Conselheiro da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV), médico Alberto Ogata explica como o relógio biológico, a privação de sono e distúrbios como a apneia aumentam o risco de acidentes e defende programas de gestão da fadiga nas empresas
Dormir
pouco ou mal pode ser tão perigoso quanto dirigir sob efeito de álcool. Embora
a embriaguez seja amplamente reconhecida como um fator de risco no trânsito, a
sonolência ainda é subestimada — mesmo sendo responsável por reduzir
significativamente a atenção, o tempo de reação e a capacidade de tomada de
decisões ao volante.
Segundo
o médico Alberto Ogata, conselheiro da Associação Brasileira de Qualidade de
Vida (ABQV), a explicação está no funcionamento do relógio biológico,
responsável por regular praticamente todas as funções do organismo ao longo das
24 horas, como sono, vigília, temperatura corporal, produção hormonal e níveis
de atenção.
"Dirigir
é uma atividade que exige vigilância constante. Em determinados períodos do
dia, especialmente durante a madrugada e no início da tarde, nosso organismo
apresenta uma queda natural do estado de alerta. Se isso se soma à privação de
sono, o risco de microssonos e lapsos de atenção aumenta de forma
significativa", afirma.
O
especialista lembra que, a 100 km/h, um motorista que adormece por apenas
quatro segundos percorre uma longa distância sem qualquer controle do veículo —
tempo suficiente para provocar um acidente grave.
Cronotipo influencia o desempenho
Além
da quantidade de horas dormidas, outro fator importante é o cronotipo, ou seja,
a tendência natural de cada pessoa funcionar melhor em determinados horários do
dia.
Quando um motorista trabalha em horários incompatíveis com seu relógio biológico, ocorre um desalinhamento que prejudica funções cognitivas essenciais, como memória operacional, atenção sustentada, velocidade de processamento e percepção de risco.
Esse
cenário se torna ainda mais preocupante entre motoristas profissionais
submetidos a jornadas prolongadas, escalas noturnas, alimentação irregular e
pouco tempo para descanso. De acordo com Ogata, a combinação desses fatores
favorece o chamado "jet lag social", condição associada ao aumento do
risco de doenças metabólicas e cardiovasculares.
Privação de sono pode ter efeito semelhante ao álcool
Diversos
estudos científicos demonstram que permanecer acordado por muitas horas
compromete o desempenho de maneira semelhante ao consumo de bebidas
alcoólicas.
Pesquisas
apontam que cerca de 17 horas contínuas de vigília podem produzir prejuízos
comparáveis aos de uma alcoolemia de 0,05%, enquanto 24 horas sem dormir podem
equivaler a aproximadamente 0,10%.
"A
grande diferença é que o álcool é facilmente reconhecido como um risco. Já a
sonolência costuma ser negligenciada. Muitas pessoas acreditam que conseguem
resistir ao sono, mas os microssonos acontecem sem que o motorista
perceba", alerta.
Distúrbios do sono ampliam o risco de acidentes
A
preocupação não se limita à falta de descanso. Distúrbios como apneia
obstrutiva do sono, insônia, narcolepsia e síndrome das pernas inquietas também
comprometem a qualidade do sono e aumentam a probabilidade de acidentes.
No
caso da apneia, o sono é interrompido diversas vezes durante a noite, reduzindo
a oxigenação e impedindo um descanso reparador. Como consequência, mesmo após
várias horas de sono, a pessoa pode acordar cansada, apresentar sonolência
diurna e redução da capacidade de concentração.
Além
de aumentar o risco de acidentes, a apneia está associada ao desenvolvimento de
doenças cardiovasculares, como hipertensão, infarto e acidente vascular
cerebral (AVC).
Gestão da fadiga deve fazer parte da estratégia das empresa
Para
Alberto Ogata, o combate à sonolência no trânsito não depende apenas da
conscientização individual. Empresas que possuem motoristas em suas operações
precisam tratar a fadiga como um risco ocupacional passível de prevenção.
Entre
as principais medidas estão o rastreamento de distúrbios do sono, avaliações
periódicas, encaminhamento para diagnóstico e tratamento, escalas mais
adequadas ao relógio biológico, pausas planejadas e uma cultura organizacional
que permita aos profissionais relatar fadiga sem receio de punições.
"Quando
a empresa enxerga a sonolência como um fator de risco gerenciável, ela protege
o trabalhador, reduz acidentes, diminui custos assistenciais e contribui para
uma mobilidade mais segura para toda a sociedade", conclui o
especialista.
Para
o médico, investir em programas estruturados de gestão da fadiga é uma
estratégia que beneficia trabalhadores, organizações e a segurança viária como
um todo, tornando o cuidado com o sono uma medida essencial de saúde
ocupacional e prevenção de acidentes.
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