendo um dos maiores desafios relacionados a essas doenças. Diante
desse cenário, o Grupo Brasileiro de Câncer de Cabeça e Pescoço
(GBCP) lança a campanha Julho Verde 2026 com o tema "Julho
Verde 360 – Integração para transformar o futuro",
destacando a importância da atuação integrada de profissionais de saúde,
gestores, pacientes, familiares e sociedade para ampliar a prevenção e
favorecer o diagnóstico precoce. O site oficial é https://www.gbcp.org.br/julho-verde-2026.
Pesquisa conduzida pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA), publicada
na The
Lancet Regional Health – Americas, analisou
mais de 145 mil casos registrados no Brasil entre 2000 e 2017 e revelou que
78,2% foram diagnosticados nos estágios III ou IV, ou seja, quando o tumor já
apresentava maior extensão local, comprometimento de estruturas vizinhas e,
frequentemente, acometimento dos linfonodos do pescoço, exigindo tratamentos
mais complexos e aumentando o risco de sequelas funcionais. O mesmo
levantamento mostrou maior percentual de tumores em estágio avançado na
hipofaringe (91,3%), seguida por orofaringe (86,6%), cavidade oral (75,1%) e
laringe (69,5%).
O conceito da campanha parte do entendimento de que
a transformação do cenário dos cânceres de cabeça e pescoço no Brasil depende
de um esforço coletivo. O Julho Verde 360 foi concebido como uma plataforma
permanente de informação e mobilização, promovendo a conexão entre conhecimento
científico, educação em saúde e conscientização pública. A proposta é
fortalecer o diálogo entre os diferentes atores envolvidos no cuidado e ampliar
o acesso da população a informações qualificadas e baseadas em evidências.
Os cânceres de cabeça e pescoço incluem tumores que
podem acometer a cavidade oral, a faringe, a laringe, as glândulas salivares, a
cavidade nasal, os seios paranasais e a tireoide. Embora representem doenças
distintas, muitas compartilham fatores de risco importantes, especialmente o
tabagismo, o consumo excessivo de bebidas alcoólicas e, em alguns casos, a
infecção pelo papilomavírus humano (HPV).
Segundo a oncologista clínica Milena Mak,
presidente do GBCP, o estigma ainda associado aos cânceres de cabeça e pescoço
reforça a necessidade de ampliar o envolvimento de diferentes setores da
sociedade no cuidado aos pacientes. "O câncer de cabeça e pescoço é
bastante prevalente no nosso meio, mas ainda é estigmatizado. Então, é
relevante ter esse olhar dos profissionais de saúde e da sociedade como um todo
para a prevenção, o diagnóstico precoce e o tratamento multidisciplinar dessas
doenças para melhorarmos os resultados relacionados a essa doença no
país", afirma.
Diferentes tipos de câncer, um
desafio comum
Muitas pessoas acreditam que o câncer de cabeça e
pescoço seja uma única doença. Na prática, trata-se de um conjunto de tumores
que podem surgir em diferentes estruturas anatômicas, incluindo boca, língua, gengivas,
lábios, orofaringe, hipofaringe, nasofaringe, laringe, glândulas salivares,
cavidade nasal, seios paranasais e tireoide. Apesar de muitos desses tumores
compartilharem características biológicas semelhantes, cada localização
apresenta particularidades em relação aos sintomas, comportamento da doença,
prognóstico e estratégias terapêuticas.
Milena Mak explica que os carcinomas escamosos são
os tumores mais frequentes dentro desse grupo. "O que temos de mais
prevalente são os carcinomas escamosos de cabeça e pescoço. Estamos falando dos
tumores que acometem a boca, a garganta, a laringe, a faringe e até a região da
nasofaringe, localizada atrás do nariz. Basicamente, qualquer tumor que ocorre
nessa região é classificado como câncer de cabeça e pescoço", explica.
Sintomas que não devem ser
ignorados
Feridas na boca que não cicatrizam, manchas
esbranquiçadas ou avermelhadas na mucosa oral, rouquidão persistente,
dificuldade para engolir, dor ao engolir, sensação de algo preso na garganta e
caroços no pescoço estão entre os principais sinais de alerta. Embora muitas
dessas manifestações possam estar associadas a condições benignas,
especialistas recomendam investigação sempre que os sintomas persistirem por
mais de duas semanas.
Nos tumores da cavidade oral, lesões semelhantes a
aftas podem representar os primeiros sinais da doença. Já nos cânceres de
laringe, a rouquidão prolongada costuma ser um dos principais alertas. Em
relação ao câncer de tireoide, muitas vezes o primeiro achado é um nódulo
percebido pelo próprio paciente durante o autoexame ou identificado em
consultas de rotina.
De acordo com Milena Mak, os sintomas persistentes
merecem avaliação especializada. "É muito importante avaliar sintomas que
não melhoram. Por exemplo, uma úlcera na língua ou na gengiva, ou uma afta que
permanece por duas ou três semanas sem cicatrizar. É preciso pensar que pode
haver algo diferente acontecendo e buscar atendimento", alerta a
especialista. Conforme acrescenta a oncologista, caroços persistentes no
pescoço também merecem investigação.
Prevenção exige a participação de todas as peças
O tabagismo permanece entre os fatores mais
fortemente associados ao desenvolvimento desses tumores. Cigarros
convencionais, dispositivos eletrônicos, produtos aquecidos e narguilés expõem
o organismo a substâncias carcinogênicas capazes de provocar alterações
genéticas relacionadas ao surgimento do câncer. O consumo excessivo de bebidas
alcoólicas também continua sendo um importante fator de risco. Quando álcool e
tabaco estão associados, o potencial carcinogênico é potencializado.
Outra frente estratégica envolve a vacinação contra
o HPV. Nas últimas décadas, especialistas têm observado crescimento dos
cânceres de orofaringe relacionados ao vírus, particularmente ao subtipo
HPV-16. Diferentemente dos tumores clássicos associados ao tabaco e ao álcool,
esses cânceres frequentemente acometem indivíduos mais jovens e muitos pacientes
nunca fumaram.
Segundo Milena Mak, a vacinação representa uma das
principais estratégias preventivas atualmente disponíveis. "A gente tem
hoje uma forma de prevenção, que é a vacina de HPV, disponível aqui no Brasil
tanto para meninos como para meninas, a partir dos 9 anos de idade, distribuída
pelo SUS. Então, é muito importante fazer essa prevenção, tanto para evitar
esse tipo de tumor, como evitar outros tumores HPV-relacionados", destaca.
Atualmente, o Sistema Único de Saúde oferece a
vacina gratuitamente para meninas e meninos de 9 a 14 anos, além de grupos
especiais contemplados pelo Programa Nacional de Imunizações. A ampliação da
cobertura vacinal é considerada uma das medidas de saúde pública com maior
potencial para reduzir a incidência dos tumores relacionados ao HPV nas
próximas décadas.
Diagnóstico precoce transforma
o tratamento
O impacto do diagnóstico precoce pode ser observado
diretamente nos resultados clínicos. Dados do programa SEER, do Instituto
Nacional de Câncer dos Estados Unidos, mostram que, quando os tumores de
cavidade oral e faringe são identificados ainda restritos ao órgão de origem, a
sobrevida relativa em cinco anos pode chegar a aproximadamente 89%. Quando há
disseminação para linfonodos regionais, esse índice cai para cerca de
70%.
Além de aumentar as chances de cura, o diagnóstico
precoce permite tratamentos menos extensos e com menor impacto funcional.
Conforme explica Milena Mak, "é muito diferente ter um paciente com um
tumor localizado apenas na língua, que muitas vezes pode ser tratado apenas com
cirurgia, e uma pessoa com um tumor maior, com acometimento dos linfonodos, que
vai precisar de cirurgia, quimioterapia e radioterapia. Portanto, isto não muda
somente a chance de cura, mas também o tipo de tratamento a que essa pessoa
será submetida".
Tratamento vai muito além da
retirada do tumor
Os cânceres de cabeça e pescoço estão entre as
doenças oncológicas que mais exigem atuação interdisciplinar. O cuidado pode
envolver cirurgiões de cabeça e pescoço, oncologistas clínicos,
radioterapeutas, patologistas, radiologistas, dentistas, estomatologistas,
fonoaudiólogos, nutricionistas, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos,
assistentes sociais e especialistas em cuidados paliativos.
Dentistas e estomatologistas frequentemente
participam da identificação precoce de lesões suspeitas. Patologistas e
radiologistas são essenciais para a confirmação diagnóstica e o estadiamento da
doença. Cirurgiões, oncologistas clínicos e radioterapeutas definem
conjuntamente a melhor estratégia terapêutica. Após o tratamento,
fonoaudiólogos auxiliam na recuperação da voz e da deglutição, enquanto
nutricionistas e psicólogos atuam na reabilitação global do paciente.
Ao propor uma visão de cuidado em 360 graus, o Julho Verde 2026 busca ampliar a compreensão de que a prevenção, o diagnóstico precoce, o tratamento e a reabilitação dependem da atuação coordenada de diferentes profissionais, instituições e da própria sociedade. A mensagem central da campanha é que cada peça importa e somente a integração será capaz de transformar o futuro dos cânceres de cabeça e pescoço no Brasil.
GBCP - Grupo Brasileiro de Câncer de Cabeça e Pescoço
https://www.gbcp.org.br/


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