Trabalho publicado na Nature Microbiology reconstituiu o surto ocorrido na Região Metropolitana entre 2017 e 2018. Dados mostram nível de transmissão muito elevado e uma dinâmica diferente da observada em outras regiões do país
Um grupo de pesquisadores do
Brasil e do Reino Unido reconstituiu a dinâmica do surto de febre amarela
silvestre que atingiu a Região Metropolitana de São Paulo há cerca de nove anos
– marcado por mais de 90 mortes humanas, pelo extermínio dos bugios do Horto
Florestal e pela corrida aos postos de vacinação. Os resultados foram divulgados em março na revista Nature Microbiology.
O primeiro alerta foi dado em 9
de outubro de 2017, quando a carcaça de um macaco foi encontrada no Horto
Florestal, zona norte da capital. Em apenas seis semanas, o vírus se espalhou
de forma rápida, matando os cerca de 80 bugios que viviam no parque. “Foi a
primeira vez que vimos a febre amarela avançar de forma tão explosiva em um
ambiente florestal encravado dentro da cidade”, comenta Nuno Faria, docente do
Imperial College London (Reino Unido), professor visitante da Universidade de
São Paulo (USP) e coordenador da investigação.
O estudo calculou pela primeira
vez o número básico de reprodução (R0) da febre amarela silvestre,
estimado em 8,2. Também conhecido como “R zero”, esse é um valor usado na
epidemiologia para representar o potencial de dispersão de uma doença
infecciosa. Nesse caso, significa que um único bugio infectado e picado por
mosquitos podia transmitir o vírus a outros oito animais, em média. Segundo os
autores, trata-se de um valor extremamente alto para uma doença transmitida por
mosquitos. “A título de comparação, o R0 da COVID‑19 variava entre 3 e 4 mesmo
nos piores momentos da pandemia”, conta Adriano Pinter,
professor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, que na época
trabalhava na Superintendência de Controle de Endemias (Sucen) – um órgão da
Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. Ou seja, cada pessoa com COVID
podia transmitir a doença para outras três ou quatro pessoas, em média.
Portas de
entrada
Pesquisas anteriores ao surto
já apontavam os parques estaduais da Cantareira e Alberto Löfgren (Horto
Florestal) como possíveis portas de entrada para a febre amarela na Região
Metropolitana de São Paulo. Mesmo assim, o episódio surpreendeu os cientistas
pela velocidade e intensidade da disseminação.
A rápida propagação nas
Unidades de Conservação que margeiam São Paulo deixou os moradores dos bairros
densamente povoados do entorno em extrema vulnerabilidade. Na pequena cidade de
Mairiporã, vizinha à capital paulista, foram 142 casos notificados e mais de 40
óbitos, mesmo com a imunização em andamento.
“A primeira lição que fica com
esse episódio é que a vacinação de febre amarela precisa ser antecipada. Não
podemos mais esperar encontrar macacos mortos para começar a imunizar as
pessoas. A janela entre o primeiro alerta e o pico de transmissão é de duas a
três semanas. E a vacina leva de dez a 12 dias para começar a proteger a
população. Ou seja, quando o primeiro bugio aparece morto, já estamos
atrasados”, diz Pinter à Agência FAPESP.
Dados da pesquisa indicam que o
mosquito Haemagogus leucocelaenus, principal vetor do ciclo
silvestre da doença, teve papel central na explosão de casos. O inseto, que
tradicionalmente vive restrito à copa das árvores, também infectou humanos e
outros primatas no solo, o que acelerou a transmissão. “Foi uma combinação de
forças: a alta densidade de hospedeiros, a grande abundância de mosquitos, a
presença desses vetores tanto no solo quanto na copa e a temperatura elevada.
Tudo isso criou o cenário perfeito para uma propagação explosiva”, conta
Juliana Telles, pesquisadora do Instituto Pasteur, que na época também
trabalhava na Sucen.
Como o mosquito urbano (Aedes)
também está presente nessa interface entre a floresta e a cidade, existe um
risco de potencial reurbanização da febre amarela. “Nesse caso, o vírus também
passaria a ser transmitido de humano para humano pelo Aedes aegypti.
No entanto, detectamos o patógeno apenas em mosquitos Haemagogus, o
que significa que a transmissão no Horto ocorreu por meio do ciclo silvestre”,
conta Faria, que também coordena o Centro Conjunto Brasil‑Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica
e Epidemiologia de Arbovírus (CADDE)
ao lado da professora da USP Ester Sabino.
Para chegar às conclusões
descritas no artigo, os pesquisadores combinaram monitoramento de mosquitos,
análise de carcaças de primatas, sequenciamento metagenômico (ou seja, de todo
o material genético presente em amostras ambientais) e modelagem matemática. O
trabalho foi possível graças a ações conjuntas entre as secretarias estaduais e
municipais de Saúde e Meio Ambiente, articuladas por pesquisadores do Instituto
Florestal, da Sucen – atualmente incorporada ao Instituto Pasteur – e da USP.
Telles ressalta a importância
da integração entre instituições públicas de vigilância, pesquisa e conservação
ambiental. “Ao integrar as diferentes frentes de vigilância, foi possível
entender com precisão como o vírus entrou e se espalhou no parque. Essa abordagem
combinada revelou quantas introduções virais ocorreram e mostrou que o ciclo de
transmissão no Horto Florestal foi extremamente intenso e concentrado em um
período muito curto, um padrão bem diferente do observado na Amazônia, por
exemplo”, afirma.
Os autores destacam ainda a
importância de incorporar no trabalho a abordagem de Saúde Única (que reconhece
a interdependência entre a saúde humana, animal, vegetal e ambiental). “O
estudo de metagenômica viral identificou em um dos bugios infectados uma
coinfecção com o vírus da hepatite A. Isso sugere contaminação por resíduos
humanos nas bordas da floresta. O que acontece na borda da mata tem impacto
direto na saúde pública”, alerta Telles.
O artigo Evolution and
spillover dynamics of yellow fever at the forest-urban interface in Brazil pode
ser lido em: nature.com/articles/s41564-026-02302-w.
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/estudo-descreve-avanco-explosivo-da-febre-amarela-em-fragmento-florestal-da-cidade-de-sao-paulo/58469

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