Levantamentos recentes mostram que
internações por lesões relacionadas aos artefatos voltaram a subir no Brasil;
emergencista alerta para queimaduras, amputações e risco aumentado para
crianças
Com o início das festas juninas, o uso de fogos de artifício,
rojões, bombinhas e outros artefatos explosivos, além das tradicionais
fogueiras, volta a fazer parte das comemorações em muitas regiões do país. A
tradição, no entanto, também impõe um alerta importante aos serviços de saúde:
todos os anos, esse período é marcado pelo aumento de ocorrências,
especialmente queimaduras, traumas nas mãos, lesões oculares, ferimentos na
face e, nos casos mais graves, amputações.
Dados do Ministério da Saúde mostram que os acidentes envolvendo
artefatos pirotécnicos seguem como causa relevante de atendimento no Sistema
Único de Saúde. O Brasil registrou 348 internações em 2023 e 377 em 2024 por
ferimentos relacionados à queima de fogos de artifício, o que representa alta
de aproximadamente 8,3% em um ano¹.
Além das internações, os atendimentos ambulatoriais ajudam a
dimensionar a gravidade do problema. Em 2023, foram contabilizados 97 casos
relacionados a queimaduras e lesões provocadas pelo manuseio inadequado desses
artefatos. Em 2024, esse total subiu para 162, avanço de aproximadamente 67% em
relação ao ano anterior². O problema também persistiu em 2025.
Apenas nos três primeiros meses de 2025, o Sistema Único de Saúde registrou 628
atendimentos ambulatoriais e hospitalares por queima de fogos de artifício,
média de cerca de sete casos por dia, segundo dados do Ministério da Saúde³.
Para o Dr. Felipe Liger, médico emergencista do Pronto Atendimento
do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, o principal risco está na falsa sensação de
controle. “Fogos de artifício muitas vezes são vistos como parte da
brincadeira, especialmente nas festas juninas, mas estamos falando de um
artefato explosivo. Quando há falha no manuseio, a lesão pode ser imediata e
muito grave, com queimaduras profundas, fraturas, perda de tecido e até
amputações. Isso também vale para as fogueiras, símbolo dessa festa.”, afirma.
Segundo o especialista, mãos, braços, face e olhos estão entre as
áreas mais atingidas, justamente pela proximidade com o artefato no momento da
explosão. Crianças e adolescentes exigem atenção redobrada, não apenas pelo
risco de manipularem bombinhas e rojões, mas também por estarem próximas de
adultos que fazem o uso inadequado desses materiais.
“O ideal é que crianças não manipulem fogos, bombinhas ou qualquer
artefato explosivo. Mesmo aqueles considerados pequenos podem causar
queimaduras importantes, lesões nos olhos e ferimentos permanentes. Também é
fundamental que adultos não acendam fogos próximos a aglomerações, dentro de
casas, perto de fogueiras, veículos, fiações ou materiais inflamáveis”, orienta
o Dr. Felipe Liger.
O período junino costuma reunir fatores que ampliam o risco de
acidentes: maior circulação de pessoas, consumo de álcool, roupas de tecido
sintético, ambientes abertos com pouca estrutura de segurança e uso doméstico
de artefatos comprados sem orientação adequada.
Entre as medidas de prevenção, o médico destaca que fogos devem
ser adquiridos apenas em locais autorizados, mantidos longe de crianças e
utilizados estritamente conforme as instruções do fabricante. Também é
importante nunca tentar reacender um artefato que falhou, não apontar fogos na
direção de pessoas, não segurá-los diretamente com as mãos e manter distância
segura após o disparo.
Em caso de queimadura, a recomendação é lavar a área com água
corrente em temperatura ambiente, não aplicar manteiga, pasta de dente, pó de
café, pomadas caseiras ou qualquer produto sem orientação médica, e procurar
atendimento imediatamente quando houver bolhas extensas, dor intensa,
ferimentos profundos, sangramento, acometimento de mãos, rosto, olhos, genitais
ou sinais de inalação de fumaça.
“Em acidentes com explosivos, o tempo até o atendimento faz
diferença. Algumas lesões parecem pequenas no início, mas podem evoluir com
infecção, perda de sensibilidade ou comprometimento funcional. O mais seguro é
procurar avaliação médica, principalmente quando há queimadura profunda, trauma
nas mãos ou qualquer alteração visual”, reforça o emergencista.
Mais do que restringir a comemoração, o alerta é para que a
tradição seja acompanhada de responsabilidade. Com o aumento das internações
entre 2023 e 2025, a prevenção segue como a medida mais eficaz para evitar que
a celebração termine em acidentes.
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