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quinta-feira, 2 de julho de 2026

Brasil registrou mais de 826 mil casos de hepatites virais​ em 24 anos​; infectologista esclarece mitos e verdades sobre​ ​​as​ doença​s​​.

Campanha reforça a importância da testagem, vacinação e tratamento precoce para evitar cirrose, insuficiência hepática e câncer de fígado


O Brasil registrou mais de 826 mil casos confirmados de hepatites virais entre 2000 e 2024, segundo dados do Ministério da Saúde. As infecções, causadas pelos vírus das hepatites A, B, C, D e E, atingem o fígado e podem evoluir de forma silenciosa, especialmente nos casos das hepatites B e C. Quando não diagnosticadas e tratadas, podem levar a complicações graves, como cirrose, insuficiência hepática e câncer de fígado 

O alerta ganha força durante o Julho Amarelo, mês dedicado à conscientização sobre as hepatites virais. Apesar dos avanços na prevenção, diagnóstico e tratamento, ainda há muitas dúvidas e informações equivocadas sobre a doença. 

De acordo com Tassiana Galvão, infectologista da Santa Casa de São Roque - unidade da Prefeitura do município​​ e​​ gerenciada pelo CEJAM - Centro de Estudos e Pesquisas Dr. João Amorim, a ausência de sintomas não deve ser interpretada como ausência de risco. 

“A hepatite é perigosa justamente porque, muitas vezes, não dói, não dá febre, não deixa a pessoa amarela e não manda aviso. Ela pode comprometer o fígado por anos em silêncio. Esperar sintoma aparecer é uma estratégia ruim e, em alguns casos, pode significar descobrir a doença tarde demais”, afirma. 

Segundo a infectologista, a testagem é uma das principais ferramentas para interromper o ciclo de diagnóstico tardio. Muitas pessoas só descobrem a infecção ao doar sangue, durante exames de rotina, no pré-natal ou quando já existe alteração hepática. 

“O teste é simples, mas pode mudar completamente o destino de uma pessoa. Na hepatite C, o diagnóstico pode abrir caminho para a cura. Na hepatite B, permite acompanhamento e controle antes que o fígado sofra danos irreversíveis”, explica Tassiana. 

A seguir, a especialista esclarece mitos e verdades sobre as hepatites virais.

 

1. “Se eu tivesse hepatite, eu saberia.”

Mito. Muitas pessoas com hepatites virais, principalmente B e C, não apresentam sintomas por anos. A ausência de sinais não significa que o vírus não esteja causando danos ao fígado. 

“Esse é um dos mitos mais perigosos. A pessoa se sente bem, trabalha, leva uma vida normal e acredita que está tudo certo. Mas a hepatite pode estar evoluindo em silêncio. O corpo nem sempre dá sinais claros antes de uma complicação”, alerta a infectologista.

 

2. “Hepatite sempre deixa pele e olhos amarelos.”

Mito. A icterícia, caracterizada pelo amarelamento da pele e dos olhos, pode ocorrer, mas não aparece em todos os casos. Algumas pessoas têm sintomas inespecíficos, como cansaço, náuseas, dor abdominal, urina escura, fezes claras e perda de apetite. Outras não sentem nada. 

“Esperar ficar amarelo para investigar hepatite é um erro. A pele amarela pode aparecer, mas não é regra. Muitas vezes, quando os sinais ficam evidentes, a doença já está mais avançada, afirma.

 

3. “Hepatite C tem cura.”

Verdade. A hepatite C tem tratamento altamente eficaz e pode ser curada na maioria dos casos. Os medicamentos atuais são mais simples, seguros e com altas taxas de resposta. 

“Hoje ​​temos tratamento, possibilidade de cura e temos como evitar que essa infecção evolua para cirrose ou câncer de fígado. O gargalo é encontrar quem ainda não foi diagnosticado, destaca.

 

4. “Hepatite B não é grave se a pessoa não sente nada.”

Mito. A hepatite B pode se tornar crônica e causar lesões progressivas no fígado, mesmo sem sintomas. Em alguns casos, pode evoluir para cirrose e câncer hepático. 

“Sentir-se bem não é garantia de que o fígado está protegido. A hepatite B pode ser silenciosa e ainda assim grave. Por isso, vacina, teste e acompanhamento médico são fundamentais”, explica a profissional.

 

5. “A vacina contra hepatite B também ajuda a prevenir a hepatite D.”

Verdade. A hepatite D depende da presença do vírus da hepatite B para ocorrer. Por isso, ao prevenir a hepatite B, a vacinação também reduz o risco de hepatite D. 

“A hepatite D pode ser muito agressiva. A melhor forma de enfrentá-la é impedir a hepatite B, através da​​ vacinação.

 

6. “Existe vacina para todos os tipos de hepatite viral.”

Mito. Existem vacinas contra as hepatites A e B, mas não há vacina disponível contra hepatite C. Para esse tipo, a prevenção depende de testagem, tratamento e redução de situações de risco. 

“A hepatite C não tem vacina, mas tem cura. Isso torna o diagnóstico ainda mais importante”, pontua.

 

7. “Alicate de unha, lâmina de barbear, tatuagem e piercing em contato com sangue contaminado podem transmitir hepatite.”

Verdade. Objetos que entram em contato com sangue contaminado podem transmitir hepatites virais se forem compartilhados ou não forem esterilizados corretamente. O cuidado vale para manicures, barbearias, estúdios de tatuagem, piercings e procedimentos estéticos invasivos.
 

8. “Relação sexual sem preservativo pode transmitir hepatite B.”

Verdade. A hepatite B pode ser transmitida por via sexual. O uso de preservativo e a vacinação são medidas importantes de prevenção. 

“A hepatite B é uma infecção sexualmente transmissível. Muita gente não associa hepatite a sexo desprotegido, mas essa é uma via real de transmissão”, alerta a infectologista.

 

9. “Exames de rotina do fígado normais descartam hepatite.”

Mito. Exames como TGO, TGP e outras enzimas hepáticas ajudam a avaliar o fígado, mas não substituem testes específicos para hepatites virais. Em alguns casos, a pessoa pode ter hepatite mesmo com alterações discretas ou resultados momentaneamente normais.

 

10. “Quem recebeu transfusão de sangue há muitos anos deve considerar fazer teste para hepatite C.”

Verdade. Pessoas que receberam transfusão de sangue ou hemoderivados antes da implementação de triagens mais rigorosas devem conversar com um profissional de saúde sobre a necessidade de testagem. 

“Há pessoas que foram expostas décadas atrás e nunca imaginaram que poderiam ter hepatite. O teste é uma forma de resgatar esses diagnósticos antes que virem complicações”, destaca.
 

11. “Hepatite é problema apenas de quem usa drogas ou tem muitos parceiros sexuais.”

Mito. As hepatites virais podem atingir diferentes perfis de pessoas. Associar a doença apenas a determinados grupos aumenta o estigma e pode afastar a população da testagem. 

“Quando a sociedade coloca a hepatite dentro de uma caixinha moral, perde-se a chance de diagnosticar muita gente. O vírus não se importa com rótulos”, afirma a infectologista.


12. “Hepatite A pode estar relacionada à água e alimentos contaminados.”

Verdade. A hepatite A é transmitida principalmente pela via fecal-oral, muitas vezes por água ou alimentos contaminados e por higiene inadequada das mãos. Medidas como lavar bem as mãos, consumir água tratada e higienizar alimentos ajudam na prevenção.
 

13. “Beber álcool é a única forma de desenvolver cirrose.”

Mito. O consumo excessivo de álcool é uma causa importante de doença no fígado, mas não é a única. Hepatites virais crônicas, especialmente B e C, também podem levar à cirrose e ao câncer hepático. Além disso, o álcool pode agravar a evolução de quem já tem hepatite. 

“A ideia de que só o álcool destrói o fígado é falsa. Vírus também podem causar dano progressivo e grave. A diferença é que, quando diagnosticamos cedo, conseguimos intervir antes que a doença avance”, ressalta.
 

14. “Gestantes devem fazer teste para hepatites.”

Verdade. A testagem durante o pré-natal é fundamental, especialmente para hepatite B, devido ao risco de transmissão da pessoa gestante para o bebê. Com diagnóstico adequado, é possível adotar medidas para reduzir esse risco.

​​Durante o Julho Amarelo, a recomendação é que pessoas que nunca fizeram testes para hepatites B e C, que não sabem se estão vacinadas contra hepatite B ou que tiveram qualquer situação de risco procurem uma unidade de saúde a testagem e a vacinação estão disponíveis gratuitamente pelo SUS.​​
 

Também é importante manter o uso de preservativo, não compartilhar objetos cortantes ou perfurantes, exigir materiais descartáveis ou esterilizados em procedimentos estéticos e realizar o pré-natal completo no caso de gestantes. 

“A hepatite pode ser silenciosa, mas o diagnóstico não precisa ser tardio. O Julho Amarelo existe para lembrar que informação, vacina e testagem salvam vidas. Quem nunca testou deve procurar orientação. Esse cuidado pode evitar uma complicação grave no futuro”, finaliza a médica. 



CEJAM - Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim”
@cejamoficial    

 

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