
S/ Título, da série Travessia de retorno, 2022.
Márvila Araújo. Foto divulgação
Com
participação de mais de 70 artistas, mostra no CCBB São Paulo propõe releitura
do sertão como espaço ampliado de resistência em defesa dos direitos humanos
por meio da arte contemporânea
O Centro
Cultural Banco do Brasil São Paulo (CCBB SP) apresenta, a partir de 15 de
abril, a exposição inédita Atlântico Sertão. São mais de 70
artistas, de diferentes regiões, para apresentar o sertão como um território
ampliado de resistência. O projeto ocupa todos os andares do edifício com
pinturas, esculturas, fotografias e instalações que, sob uma perspectiva
decolonial, transforma a arte em memória e afirmação. A mostra articula os
conceitos simbólicos de “Atlântico” e “Sertão” em uma narrativa crítica
sobre espaços historicamente
marcados por violência e exclusão, reconfigurando-os como um campo de
criação e defesa de
direitos humanos.
“O sertão é
um território simbólico no qual diferentes experiências históricas se cruzam e
onde a arte pode revelar diferentes narrativas sobre o país”, explica Ariana
Nuala, que assina a curadoria ao lado de Marcelo Campos, Amanda Rezende, Jean
Carlos Azuos, Rita Vênus e Thayná Trindade. “Sertão é uma palavra construída,
inventada para lugares distantes", destaca Marcelo Campos. “Na exposição,
atualizado pelos artistas, apresentamos o sertão da tecnologia, do couro,
aquele que reflete sobre ecologia e preservação ambiental”, completa o curador.
Atlântico
Sertão se baseia nas pesquisas acadêmicas de Marina Maciel,
responsável pela direção geral e concepção do projeto. “Adotamos o sentido
metafórico de Guimarães Rosa: ‘O sertão está em toda parte’. Esse espaço
irrestrito é ressignificado como lugar de resistência e (re)existência de grupos
historicamente minorizados que, pelas veredas artísticas, rompem as cadeias da
opressão colonial em defesa dos direitos humanos”, pontua Marina Maciel.
O projeto expográfico é assinado por Gisele de Paula, primeira mulher negra a
assinar a expografia da 36ª Bienal de São Paulo. Sua proposta cria um percurso
imersivo pelos pavimentos do CCBB, utilizando cores intensas inspiradas na
paisagem cromática da região: “Refletimos sobre um sertão vivo. A intenção é
transformar o espaço expositivo em uma experiência sensorial que conecta as
diversas narrativas presentes nas obras”, comenta a arquiteta.
O impacto
durante a visita ocorre tanto pela presença das obras de arte quanto pela
transição simbólica das cores das paisagens sertanejas. O percurso inicia-se
com o verde profundo das vegetações que resistem e brotam nas veredas
sertanejas, representando a força da vida que teima em florescer. Em seguida, o
olhar é conduzido pela imensidão do azul absoluto do céu, que reflete a liberdade
e a espiritualidade contida nos horizontes abertos. A jornada culmina no calor
do laranja, vermelho e amarelo vibrantes do pôr do sol, tonalidades que banham
o sertão ao fim do dia e simbolizam o fogo das lutas e a esperança que se
renova em cada entardecer.
Os seis núcleos curatoriais
Estruturada
em seis eixos, a mostra reúne diferentes perspectivas curatoriais que, juntas,
constroem uma leitura múltipla e contemporânea do sertão como território vivo,
colorido, atravessado por dimensões históricas, espirituais, políticas e
ambientais.
No núcleo Sertão
Atlântico, com curadoria de Marcelo Campos, a mostra parte da
relação entre terra e mar para abordar heranças indígenas, africanas e
populares. Em Cosmologias em Movimento, da curadora Rita Vênus, os destaques
são as práticas espirituais como formas de organização da vida e leitura do
mundo. Em Ecologias Ancestrais e Futuros da Terra, de Thayná
Trindade, está o sertão como um campo de conhecimento ancestral que resiste a
lógicas externas e projeta possibilidades de continuidade.
A dimensão
coletiva ganha centralidade em Comunidade, Retomada e Sertões Negros,
com curadoria de Amanda Rezende, que evidencia modos de vida baseados na
partilha, na oralidade e na memória. Em Arquivos Vivos, Grafias e Inscrições da Terra,
a curadora Ariana Nuala propõe o sertão como um sistema ativo de registro, onde
inscrições ancestrais dialogam com tecnologias contemporâneas e novas formas de
arquivo.
Encerrando o
percurso, Sertão Atlântico, Travessias e Poeiras que Vêm do Saara,
de Jean Carlos Azuos, amplia a perspectiva ao conectar Brasil e África por meio
de relações geológicas, históricas e culturais. O núcleo evidencia fluxos de
pessoas e saberes que atravessam o Atlântico, reforçando a ideia de que o
sertão é também um território de circulação e permanência, onde diferentes
tempos e geografias seguem em diálogo.
Os trabalhos
apresentados em Atlântico Sertão são majoritariamente originários das
regiões Norte e Nordeste, comunidades afrodescendentes e indígenas. Entre os
participantes estão os artistas Antonio Obá, Ayrson Heráclito, Aline Motta,
Dalton Paula, Denilson Baniwa, Jaime Lauriano, Lidia Lisboa, Maria Macedo,
Nádia Taquary, Rafael Bqueer, Rosana Paulino, Tunga, Ziel Karapotó e muitos
outros (confira a lista completa no final deste texto).
A mostra
apresenta trabalhos inéditos comissionados especialmente para a exposição, com
destaque para a instalação da premiada artista multimídia biarritzzz. Projetada
para o térreo do CCBB São Paulo, a obra reúne múltiplas telas digitais em uma
estrutura triangular que dialoga com o imaginário do sertão, em referência ao
triângulo, instrumento icônico dos trios de forró.
Concebida especialmente para o circuito CCBB, Atlântico Sertão permite uma experiência ampliada por meio de uma programação paralela que inclui visitas guiadas, debates com artistas e atividades educativas focadas no direito ao sonho, na reparação histórica e no papel da arte na defesa dos direitos humanos. Para Cláudio Mattos, Gerente Geral do CCBB São Paulo, “a mostra promove reflexões sobre identidade, inclusão e diversidade, por apresentar o sertão como espaço de invenção, resistência e multiplicidade cultural de forma potente e plural, demonstrando que a arte é instrumento de pensamento crítico e construção de novas narrativas sobre o Brasil’. Após a temporada paulista, a exposição segue para o CCBB Salvador, em setembro, e para o CCBB Brasília, no início de 2027.
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| Pedra Latente, 2023. Rodrigo Braga. Foto: divulgação |
Coletivo Atlântico navega pela arte decolonial para avançar na defesa dos direitos humanos
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| Atlântico Vermelho, 2017. Rosana Paulino. Foto: divulgação |
A reflexão sobre a defesa dos
direitos humanos pela arte tem origem na pesquisa de Marina Maciel, iniciada no
mestrado e aprofundada em seu doutorado na Faculdade de Direito da Universidade
de Brasília (UnB), sob o tema “Direitos Humanos Achados na Arte” (MACIEL,
2024).
Essa investigação ultrapassou
o campo teórico ao focar em ações concretas de transformação por intervenções
artísticas. Em 2023 iniciaram-se as articulações do Coletivo Atlântico, como um
movimento social, artístico, jurídico, político e filosófico.
Sob essa construção coletiva,
a escolha da nomenclatura “Atlântico” se deu em virtude de o oceano representar
morte e sofrimento por empreitadas coloniais. Agora, pela arte decolonial, ele
é ressignificado como um mar de vida e resistência.
As intervenções do Coletivo
consolidam-se como um projeto contínuo de mobilização. O percurso teve início
com a edição “Atlântico Vermelho”, título inspirado na obra da artista Rosana
Paulino, que utiliza a cor para denunciar o massacre e a escravização da
população negra em um espaço não apenas geográfico, mas histórico. Nessa
ocasião, pela primeira vez na história, o prédio principal da ONU em Genebra
recebeu uma exposição com 22 artistas afro-brasileiros e uma delegação de 50
pessoas que realizaram palestras, performances e apresentações musicais. Ao
final, os integrantes do Projeto Atlântico Vermelho construíram coletivamente
uma sugestão de recomendação internacional que foi entregue na ONU.
A repercussão internacional
levou à idealização da segunda edição: “Atlântico Floresta”. Inaugurada em
novembro de 2024 no Museu de Arte do Rio (MAR), durante a cúpula do G20, a
mostra reuniu cerca de 50 expoentes da arte contemporânea para denunciar o
genocídio e o servilismo impostos aos povos originários. As ações serviram como
plataforma de mobilização em defesa das demarcações de terras e do meio
ambiente equilibrado, manifestando oposição às práticas exploratórias do
agronegócio.
Como desdobramento prático, o
Coletivo articulou também a minuta do Projeto de Lei nº 1.928/2024, que visa
regulamentar a profissão de artista visual no Brasil e tramita no Congresso
Nacional desde maio de 2024.
A exposição Atlântico
Sertão foi selecionada no Edital CCBB 2026-2027 e viabilizada por
meio da Lei Rouanet. O projeto conta com o apoio da Organização dos Estados
Ibero-americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI), do Instituto
Guimarães Rosa, Ministério das Relações Exteriores (IGR/MRE) e Museu de Arte do
Rio (MAR).
Artistas participantes de Atlântico Sertão: Abiniel João Nascimento (PE), Adenor
Gondim (BA), Alessandro Fracta (AM), Aline Motta (RJ), Amanda Melo (PE), Ana
Neves (PE), Ana V. Lopes (RJ), André Vargas (RJ), Antonio Obá (DF), Antônio
Sandes (AL), Aura do Nascimento (PE), Ayrson Heráclito (BA), biarritzzz (PE),
Clemilton (AL), Dalton Paula (DF), Denilson Baniwa (AM), Eliana Amorim (PE),
Fykyá Pankararu (PE), Genauro (AL), George Teles (BA), Gervane de Paula (MT),
Gilson Plano (GO), Gonçalves (AL), Gustavo Caboco (PR), J. Cunha (BA), Jaime
Lauriano (SP), Jonas Van (CE) / Juno B (CE), Joaci do Pandeiro (AL), Joaci Lima
(AL), José Alves (PE), José Cícero (AL), José Rufino (PB), Juraci Dórea
(BA), Juniara (PE), Leonardo França (BA), Lidia Lisbôa (PR), Lita Cerqueira
(BA), Lucélia Maciel (BA), Luiz Barroso (PB), Maria Lira Marques (MG), Maria
Macêdo (CE), Maré de Matos (MG), Marlene Almeida (PB), Marcos da Matta (BA),
Márvila Araújo (BA), Mayra Carvalho (RJ), Mestre Benon (AL), Mitsy Queiroz
(PE), Moara Tupinambá (PA), Mônica Barbosa (PI), Nádia Taquary (BA), Naywá
Moura (PI), Rafa Bqueer (PA), Rafael Chavez (RN), Rebeca Miguel (MG), rOnA
(RJ), Rodrigo Braga (AM), Rose Afefé (BA) / Bysmarke Vaqueiro (BA), Rosana
Paulino (SP), SouPixo (CE), Tainan Cabral (RJ), Thaís Iroko (RJ), Thiago Costa
(PB), Trojany (CE), Tunga (PE), Ventura Profana (BA), Véio (SE), William Maia
(RJ), Wisrah Villefort (MG), Xamânica (RJ) / Tayná Uràz (RJ), Yacunã Tuxá (BA),
Yhuri Cruz (RJ), Zé di Cabeça (BA), Ziel Karapotó (AL), Zumví Arquivo Afro
Fotográfico (BA), Àwọn arákùnrin oníṣẹ́-ọnà
mẹ́ta (BA)
SERVIÇO
Exposição: Atlântico Sertão
Local: CCBB São
Paulo
Endereço: Rua Álvares
Penteado, 112 - Centro
Data: 15 de abril a 3 de
agosto de 2026
Horário: das 9h às 20h,
exceto às terças
Gratuito


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