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quinta-feira, 2 de julho de 2026

Com até 30 mil novos casos por ano, cardiopatias congênitas exigem ampliação de rede especializada, alerta InCor

Referência nacional em casos de alta complexidade, InCor (HCFMUSP) realiza até 600 cirurgias e 800 procedimentos por cateterismo por ano; especialistas defendem diagnóstico precoce e ampliação de redes especializadas 

 

Referência nacional no diagnóstico e tratamento de cardiopatias congênitas de alta complexidade, o Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (InCor-HCFMUSP) acompanha de perto a evolução dos cuidados destinados a crianças nascidas com malformações cardíacas. Apesar dos avanços expressivos da medicina nas últimas décadas, especialistas da instituição alertam que o principal desafio no Brasil continua sendo garantir acesso oportuno ao diagnóstico e tratamento especializado. 

As cardiopatias congênitas correspondem à malformação congênita mais frequente na infância e afetam entre 27 mil e 30 mil crianças por ano no país, de acordo com dados do Ministério da Saúde. A condição pode englobar alterações na estrutura ou no funcionamento do coração presentes desde o nascimento e pode variar de quadros leves até casos complexos, que exijam intervenção nos primeiros meses de vida. 

Reconhecido como um dos principais centros de referência da América Latina, o InCor realiza anualmente entre 500 e 600 cirurgias cardíacas pediátricas e aproximadamente 500 a 800 procedimentos por cateterismo em pacientes com cardiopatias congênitas. O ambulatório especializado recebe cerca de 50 novos pacientes por mês, encaminhados de diversas regiões do Brasil. 

“Hoje dispomos de conhecimento, tecnologia e equipes altamente especializadas capazes de tratar a maioria das cardiopatias congênitas com excelentes resultados. O grande desafio é garantir que todas as crianças tenham acesso a esse cuidado no momento adequado”, explica Marcelo Jatene, diretor da Unidade de Cirurgia Cardíaca Pediátrica do InCor-HCFMUSP.

 

Diagnóstico precoce

Diagnóstico precoce pode garantir o sucesso do tratamento. O principal exame para identificação das cardiopatias congênitas durante a gestação é o ecocardiograma fetal, que permite planejar o parto e garantir atendimento especializado desde os primeiros momentos de vida. No entanto, a realidade brasileira ainda é marcada pela distribuição desigual de profissionais e serviços especializados. Em muitas regiões, a falta de acesso ao diagnóstico fetal faz com que crianças cheguem tardiamente aos centros de referência, reduzindo as possibilidades de intervenção no momento ideal.

“O diagnóstico durante a gestação permite que toda a assistência seja organizada previamente, garantindo que o recém-nascido receba o tratamento necessário imediatamente após o nascimento. Quando isso não acontece, a jornada até o atendimento adequado costuma ser mais complexa”, explica Gustavo Foronda, coordenador-geral da Unidade de Cardiologia Pediátrica e Cardiopatia Congênita no Adulto do InCor-HCFMUSP. 

Além do diagnóstico, a insuficiência de leitos de terapia intensiva pediátrica, de equipes capacitadas e de centros habilitados para procedimentos de alta complexidade ainda representa um importante gargalo para o sistema de saúde.

 

Mais adultos com cardiopatias congênitas

O trabalho desenvolvido por centros especializados como o InCor tem contribuído diretamente para a mudança no prognóstico dos pacientes. Atualmente, segundo diretrizes da American Heart Association (AHA) e do American College of Cardiology (ACC), cerca de 85% das crianças com cardiopatias congênitas alcançam a vida adulta, cenário impensável há algumas décadas. 

Especialistas da instituição explicam, também, que uma parcela crescente desses pacientes leva uma vida plenamente integrada à sociedade, com independência funcional, inserção no mercado de trabalho e prática regular de atividades físicas. 

“Os avanços obtidos ao longo dos últimos anos mudaram a história natural dessas doenças. Hoje observamos cada vez mais pacientes chegando à vida adulta com qualidade de vida e integração social plena”, complementa Marcelo Jatene.

 

Novas tecnologias

Como centro de referência, o InCor também está na vanguarda da incorporação de tecnologias que ampliam a precisão diagnóstica e a segurança dos tratamentos. Ferramentas como ecocardiografia tridimensional, tomografia computadorizada de alta resolução, ressonância magnética cardíaca avançada e soluções baseadas em inteligência artificial fazem parte da rotina assistencial da instituição. 

Entre os recursos mais inovadores está a impressão 3D aplicada à cardiologia, que permite reproduzir com precisão a anatomia cardíaca de cada paciente para auxiliar no planejamento de cirurgias de alta complexidade. “Essas tecnologias nos permitem compreender melhor cada caso e definir estratégias terapêuticas mais seguras e personalizadas”, aponta Jatene.

O avanço dos procedimentos por cateterismo também tem ampliado as opções de tratamento, possibilitando, em determinadas situações, substituir cirurgias convencionais por abordagens minimamente invasivas. “Em muitos pacientes, conseguimos reduzir o tempo de internação, acelerar a recuperação e melhorar a qualidade de vida graças a essas novas tecnologias”, acrescenta Foronda.

 

Ampliação do acesso

Para os especialistas do InCor, o Brasil já dispõe do conhecimento técnico necessário para enfrentar a cardiopatia congênita. O desafio agora é expandir o acesso a esse cuidado por meio do fortalecimento do diagnóstico fetal, da ampliação da rede de centros especializados e da formação de novos profissionais.

“O país avançou muito na capacidade de tratar essas crianças. O próximo passo é fazer com que esse conhecimento e essa estrutura cheguem de forma mais equitativa a toda a população. Quanto mais cedo ocorre o diagnóstico e o encaminhamento para centros especializados, maiores são as chances de sucesso do tratamento”, conclui Jatene.

Além da assistência, o InCor participa de bancos de dados nacionais e internacionais voltados ao monitoramento de resultados e à melhoria contínua da qualidade do atendimento, reforçando seu papel como centro de excelência na produção de conhecimento e no desenvolvimento de soluções para as cardiopatias congênitas.

 

InCor


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