Com a proximidade de grandes premiações internacionais,
como o Oscar, o audiovisual volta a ocupar o centro do debate cultural e
econômico. O olhar do público e da crítica se volta às narrativas, às
performances e à inovação técnica, mas pouco se fala sobre um elemento
silencioso que sustenta praticamente todas as grandes produções: o seguro. Não
como acessório burocrático, mas como parte estrutural da viabilidade do
projeto.
Produção audiovisual é criatividade, mas
também é operação. Envolve pessoas, cronogramas rígidos, contratos complexos,
equipamentos de alto valor, locações sensíveis e exposição constante a
terceiros. Nesse contexto, assumir integralmente o risco não é ousadia
criativa, é fragilidade financeira. A própria história da indústria demonstra
que os riscos não são hipotéticos.
Acidentes em sets de filmagem acompanham o
cinema desde sempre. Em 1982, durante a produção de Twilight Zone: The Movie,
um helicóptero perdeu o controle e matou três pessoas em cena, em um dos
episódios mais graves da história do setor. Décadas depois, em 2021, o filme Rust
voltou a expor a vulnerabilidade dos sets quando um disparo com arma
cenográfica matou a diretora de fotografia Halyna Hutchins, interrompendo a
produção e gerando repercussões jurídicas e financeiras. Há ainda inúmeros
casos de dublês gravemente feridos, incêndios em estúdios, acidentes com
veículos em cena e produções paralisadas por lesões de atores.
Esses episódios deixam claro que o risco está
espalhado por toda a cadeia produtiva. Ele pode estar no elenco, em um
equipamento essencial, em uma locação externa, em uma cena de ação ou até em um
arquivo digital perdido. O papel do seguro não é eliminar o risco - isso seria
impossível - mas impedir que um imprevisto transforme um projeto viável em uma
perda irreversível.
Por isso, as produções profissionais recorrem
a diferentes camadas de proteção. Há seguros voltados a interrupções e cancelamentos,
que preservam o orçamento quando filmagens precisam ser suspensas por
acidentes, ordens de autoridade ou falhas operacionais. Outros se concentram no
elenco e em profissionais-chave, garantindo a continuidade artística e
financeira caso alguém indispensável se torne indisponível. Há coberturas que
absorvem impactos de acidentes pessoais e viagens, protegem equipamentos de
alto valor e resguardam o material filmado, hoje, em grande parte digital,
contra perdas, danos ou corrupção de dados.
Do ponto de vista jurídico, o seguro de Errors
& Omissions é o que sustenta o direito de exibir a obra. Ele
protege produtores, investidores e distribuidores contra alegações de plágio,
uso indevido de imagem, falhas contratuais ou problemas na cadeia de direitos,
sendo frequentemente uma exigência para a comercialização do conteúdo.
Um exemplo recente e emblemático foi o caso
da minissérie Bebê Rena. Após enorme sucesso de público, a produção
passou a enfrentar questionamentos públicos e jurídicos relacionados à
representação de pessoas reais, à caracterização dos personagens e aos limites
entre narrativa autobiográfica, ficção e direito à imagem. Independentemente do
mérito das alegações, o caso ilustra com clareza um ponto central: mesmo obras
consagradas, amplamente aclamadas e já distribuídas globalmente permanecem
expostas a riscos jurídicos relevantes. É exatamente nesse momento que o seguro
de E&O deixa de ser um requisito contratual e se revela um pilar essencial
de proteção financeira e continuidade comercial.
Quando a produção envolve cenas de ação,
dublês, veículos, aeronaves, embarcações ou efeitos especiais, o risco se
intensifica e exige ainda mais rigor. Esses elementos não inviabilizam a
criação, mas reforçam uma premissa básica: sem transferência adequada de risco,
o custo de um único evento pode superar todo o orçamento do projeto.
Esse aspecto ganha relevância adicional em
produções financiadas por fundos públicos, coproduções internacionais ou
investimentos privados estruturados. O seguro passa a ser um requisito de
governança, transparência e preservação de recursos, contribuindo para a
sustentabilidade econômica do setor e para a confiança de investidores,
financiadores e parceiros institucionais.No fundo, o seguro atua como um
instrumento de governança. Ele impõe planejamento, protocolos de segurança e
disciplina financeira. Reduz desperdícios, protege recursos públicos e privados
e reforça a confiança de investidores e financiadores. Não é coincidência que
investidores exijam limites elevados de responsabilidade civil, não para
imobilizar capital, mas para estruturar o risco de forma profissional.
Não por acaso, no setor de seguros o valor
pago não é tratado como “custo”, mas como prêmio. É, de fato, um privilégio ter
uma produção totalmente segurada. Isso traz tranquilidade, protege o
investimento e permite que o produtor concentre tempo e energia no que
realmente sabe fazer: produzir e contar histórias. Reter risco é uma decisão
profissional. Transferi-lo adequadamente também.
Ricardo Minc - diretor de Esportes, Mídia e Entretenimento
da Howden Brasil.
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