Desinteresse por atividades, isolamento e
alterações de memória não devem ser encarados como consequências naturais da
idade 
Estima-se que cerca de 11,8% dos idosos
brasileiros convivam com a depressão
Matheus Campos
A tristeza nem sempre é o principal sinal de depressão na terceira idade. Em
muitos casos, a doença se manifesta por meio de sintomas que familiares costumam
associar ao envelhecimento, como desânimo, irritabilidade, isolamento social,
queixas físicas e até dificuldades de memória. O resultado é que muitos idosos
passam meses ou anos sem diagnóstico e tratamento adequados.
Segundo
a psiquiatra Jéssica Müller de Faria, da Palliative Care, esse é um dos
principais obstáculos para o cuidado da saúde mental na população idosa.
"Muitas pessoas acreditam que é normal o idoso perder o interesse pelas atividades que antes gostava, ficar mais isolado ou apresentar desânimo constante. Esse é um equívoco que atrasa o diagnóstico. Envelhecer traz mudanças, mas sofrimento persistente e perda de prazer pela vida não fazem parte do processo natural da idade", enfatiza.
A situação merece atenção, segundo a psiquiatra, porque a depressão é mais
comum do que se imagina. Estima-se que cerca de 11,8% dos idosos brasileiros convivam
com a doença. Em muitos casos, porém, os sintomas aparecem de forma diferente
daqueles observados em pessoas mais jovens.
"Nem sempre a pessoa idosa se apresenta triste ou chorosa. É comum observarmos irritabilidade, ansiedade, cansaço, perda de interesse pelas atividades do dia a dia e até dores físicas sem uma causa aparente. Por isso, a família não deve esperar uma demonstração clara de tristeza para buscar ajuda", explica a médica.
| Crédito: Matheus Campos Falhas de memória, dificuldade de concentração e problemas de atenção podem fazer parte do quadro depressivo |
Memória e demência
Outro
aspecto que costuma gerar dúvidas, de acordo com a Dra. Jéssica, é a relação
entre depressão e alterações cognitivas. Falhas de memória, dificuldade de
concentração e problemas de atenção podem fazer parte do quadro depressivo e,
por isso, acabam sendo confundidos com doenças neurodegenerativas.
"Existe
uma sobreposição de sintomas que pode levar à confusão com quadros de demência,
inclusive Alzheimer. A avaliação médica é fundamental para identificar a origem
dessas alterações e definir o tratamento adequado", destaca a médica.
Estudos
também apontam que a depressão aumenta significativamente o risco de desenvolvimento
de demências ao longo da vida, o que reforça a importância do diagnóstico
precoce e do acompanhamento especializado.
Entre
os fatores que contribuem para o surgimento da doença estão o luto, a
aposentadoria, a redução da convivência social, a perda de autonomia, as
doenças crônicas e a dor persistente. O isolamento social merece atenção
especial, pois pode funcionar tanto como causa quanto como consequência da
depressão.
Atenção à saúde mental
Para
Daniele Chaves, diretora da Palliative Care, ampliar a informação sobre saúde
mental na terceira idade é uma forma de estimular famílias e cuidadores a
observarem sinais que muitas vezes passam despercebidos.
"Quando
falamos sobre depressão em idosos, estamos falando de uma condição que afeta a
qualidade de vida, a autonomia e até a saúde física dessas pessoas. Informação
é uma ferramenta importante para que famílias reconheçam os sinais e procurem
ajuda mais cedo".
Segundo
Daniele, ainda existe receio de abordar o tema, o que contribui para o atraso
na busca por atendimento.
"Muitos
idosos sofrem em silêncio porque acreditam que aquilo faz parte da idade.
Quanto mais falarmos sobre o assunto, maiores são as chances de quebrar esse
estigma e facilitar o acesso ao tratamento".
Os
especialistas alertam que sinais persistentes por mais de duas semanas,
especialmente quando acompanhados de isolamento crescente, abandono de
atividades habituais, alterações do sono ou do apetite e perda de interesse
pela vida, devem motivar uma avaliação profissional.
“A
boa notícia é que a depressão tem tratamento e que a recuperação é possível em
qualquer fase da vida”, salienta a Dra. Jéssica.
Palliative Care
@palliativecarebr
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