 |
| Divulgação |
Em 1602, um grupo de investidores decidiu financiar algo que
jamais havia sido feito. Sob a liderança do estadista holandês Johan van
Oldenbarnevelt, eles colocaram dinheiro em uma empresa que prometia navegar por
oceanos desconhecidos, atravessar tempestades imprevisíveis e alcançar terras
que poucos acreditavam existir.
Mais de quatro séculos depois, investidores fizeram algo
semelhante. Apostaram bilhões em uma empresa cujo objetivo não era cruzar
mares, mas conquistar o espaço. Separadas por 424 anos, a Companhia Holandesa
das Índias Orientais (VOC) e a SpaceX contam, na essência, a mesma história: a
história de pessoas que transformaram o impossível em uma oportunidade de
investimento. É também a história da obstinação humana, essa capacidade de
seguir adiante mesmo quando o caminho parece incerto.
A tecnologia mudou. Os meios mudaram. Mas a natureza humana
permanece a mesma. O progresso sempre foi financiado por aqueles que
acreditaram antes das provas definitivas. Em outras palavras, por aqueles que
tiveram a coragem de agir com obstinação quando a maioria preferiu esperar.
Quando a VOC foi criada, em 1602, o mundo era muito diferente. Não
existiam bolsas de valores modernas, fundos de investimento ou mercados
globais. Uma viagem da Europa até a Ásia podia durar mais de oito meses.
Tempestades destruíam embarcações, doenças matavam tripulações inteiras e
piratas atacavam rotas comerciais.
Mesmo assim, havia um prêmio gigantesco esperando do outro lado.
Especiarias como pimenta, canela, noz-moscada e cravo tinham valor extraordinário
na Europa, chegando a ser negociadas por preços equivalentes ao ouro. O
problema era o financiamento. Nenhum comerciante individual possuía capital
suficiente para bancar expedições tão arriscadas.
Foi então que Oldenbarnevelt ajudou a viabilizar uma ideia revolucionária:
unir seis companhias rivais e dividir o risco entre milhares de investidores. A
VOC captou aproximadamente 6,5 milhões de florins holandeses, uma quantia
monumental para a época. Pela primeira vez na história, pessoas comuns podiam
adquirir participação em uma empresa e compartilhar seus lucros.
Nascia o mercado de capitais moderno. Mais do que uma inovação
financeira, era uma inovação de confiança. Hoje, quando um investidor compra
ações pelo celular em poucos segundos, é difícil compreender o nível de
incerteza existente em 1602.
Os acionistas da VOC não recebiam relatórios trimestrais. Não
havia internet. Não havia comunicação instantânea. Muitas vezes, passavam anos
sem saber se uma frota havia chegado ao destino ou desaparecido no mar. Era um
investimento baseado em visão. Era preciso acreditar antes de ver. Era preciso,
acima de tudo, ter obstinação.
Quatro séculos depois, o oceano deixou de ser o principal desafio
e o novo território desconhecido passou a ser o espaço. Quando Elon Musk fundou
a SpaceX, em 2002, a empresa parecia um projeto improvável. A indústria
aeroespacial era dominada por governos e gigantes centenários. Especialistas
afirmavam que foguetes reutilizáveis eram economicamente inviáveis.
Entre 2006 e 2008, os três primeiros lançamentos do Falcon 1
fracassaram. Após o terceiro desastre, a empresa estava próxima da falência e
tinha recursos para apenas mais uma tentativa. Se o quarto lançamento falhasse,
provavelmente deixaria de existir. Mas ele funcionou e mudou a história.
Aquele momento se tornou um exemplo emblemático de que grandes
transformações raramente nascem da conveniência. Elas nascem da obstinação de
continuar tentando quando todos os indicadores sugerem desistência.
A grande inovação da SpaceX não foi apenas construir foguetes. Foi
tornar o acesso ao espaço muito mais barato por meio da reutilização. O
resultado foi uma revolução econômica que transformou a empresa em uma das mais
valiosas do mundo e protagonista da nova corrida espacial.
À primeira vista, uma empresa marítima do século XVII e uma
companhia espacial do século XXI parecem não ter relação alguma. Mas possuem
mais semelhanças do que diferenças. Ambas nasceram para explorar territórios
desconhecidos. Ambas precisaram captar recursos para financiar jornadas
extremamente arriscadas. E ambas exigiram investidores e líderes obstinados,
capazes de enxergar décadas à frente.
Os continentes asiáticos eram a grande fronteira dos investidores
da VOC. Marte representa esse mesmo conceito para os investidores da SpaceX. A
geografia mudou, mas a mentalidade não.
O futuro nunca é construído pelos que esperam garantias absolutas.
A VOC não possuía mapas completos e a SpaceX não possuía certeza de sucesso. Os
grandes avanços surgem quando alguém decide agir antes que todas as respostas
estejam disponíveis.
Vivemos uma época semelhante. A inteligência artificial, a
biotecnologia, a computação quântica e a nova economia digital estão criando
oportunidades comparáveis às grandes revoluções do passado. Muitos observam
essas mudanças com medo. Outros observam com curiosidade. Mas poucos têm
coragem de investir tempo, energia e recursos para participar delas.
Historicamente, são esses poucos que mudam o mundo. São os
obstinados que enxergam possibilidades onde a maioria vê obstáculos. O
verdadeiro otimismo não é ingenuidade. É a confiança de que vale a pena
construir algo mesmo sem garantias.
No fim das contas, a história não recompensa quem prevê o futuro.
Ela recompensa quem ajuda a criá-lo. E eu acredito profundamente que a
diferença entre sonhadores e realizadores não está no tamanho da visão. Está na
capacidade de convencer outras pessoas a acreditarem nela.
Johan van Oldenbarnevelt fez isso em 1602. Elon Musk faz isso no
século XXI. E todo empreendedor que constrói algo relevante precisa aprender a
fazer o mesmo.
Porque o futuro, ontem como hoje, continua pertencendo aos
obstinados.
Janguiê Diniz - Fundador, controlador e presidente do conselho de
administração do grupo Ser Educacional; presidente do Instituto Êxito de
Empreendedorismo, da JD Business Academy e da Mentor Capital Group;
diretor-presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior
(ABMES); secretário-executivo do Brasil Educação - Fórum Brasileiro da Educação
Particular