Enquanto Ministério da Ciência e Tecnologia lança projeto inédito de inovação contra a dor pélvica, médicos defendem que combate aos abusos estéticos não pode sufocar tratamentos que beneficiam milhares de mulheres
O
debate sobre a saúde da mulher ganhou tração nacional com o recente lançamento,
pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), de um projeto de
pesquisa e desenvolvimento voltado à endometriose, dor pélvica crônica e saúde
menstrual. No evento, a ministra Luciana Santos jogou luz sobre o
"verdadeiro estigma" que faz com que jovens e trabalhadoras sofram em
silêncio e tenham seu desempenho severamente prejudicado.
O
plano conecta esse marco político-científico à realidade dos consultórios: a
endometriose profunda afeta mais de 7 milhões de brasileiras e leva de 7 a 10
anos para ser diagnosticada. Especialistas da Sociedade Brasileira de Medicina
Personalizada (SBMP) entram no debate para alertar que, para o projeto do
governo federal ter sucesso prático na ponta, o Brasil precisa blindar a
ciência e garantir o acesso a terapias de alta performance — como a via dos
implantes hormonais subcutâneos de liberação contínua —, separando a medicina
legítima dos modismos estéticos de mercado.
O
ginecologista Prof. Dr. Walter Pace, presidente da SBMP, corrobora o
diagnóstico do MCTI e destaca que a validação tecnológica é o único caminho
para interromper o sofrimento dessas mulheres."A iniciativa do
Ministério da Ciência e Tecnologia em destinar recursos para pesquisar a dor
pélvica é um marco histórico. Historicamente, a sociedade e a própria medicina
condicionaram a mulher a acreditar que sentir dores no período menstrual era
normal. Não é. Essa banalização atrasa o diagnóstico em quase uma década. Mas
além de diagnosticar, precisamos tratar. Em casos de endometriose profunda e
adenomiose, a via dos implantes subcutâneos de liberação contínua é uma
ferramenta de precisão indispensável: ela trata a raiz da dor e interrompe
hemorragias de forma estável, sem a toxicidade e a sobrecarga hepática causadas
pelos medicamentos orais tradicionais. A ciência precisa avançar para proteger
essas pacientes." — Prof. Dr. Walter Pace, presidente
da SBMP.
O
endocrinologista Dr. Guilherme Renke,
vice-presidente da SBMP, traz o olhar econômico e o alerta sobre os riscos de
retrocessos regulatórios que possam punir a paciente doente."A
endometriose afeta uma a cada dez mulheres em idade reprodutiva no Brasil,
afastando-as do trabalho por mais de 10 horas semanais. Trata-se de um problema
grave de saúde pública e de economia ativa. O investimento em tecnologia
proposto pelo governo é essencial, mas o ecossistema de saúde precisa separar
os abusos éticos da medicina séria. A SBMP condena veementemente o uso de
hormônios para fins estéticos ou o chamado 'chip da beleza'. Contudo, o combate
a esses excessos não pode se transformar em um banimento cego de uma via de
administração que possui respaldo científico internacional. Proibir o acesso a
implantes terapêuticos legítimos pune a mulher doente e alimenta o mercado
clandestino. A regulamentação eficiente deve restringir e fiscalizar, nunca
banir." — Dr. Guilherme Renke,
vice-presidente da SBMP.
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