Durante minha carreira no mercado financeiro tive diversas oportunidades de negociar reestruturações de dívidas empresariais, tanto pelo lado do banco, como pelo lado do devedor. O sucesso de uma reestruturação (entendendo como sucesso, quando ao final do processo a companhia consegue sair de uma situação financeira ruim e retornar à sua atividade normal) depende de inúmeros fatores e detalhes que vão muito além da análise fria dos números e das alternativas disponíveis. Fatores subjetivos, como a postura do devedor, os objetivos divergentes entre os credores, a dinâmica da negociação, a governança da companhia, a qualidade dos assessores envolvidos, a confiança mútua, entre outros, podem determinar o sucesso ou o fracasso do processo e, consequentemente, a recuperação ou a falência do negócio. Há, no entanto, dois erros bastante comuns por parte do devedor que podem comprometer consideravelmente as chances de sucesso.
O primeiro, é o administrador, seja ele sócio ou
executivo, não reconhecer o problema que tem. Segue-se a isso a tentativa de
esconder o problema dos credores e stakeholders em geral. Com isso, perde-se um
tempo precioso para estancar a sangria. Quanto antes se admita a dificuldade,
mais margem de manobra se tem. Não admitir o problema, principalmente na frente
de credores que têm experiência para identificá-lo, gera outro efeito
deletério: mina a confiança.
Lembro-me de um grupo sucroenergético que certa vez
chamamos ao banco para uma conversa, pois identificamos que as finanças não
estavam bem. A empresa tinha três unidades industriais e recomendamos ao gestor
que vendesse uma delas (havia liquidez para esses ativos na época),
oferecemo-nos, até mesmo, para procurar um comprador. O executivo negou de pé
junto que tinha qualquer problema e ainda se mostrou ofendido com a nossa
abordagem.
Em virtude do fato, reduzimos a nossa exposição ao
grupo paulatinamente, de forma que quando o problema se tornou público, cerca
de um ano depois, nossa exposição era um quarto em relação à data da
reunião. O cliente faliu, mas os credores (nós incluídos) também perderam
dinheiro. Tivesse o problema sido reconhecido de imediato, talvez o fim fosse
outro.
O segundo erro, também bastante comum, é o credor
pular diretamente da fase do “não admitir o problema” para a fase do “a melhor
defesa é o ataque”. Nestes casos, em geral ele terceiriza a negociação e,
muitas vezes, a tomada de decisão, para consultores financeiros e advogados pró
solução litigiosa. Bons advogados e consultores são indispensáveis como
conselheiros, contudo, a negociação e a tomada de decisão são prerrogativas dos
administradores, que diferentemente dos prestadores de serviços citados, serão
diretamente afetados por elas.
Faltam estatísticas mais atualizadas, mas, segundo
levantamento de 2013 da consultoria Corporate Consulting e do escritório de
advocacia Moraes Salles, apenas 1% das empresas que pediram recuperação
judicial no Brasil saiu do processo recuperada. Naquele período, cerca de
quatro mil companhias pediram recuperação judicial, mas só 45 voltaram a operar
como empresas regulares. No decorrer desses oito anos e meio, apenas 23% delas
tiveram os seus planos de recuperação aprovados pelos credores, enquanto 398
companhias faliram e a maioria dos processos se arrastava no Judiciário sem
definição final.
Outro estudo, feito pela Serasa Experian na mesma
época, descobriu que somente uma empresa em cada quatro consegue sobreviver no
Brasil após pedir uma recuperação judicial. Para realizar esse levantamento, o
birô de crédito analisou 3.522 empresas que tiveram pedidos de recuperação
judicial aprovados entre junho de 2005 e dezembro de 2014. Deste grupo, 946
companhias tiveram o processo encerrado nesse período. Entre essas, 218
(23,04%) retomaram as atividades. Por outro lado, 728 empresas (76,95%)
decretaram falência. Seja qual for o dado correto, fica claro que a saída
litigiosa tem pouca chance de sucesso.
Portanto, em uma crise financeira, seja qual for o
tamanho do seu negócio, reconheça rapidamente que o problema existe. Opte
sempre pela negociação. Não vai ser fácil, nem indolor, nem garantida, mas a
complexidade e a dor serão menores e as chances de sucesso maiores que as de
uma opção litigiosa. Contrate bons consultores e advogados, pois é importante
estar bem assessorado, mas opte por profissionais que tenham experiência
em saídas negociadas.
Não terceirize a negociação nem as decisões.
Lembre-se: o maior interessado é você.Quanto antes colocar o bode na sala e
começar a discutir as opções sobre o que fazer com ele, mais cedo ele sairá de
lá.
Manoel Pereira de Queiroz -
superintendente de Agronegócio do Banco Alfa e membro do Conselho Superior do
Agronegócio da Fiesp
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