Quebras na voz, oscilações entre grave e agudo e leve rouquidão fazem parte do crescimento — mas alguns sinais merecem atenção
De repente, a voz que era infantil começa a soar irreconhecível. Em uma mesma frase, alterna entre grave e agudo, falha no meio da palavra e provoca risos involuntários. A cena é comum — e quase um símbolo da adolescência. Por trás desse momento constrangedor, porém, existe um processo biológico sofisticado que transforma a laringe e redefine a identidade vocal do jovem.
Durante a puberdade, o corpo passa por intensas mudanças hormonais que afetam diretamente as pregas vocais. Nos meninos, a testosterona estimula um crescimento significativo da laringe. As pregas vocais tornam-se mais longas e espessas e, quanto maiores, mais lentamente vibram — o que produz sons mais graves e uma mudança perceptível no tom da voz ao longo dos anos.
Nas meninas, o processo também ocorre, mas de
forma mais sutil. O estrogênio e a progesterona promovem alterações discretas
na laringe, tornando a voz mais encorpada e madura. “Esse processo é chamado de
muda vocal e geralmente acontece entre os 12 e 15 anos. É completamente normal
que ocorram falhas e oscilações enquanto o adolescente se adapta ao novo padrão
vocal”, explica a otorrinolaringologista Dra. Luciana Costa, do Hospital
Paulista.
Por que a voz “falha”?
A instabilidade ocorre porque a laringe está crescendo rapidamente, enquanto o controle muscular ainda está em adaptação. É como se o instrumento tivesse mudado de tamanho, mas o músico ainda estivesse aprendendo a tocá-lo. Por isso, pequenas quebras, variações inesperadas de tom e até leve rouquidão podem surgir nessa fase.
A especialista destaca, no entanto, que a mudança
deve evoluir para estabilização progressiva.
Rouquidão que dura mais de 15 dias sem relação
com gripe, dor ao falar, sensação frequente de “bolo na garganta”, cansaço
vocal após pouco tempo de conversa ou perda recorrente da voz não são
considerados parte natural da muda vocal. Se as quebras persistirem após os 17
ou 18 anos, também é recomendável investigar.
Hábitos que podem interferir
Além das transformações hormonais, comportamentos comuns na adolescência podem sobrecarregar a voz. Gritar em jogos, falar alto em ambientes ruidosos, competir com música nos fones de ouvido e ingerir pouca água aumentam o atrito entre as pregas vocais.
O uso de cigarro e dispositivos eletrônicos
para fumar também representa risco, pois o calor e as substâncias inaladas
provocam inflamação e ressecamento das vias aéreas. Até o hábito frequente de
pigarrear pode ser prejudicial, já que causa impacto repetitivo na laringe.
Cuidados simples fazem diferença
Manter hidratação constante é uma das medidas mais importantes para preservar a saúde vocal. Também é recomendável evitar extremos — nem gritar, nem sussurrar em excesso. Quando houver sensação de algo na garganta, o ideal é beber água em vez de pigarrear.
Após períodos de uso intenso da voz, fazer
pausas ajuda na recuperação. Dormir bem e manter alimentação equilibrada também
contribuem para o bom funcionamento da laringe.
“A voz faz parte da identidade do adolescente. Entender
essas mudanças e adotar cuidados simples ajuda a
garantir uma transição saudável”, conclui a especialista.

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