O ecossistema de ERP
no Brasil atravessa um novo ciclo de transformação. Se há três décadas o
protagonismo era do hardware e depois do software, hoje a evolução tecnológica
está sendo impulsionada pela Inteligência Artificial (IA). Nesse contexto, os
sistemas de gestão deixaram de ser ferramentas operacionais e passaram a ser a
espinha dorsal informacional das empresas. É dentro do ERP que nascem os dados
que sustentarão a capacidade competitiva das organizações nos próximos anos.
O Brasil possui
características particulares nesse cenário. O mercado de grandes empresas é
fortemente concentrado em poucos fornecedores globais, com destaque para a SAP,
que domina a
maior parte das grandes contas corporativas e representa cerca de 77% do
mercado entre as maiores empresas brasileiras. Ao mesmo tempo, o país apresenta
uma base significativa de sistemas antigos
– cerca de 72% dos ERPs em operação foram implementados antes de 2017 – o que
evidencia um grande potencial de modernização tecnológica.
Esse processo de
renovação ganhou urgência com o encerramento do suporte ao SAP ECC previsto para
2027, com extensões limitadas até 2030. A migração para o SAP S/4HANA deixou de
ser apenas uma atualização tecnológica e passou a representar uma decisão
estratégica sobre o futuro operacional das empresas – e sobre a base de dados
que sustentará sua estratégia de inteligência artificial. Trata-se de uma
oportunidade rara para revisar processos, simplificar estruturas e abandonar
customizações acumuladas ao longo de anos.
Empresas que
postergarem essa decisão até a proximidade do encerramento do suporte
enfrentarão um cenário mais restritivo. A combinação de prazos curtos, escassez
de profissionais especializados e pressão por continuidade operacional tende a
reduzir o espaço para revisão estrutural. Projetos conduzidos sob urgência
priorizam conversão técnica, não transformação estratégica. A janela de
reposicionamento competitivo é maior quando há tempo para simplificar e
redesenhar.
Historicamente, a
implementação de ERP nas empresas brasileiras foi conduzida de forma
excessivamente personalizada. Ao longo dos anos, decisões pontuais e customizações
sucessivas moldaram o sistema às preferências operacionais de cada área. Cada
exceção parecia justificável isoladamente. No conjunto, porém, criou-se um
ambiente altamente complexo, difícil de evoluir e dependente de conhecimento
específico. Em muitos casos, o ERP deixou de refletir melhores práticas globais
e passou a refletir preferências acumuladas ao longo do tempo.
Esse modelo também
se reflete na governança dos projetos. Muitas companhias ainda delegam a
decisão sobre o sistema que sustentará o negócio a grupos técnicos isolados,
sem o envolvimento efetivo da liderança executiva. Trata-se de uma contradição
evidente: o ERP é o núcleo operacional e informacional da organização, mas sua
definição muitas vezes ocorre sem uma visão estratégica integrada. A escolha
acaba baseada em preferências individuais, e não na arquitetura futura do
negócio.
A nova geração de
plataformas ERP, especialmente no modelo cloud, incentiva uma abordagem
diferente. Em vez de adaptar o sistema a cada exceção histórica, o movimento
atual é o chamado back to standard, baseado em melhores práticas globais por
setor. Esse modelo reduz complexidade, melhora a qualidade dos dados e acelera
projetos. Mais importante ainda, cria a base estruturada necessária para o uso
consistente de inteligência artificial na gestão empresarial.
Inteligência
artificial não corrige dados inconsistentes – ela aprende com eles. Se
estruturas de cadastro forem frágeis, se exceções forem frequentes ou se o
histórico for pouco padronizado, algoritmos apenas amplificarão essas
distorções com mais velocidade. A qualidade da IA será diretamente proporcional
à qualidade da base de dados construída agora.
Nesse novo ciclo,
o ERP deixa de ser apenas um sistema de registro e passa a funcionar como o
celeiro de dados que alimentará as camadas de inteligência do negócio.
Organizações que mantiverem dados organizados e padronizados terão vantagem
clara na adoção de algoritmos e agentes inteligentes. Já organizações que
preservarem estruturas fragmentadas poderão até adquirir ferramentas avançadas,
mas terão dificuldade em extrair valor real delas.
O Brasil tende a
ocupar uma posição relevante nesse cenário. A necessidade de modernização,
combinada com a rápida adoção das novas versões do SAP, coloca o país em um
estágio avançado em relação a outros mercados. Nos próximos cinco anos, a
competitividade empresarial dependerá menos da capacidade de implementar
sistemas e mais da capacidade de transformar o ERP em uma base confiável de
dados. A diferença entre continuidade operacional e vantagem competitiva estará
justamente nessa decisão.
Alberto Freitas - vice-presidente da Megawork Consultoria, uma empresa da GFT Technologies
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