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sexta-feira, 29 de maio de 2026

Você trata como infecção urinária. Mas e se o problema nunca tiver sido bactéria?

Ardência, urgência para urinar, pressão na bexiga e exames normais podem esconder diagnósticos pouco conhecidos e levar pacientes a anos de antibióticos sem resolver a causa real

 

Ela sente ardência para urinar. Depois vem a pressão na bexiga, aquela vontade insistente de ir ao banheiro mesmo sem quase sair urina, o desconforto pélvico que aparece sem avisar. O caminho parece óbvio: exame, antibiótico, alguns dias de alívio. Até que tudo volta. 

Às vezes, volta igual. Às vezes, pior. O exame de urina não mostra bactéria. A urocultura vem negativa. O antibiótico já não faz o mesmo efeito. Ainda assim, a paciente continua ouvindo a mesma explicação: “deve ser infecção urinária de repetição”. Mas nem sempre é. 

O urologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) Dr. Alexandre Sallum Bull explica: “Uma das armadilhas mais comuns no tratamento dos sintomas urinários é associar automaticamente ardência, urgência e dor pélvica à presença de bactérias.

A infecção urinária é uma causa frequente desses sintomas, mas não é a única. Quando os exames vêm repetidamente negativos ou quando o paciente não melhora de forma consistente com antibióticos, é preciso ampliar a investigação. Insistir no mesmo diagnóstico pode atrasar o tratamento correto”. 

O problema é que, enquanto o diagnóstico não vem, a vida do paciente vai se limitando. Passa a evitar viagens longas, relações sexuais, compromissos sem banheiro por perto. Aprende a conviver com a próxima crise antes mesmo de ela acontecer. E, muitas vezes, carrega junto uma sensação silenciosa de culpa: “será que estou fazendo algo errado?” Na maior parte das vezes, não está.

 

Quando parece infecção, mas não é

A infecção urinária bacteriana costuma ter um comportamento relativamente claro. Em geral, há presença de bactérias na urina, leucócitos elevados, sintomas compatíveis e melhora após o antibiótico adequado. 

Mas há um grupo de pacientes que não segue esse padrão. Os sintomas são reais, intensos e recorrentes, mas os exames não confirmam infecção. Nesses casos, algumas condições podem estar por trás do quadro, como cistite intersticial, bexiga hiperativa, disfunção do assoalho pélvico, atrofia urogenital na menopausa, cálculos urinários, prostatite crônica em homens e outras alterações inflamatórias ou funcionais do trato urinário. 

A grande dificuldade é que muitas dessas doenças imitam a infecção urinária. O paciente sente ardência. Sente urgência. Sente dor. Mas a origem não está em uma bactéria e sim em uma bexiga inflamada, irritada, hiperativa ou sensibilizada. 

É por isso que o tratamento com antibiótico pode até dar uma falsa impressão de melhora momentânea, mas não resolve o problema de base.

“Quando a causa é inflamatória, funcional ou muscular, o antibiótico não trata o mecanismo real da doença. O paciente pode melhorar por coincidência, por efeito anti-inflamatório indireto ou pela oscilação natural dos sintomas, mas tende a piorar novamente”, afirma o Dr. Alexandre Sallum.

 

A cistite intersticial: o diagnóstico que muitas mulheres só descobrem depois de anos

Entre as condições mais confundidas com infecção urinária está a cistite intersticial, também conhecida como síndrome da bexiga dolorosa.

Apesar do nome, ela não é uma infecção comum. Trata-se de uma condição crônica, complexa e ainda pouco reconhecida, caracterizada por dor ou pressão na região da bexiga, urgência urinária, aumento da frequência urinária e desconforto pélvico persistente. 

Muitas pacientes relatam que a dor piora quando a bexiga enche e melhora parcialmente após urinar. Outras sentem ardência contínua, sensação de peso baixo no abdômen ou necessidade de ir ao banheiro dezenas de vezes ao dia. 

O detalhe mais frustrante: os exames podem vir normais. E é justamente aí que começa a peregrinação. A paciente trata infecção. Depois trata de novo. Troca de antibiótico. Faz novas culturas. Escuta que talvez seja ansiedade. Escuta que “não deu nada”. Mas continua com dor.

“A cistite intersticial é um diagnóstico que exige escuta clínica. Não basta olhar apenas o exame de urina. É preciso entender o padrão da dor, a relação com o enchimento da bexiga, os gatilhos alimentares, a história de antibióticos repetidos e o impacto na qualidade de vida”, explica o urologista. 


O risco silencioso do antibiótico usado em excesso

Quando toda ardência vira automaticamente “infecção”, o antibiótico acaba sendo usado como resposta padrão. E isso tem consequências. O uso repetido e desnecessário desses medicamentos pode favorecer resistência bacteriana, alterar a microbiota intestinal e vaginal, aumentar episódios de candidíase, dificultar tratamentos futuros e deixar o organismo mais vulnerável a desequilíbrios. 

O antibiótico é uma ferramenta essencial quando existe infecção bacteriana. O problema é usá-lo como tentativa repetida sem confirmação adequada. Isso pode prejudicar a paciente e, principalmente, afastar o médico da investigação correta.

 

A bexiga também responde ao sistema nervoso

Outro aspecto pouco discutido é a relação entre sintomas urinários, tensão muscular e sistema nervoso. 

A bexiga não funciona isoladamente. Ela conversa o tempo todo com o cérebro, com os nervos pélvicos, com a musculatura do assoalho pélvico e com o estado inflamatório do corpo. Em pessoas com ansiedade crônica, estresse persistente, dor pélvica ou histórico de traumas locais, esse sistema pode ficar hipersensível. 

Isso significa que a vontade de urinar, a dor e a urgência não são “imaginação”. São respostas reais de um sistema que está sensibilizado.

Muitas pacientes apresentam contração involuntária da musculatura pélvica, dificuldade de relaxamento ao urinar e sensação de pressão constante. Nesses casos, a fisioterapia pélvica pode ser tão importante quanto o medicamento. 

“Existe uma diferença enorme entre dizer que o sintoma tem influência do sistema nervoso e dizer que está ‘na cabeça’. A dor é real. A urgência é real. O que precisamos é identificar qual mecanismo está produzindo esses sintomas”, reforça o médico. 

Essa é uma das viradas mais importantes da urologia moderna: parar de tratar apenas a urina e começar a olhar o sistema urinário como parte de um conjunto mais amplo.

 

Quando desconfiar que não é uma infecção comum

Alguns sinais devem acender o alerta para uma investigação mais aprofundada. Entre eles estão sintomas que voltam logo após o fim do antibiótico, exames de urina repetidamente negativos, uroculturas sem crescimento bacteriano, dor pélvica persistente, urgência urinária sem febre, pressão na bexiga, piora relacionada a estresse, relação sexual ou determinados alimentos. 

Também merece atenção a paciente que já tomou vários antibióticos em poucos meses sem um diagnóstico claro. 

Nesses casos, o urologista pode solicitar exames complementares, avaliar o histórico completo, investigar hábitos miccionais, função intestinal, menopausa, saúde vaginal, dor pélvica, presença de cálculos e alterações funcionais da bexiga. 

O objetivo não é complicar o diagnóstico. É parar de simplificar demais um problema que pode ter várias causas. 


Quando o diagnóstico muda, o tratamento também muda.

Se o problema é cistite intersticial, o foco pode envolver controle da dor vesical, ajustes alimentares, medicamentos específicos, terapias intravesicais e manejo de gatilhos. Se há bexiga hiperativa, entram reeducação vesical, medicamentos para reduzir contrações involuntárias e, em casos selecionados, toxina botulínica. Se existe disfunção do assoalho pélvico, a fisioterapia especializada pode ser decisiva. Na menopausa, a terapia hormonal local pode recuperar parte da saúde da mucosa urogenital e reduzir sintomas urinários.

 

Não existe uma fórmula única. Existe investigação correta. 

“Sintomas urinários recorrentes não devem ser normalizados, mas também não devem ser tratados no automático. Ardência, urgência e dor ao urinar merecem atenção, principalmente quando se repetem ou não respondem ao tratamento convencional”, conclui o Dr. Alexandre Sallum Bull.



Dr. Alexandre Sallum Bull CRM 129592  - Médico Urologista. Professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP)

 

Como treinar depois de parar de fumar

Retomadas muito intensas após longo período de tabagismo e sedentarismo escondem riscos importantes 

 

A adoção de hábitos de vida mais saudáveis nos últimos anos levou muita gente para quadras, parques e academias, tirou muita gente de centros cirúrgicos e pronto-socorros de hospitais e esvaziou fumódromos mundo afora. Dados da Organização Mundial da Saúde apontam que em 2025 havia 180 milhões de fumantes a menos no mundo do que no ano 2000. Em termos percentuais, a queda é ainda mais impressionante. Estima-se que no início do milênio um terço da população mundial fumava. Atualmente seriam 20%.

Não há dúvidas de que essa é uma boa notícia, mas ela também inspira cuidados. Uma pesquisa conduzida por pesquisadores da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF) acompanhou mais de 5 mil adultos por 25 anos e concluiu que ex-fumantes tendem a aumentar gradualmente a prática de atividade física após abandonar o cigarro (outra boa notícia). 

O cuidado que é preciso ter, principalmente na fase inicial, está relacionado à intensidade e à frequência. Os anos de tabagismo deixam marcas pelo corpo. O cigarro reduz a quantidade de oxigênio que chega aos músculos, os pulmões perdem capacidade, os vasos sanguíneos vão sendo danificados ao longo do tempo, o que dificulta a recuperação depois de qualquer esforço físico. 

Um reencontro com exercícios físicos de maneira muito entusiasmada pode resultar em falta de ar intensa, dores no peito, tontura, arritmias e outras complicações cardiovasculares. “O cigarro agride diretamente os vasos sanguíneos e compromete muito a circulação ao longo do tempo. Ele aumenta a inflamação, favorece o entupimento das artérias e reduz a oxigenação dos tecidos. Na prática, a pessoa perde condicionamento, sente mais cansaço, falta de ar e tem uma recuperação física pior”, afirma a cirurgiã vascular Aline Lamaita.

Uma retomada bem orientada, com acompanhamento médico e de um profissional de educação física, é a melhor maneira de continuar uma jornada rumo a uma vida mais saudável. “O ideal é começar de forma progressiva e, dependendo da idade e dos fatores de risco, fazer uma avaliação médica antes de entrar em exercícios de alta intensidade”, afirma Lamaita. “Num primeiro momento, exercícios aeróbicos de baixa a moderada intensidade são os mais indicados. Caminhada, bicicleta e natação ajudam o sistema pulmonar a se readaptar sem sobrecarga”, diz.

A musculação também pode e deve entrar na rotina desde cedo, com acompanhamento adequado. Segundo o treinador Lucas Florêncio, da Smart Fit, combinar aeróbico com treino de força é especialmente estratégico nessa fase.

"A musculação ajuda a preservar a massa muscular e manter o metabolismo ativo, enquanto os exercícios aeróbicos contribuem para a melhora da capacidade cardiorrespiratória", diz.

Uma das principais preocupações de quem consegue abandonar o vício no cigarro é engordar, já que a retirada da nicotina aumenta o apetite e reduz temporariamente o gasto energético. A musculação também pode ser uma aliada no combate ao ganho de peso. "O aumento da massa muscular contribui para elevar o gasto energético diário e ajuda no controle da composição corporal", afirma Florêncio.

A atividade física também é aliada para enfrentar sintomas de abstinência. O exercício estimula a liberação de endorfina, serotonina e dopamina, neurotransmissores associados ao bem-estar, o que ajuda a reduzir a ansiedade, estresse e a fissura pelo cigarro. “Isso ajuda muito porque melhora não só o corpo, mas também o comportamento e a saúde mental durante esse processo. O exercício ajuda a controlar a ansiedade, reduz estresse, melhora o sono e ainda diminui aquela sensação de abstinência que muitos pacientes sentem ao parar de fumar”, afirma a médica.

É preciso estar atento ao eventual surgimento de alguns sintomas: falta de ar excessiva, tontura, dor no peito, chiado respiratório ou recuperação muito lenta após o esforço. Nesses casos, a orientação é interromper a atividade e procurar um médico imediatamente. “O mais importante é respeitar o corpo nesse retorno e não tentar compensar anos de tabagismo de uma vez só”, afirma Lamaita.

  

Grupo Smart Fit


Esclerose múltipla: avanços no tratamento ajudam pacientes a terem mais qualidade de vida

Neurologista do Hospital Santa Catarina - Paulista destaca importância do combate aos estigmas e mitos relacionados à doença, além do diagnóstico precoce e acompanhamento contínuo
 

A esclerose múltipla ainda é cercada por desinformação e preconceitos que impactam diretamente a percepção sobre a doença e a vida dos pacientes. Apesar de muitas pessoas associarem o diagnóstico a limitações severas e incapacidade, os avanços da medicina nas últimas décadas têm transformado o tratamento e garantido mais qualidade de vida, autonomia e controle da condição. 

O neurologista Dr. Frederico Mennucci, do Hospital Santa Catarina - Paulista, explica que os principais desafios ainda são os mitos associados à doença. “Um dos mitos mais comuns é que se trata de uma doença devastadora e sem tratamento adequado”, afirma. Segundo o especialista, o próprio termo “esclerose” ainda carrega um forte estigma ligado ao passado, quando os recursos terapêuticos eram mais limitados.
 

Importância da detecção precoce dos sintomas

A esclerose múltipla é uma doença neurológica crônica e autoimune que afeta o sistema nervoso central e pode provocar diferentes sintomas, a depender da área acometida. Entre os principais sinais de alerta estão alterações neurológicas focais que permanecem por mais de 48 horas, como: perda de força em membros, alterações de sensibilidade e episódios de visão embaçada. 

O especialista ressalta que identificar esses sintomas precocemente faz diferença no prognóstico e na evolução clínica do paciente. “Quanto mais cedo e eficiente for o tratamento, melhor o desfecho, com menos sequelas e menor chance de novos surtos”, destaca o neurologista. 

Embora exista uma predisposição familiar em alguns casos, a esclerose múltipla não é considerada hereditária. Entre os fatores de risco mais relacionados ao desenvolvimento da doença estão: sexo feminino, idade jovem, deficiência de vitamina D e ascendência europeia.

Tratamento garante novas perspectivas

Nas últimas décadas, a evolução dos tratamentos também mudou significativamente a perspectiva dos pacientes. Hoje, existem terapias mais eficazes e seguras, capazes de reduzir crises, controlar a progressão da doença e preservar a qualidade de vida. “Essa é provavelmente uma das doenças em que a medicina mais evoluiu em eficiência e qualidade de tratamento nos últimos 30 anos”, afirma Dr. Frederico. 

Além do tratamento medicamentoso, o acompanhamento regular com neurologista é apontado como essencial para monitorar a evolução do quadro, orientar estratégias de reabilitação e diferenciar sintomas da doença de outras condições que também podem acometer o paciente. 

Hábitos saudáveis também exercem papel importante no controle da esclerose múltipla e na manutenção do bem-estar. Qualidade do sono, prática regular de atividade física, interrupção do tabagismo e cuidados com a saúde emocional e intestinal estão entre os fatores que podem contribuir para uma melhor evolução clínica. “É fundamental o seguimento adequado e regular, além dos cuidados com a saúde como um todo”, conclui o especialista do Hospital Santa Catarina - Paulista.


Alergias no outono: especialista do HSANP explica como prevenir as “ites” durante o período seco

Baixa umidade, frio e aumento da circulação de poeira e ácaros favorecem crises respiratórias e dermatológicas nesta época do ano

 

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Com a chegada do outono e a proximidade do inverno, é comum o aumento dos casos de alergias respiratórias e dermatológicas, especialmente entre pessoas que convivem com as chamadas “ites”, como rinite, sinusite, bronquite alérgica e dermatite. O clima seco, as temperaturas mais baixas e a maior concentração de agentes irritantes no ar tornam este período ainda mais desafiador para quem já possui predisposição alérgica. 

Polens, ácaros, mofo, poeira e poluição tendem a se intensificar nesta época do ano devido à baixa umidade relativa do ar, o que favorece sintomas como espirros, coriza, obstrução nasal, coceira no nariz, ouvido e garganta, além de tosse e falta de ar. 

De acordo com o otorrinolaringologista Caio Simão, do Hospital HSANP, alguns hábitos podem ajudar o organismo a enfrentar melhor as alergias ao longo de todo o ano. “Alimentação equilibrada, prática regular de atividades físicas e o consumo adequado de vitaminas, principalmente a vitamina C, contribuem para fortalecer o organismo. Mesmo quando não representam quadros graves, as alergias impactam diretamente a qualidade de vida dos pacientes”, explica. 

Além das alergias respiratórias, as dermatites também se tornam mais frequentes no outono devido ao ressecamento da pele. Segundo o especialista, o uso prolongado de fones de ouvido em ambientes externos pode agravar casos de dermatite na região auricular. “Coceira persistente, descamação da pele e vermelhidão são sintomas comuns. Em situações mais severas, também podem surgir secreções e sensação de ouvido tampado”, complementa Caio Simão. 

Entre as principais recomendações para reduzir os sintomas alérgicos estão o uso de umidificadores de ar, a higienização frequente de roupas de cama, cortinas e ambientes fechados, além da ventilação adequada dos cômodos. 

Para pacientes com alergias crônicas, a imunoterapia alérgeno-específica também pode ser uma alternativa. “Esse tratamento ajuda o sistema imunológico a responder melhor aos agentes causadores das alergias, reduzindo a intensidade das crises ao longo do tempo”, finaliza o otorrinolaringologista do Hospital HSANP.

Hospital HSANP
 

Pesquisa Idec: Comparação entre o teto de preços de medicamentos em compras nas farmácias e pelo SUS

Preço de remédios pode subir até 27 vezes sem violar regras do CMED, aponta pesquisa do Idec

 

Estudo revela distorção entre preços reais e teto regulatório; antibiótico Clavulin pode ter aumento de mais de 100% sem descumprir regras da CMED; descontos atrelados ao CPF chegam a 982% e acendem alerta sobre abuso de dados pessoais

 

A quinta edição da pesquisa sobre preços de medicamentos do Idec (Instituto de Defesa de Consumidores) revela, mais uma vez, que a regulação de preços está distante da realidade enfrentada pela população e pelo SUS. O estudo mostra que, em compras públicas, há espaço para que um medicamento sofra um aumento de até 27 vezes, sem que isso seja considerado irregular e esteja dentro do teto da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), órgão vinculado à Anvisa. Já no balcão da farmácia, o preço pode até quadruplicar e, também, ainda estar dentro das regras. 

A pesquisa “O tamanho da brecha: Comparação entre o teto de preços de medicamentos em compras nas farmácias e pelo SUS” analisou preços praticados em compras públicas e no varejo farmacêutico e concluiu que há uma enorme discrepância entre os valores efetivamente cobrados e os limites máximos definidos pela regulação. O levantamento também aponta indícios de que descontos oferecidos em farmácias mediante fornecimento do CPF podem ser artificiais e usados para pressionar consumidores a compartilhar dados pessoais sensíveis. 

“O problema não é apenas o reajuste anual anunciado pelo governo. A grande questão é que o teto regulatório está tão distante da realidade que abre espaço para aumentos abusivos, variação de preços e práticas que fragilizam tanto o consumidor quanto o SUS”, afirma o Idec. 

Referente às compras públicas, entre os casos mais extremos identificados pela pesquisa está o Sofosbuvir, medicamento usado no tratamento da hepatite C. O governo pagou R$ 776,44 pelo produto, enquanto o teto autorizado pela CMED chegava a R$ 21.638,36 — uma diferença de 2.686%, permitindo que o preço aumente até 27 vezes sem descumprir a regra atual. 

Outro exemplo é o Dolutegravir, utilizado no tratamento de HIV/Aids. O preço pago em compras públicas foi de R$ 109,80, enquanto o teto regulatório era de R$ 1.600,48 — uma diferença superior a 1.357%. 

No varejo farmacêutico, ou seja, na compra que o consumidor faz, um dos casos que mais chamaram atenção foi o do antibiótico Clavulin, amplamente utilizado no Brasil. Segundo o levantamento, o medicamento apresentou a maior distância entre o preço praticado e o teto permitido pela CMED entre os remédios de marca analisados. Hoje vendido, em média, por R$ 221,35, o produto poderia chegar a R$ 444,25 sem descumprir a regulação — um aumento potencial superior a 100% praticamente de um dia para o outro. 

Além disso, após o reajuste anual autorizado pela CMED, o preço do Clavulin aumentou 1,9% sem descontos no levantamento realizado pelo Idec entre março e abril deste ano, enquanto o teto regulatório subiu 4,77%. Para o Instituto, isso demonstra como a lógica atual permite reajustes graduais e sucessivos sem relação direta com os custos reais do medicamento. 

Entre os medicamentos genéricos analisados, a diferença média entre os preços praticados e o teto regulatório chegou a 38,78%, podendo ultrapassar 400% em alguns casos. Já entre medicamentos vendidos com descontos vinculados ao CPF, a distância em relação ao teto da CMED alcançou um valor extremo de 982% no caso da losartana potássica. 

A pesquisa identificou ainda que alguns medicamentos eram vendidos sem desconto praticamente no limite do teto regulatório e, após o consumidor informar o CPF, recebiam reduções expressivas de preço. Para o Idec, isso reforça a suspeita de “descontos artificiais”, usados para estimular o compartilhamento de dados pessoais sensíveis relacionados à saúde, incorrendo potencialmente no descumprimento do Código de Defesa do Consumidor (CDC) e da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). 

Entre os exemplos mais emblemáticos está o medicamento Aradois, para hipertensão. O produto apresentava desconto médio de 419% após o fornecimento do CPF. Já no caso dos genéricos, o desconto médio chegou a 77,9%, com variações que ultrapassaram 346% em alguns medicamentos. 

“O consumidor é colocado em uma situação de pressão. Muitas vezes, ele precisa escolher entre pagar muito mais caro ou compartilhar dados pessoais sensíveis sem transparência suficiente sobre como essas informações serão utilizadas”, alerta o Instituto. 

Além do impacto direto sobre consumidores, o estudo alerta para os riscos à sustentabilidade do SUS. Medicamentos de alto custo distribuídos pelo sistema público podem sofrer aumentos expressivos dentro das regras atuais, pressionando as contas públicas e comprometendo o acesso da população a tratamentos essenciais. 

Diante dos resultados, o Idec defende a modernização urgente das regras de precificação de medicamentos no Brasil, com maior transparência sobre custos da indústria farmacêutica, revisão dos critérios de definição dos tetos da CMED, ampliação da participação social e fortalecimento da fiscalização sobre práticas abusivas no varejo farmacêutico. 

Essas mudanças e a pesquisa completa integram a campanha “Remédio a Preço Justo”, do Idec, que propõe mudanças estruturais na regulação do mercado farmacêutico brasileiro.



Idec
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Comparação entre o teto de preços de medicamentos em compras nas farmácias e pelo SUS
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Pesquisa Idec: Comparação entre o teto de preços de medicamentos em compras nas farmácias e pelo SUS: Link


Doenças inflamatórias intestinais não tratadas podem elevar risco de câncer colorretal

Aumento de diagnósticos de Crohn e retocolite ulcerativa no Brasil reflete hábitos modernos. Diagnóstico precoce é decisivo para evitar complicações graves e evolução oncológica



A campanha Maio Roxo traz um alerta para as doenças inflamatórias intestinais (DII), um grupo de patologias crônicas que atinge cerca de 10 milhões de pessoas no mundo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, segundo a Sociedade Brasileira de Coloproctologia, observa-se uma prevalência de aproximadamente 100 casos para cada 100 mil habitantes, um crescimento impulsionado pela urbanização e pela ocidentalização dos hábitos alimentares. Um dos dados mais críticos reforçados por especialistas é a correlação direta entre o tempo de atividade dessas doenças e o risco de desenvolvimento de câncer colorretal.

A ligação entre as DIIs de longa duração – que englobam a Doença de Crohn e a retocolite ulcerativa – e o câncer colorretal está na inflamação crônica persistente do cólon e reto. Quando o intestino permanece inflamado por muitos anos, ocorre um estímulo celular anormal para a reparação contínua dos tecidos, o que eleva a chance de mutações genéticas no DNA celular.

O coloproctologista Dr. Dannilo Silveira, do Hospital Santa Lúcia Sul, explica que o risco estatístico apresenta uma elevação clinicamente significativa após 8 a 10 anos do início dos sintomas. "A boa notícia é que esse risco declina drasticamente quando a inflamação é controlada de forma eficaz por meio do tratamento médico continuado. A inserção em programas de vigilância endoscópica permite remover lesões pré-cancerosas muito antes de evoluírem para uma neoplasia maligna", destaca o especialista.



Crohn e retocolite ulcerativa

A Doença de Crohn é uma doença inflamatória crônica do intestino que pode afetar qualquer parte do trato digestivo, da boca ao ânus, mas costuma ser mais comum no intestino delgado e no cólon. A inflamação costuma alternar trechos inflamados e saudáveis, e pode atingir camadas profundas da parede intestinal. Entre os sintomas mais frequentes estão dor abdominal, diarreia persistente, perda de peso, fadiga e, em alguns casos, fissuras ou fístulas.

A causa exata ainda não é totalmente conhecida, mas envolve uma combinação de predisposição genética, alterações imunológicas e fatores ambientais. O tratamento busca controlar a inflamação e melhorar a qualidade de vida, podendo incluir mudanças alimentares, medicamentos imunossupressores e terapias biológicas.

Já a retocolite ulcerativa, também uma doença inflamatória intestinal crônica, diferencia-se por afetar exclusivamente o intestino grosso (cólon e reto). Nesse caso, a inflamação é contínua e atinge principalmente a camada mais superficial da mucosa intestinal, formando úlceras que podem causar sangramento. Os sintomas mais comuns incluem diarreia com sangue, urgência para evacuar, cólicas e sensação de evacuação incompleta.

Assim como no Crohn, há períodos de crise e remissão. Embora ambas façam parte do mesmo grupo de doenças e compartilhem alguns sintomas, a localização, a profundidade da inflamação e as complicações possíveis se manifestam de formas diferentes entre elas. No Crohn, a inflamação tende a ser mais irregular e profunda, e na retocolite, mais contínua e superficial.



Por que os casos crescem no Brasil?

O aumento expressivo de diagnósticos no país reflete o fenômeno da transição epidemiológica. O gastroenterologista Dr. Bernardo Oliveira, do Hospital Santa Lúcia Norte (HSLN), aponta que o aprimoramento dos exames de rastreio e a especialização das equipes médicas contribuíram para esse cenário, mas fatores ambientais são determinantes.

"Temos uma relação da doença inflamatória intestinal com o ambiente mais higiênico. Como é uma doença ligada ao sistema imunológico, quando temos um sistema imaturo que não tem muito contato com germes, ficamos mais propícios a doenças autoimunes do trato gastrointestinal. Vimos isso em países desenvolvidos e agora estamos vendo no Brasil, à medida que o saneamento básico avança", explica o médico. Neste caso, como complementa o Dr. Dannilo, o excesso de higienização nos ambientes urbanos reduz a exposição precoce a microrganismos benéficos, provocando uma espécie de "deseducação" do sistema imunológico.

Outros gatilhos biológicos incluem a disbiose intestinal (causada por alimentos ultraprocessados), o estresse crônico, o sedentarismo e o uso indiscriminado de antibióticos na infância, que "deseducam" o sistema imunológico.



Quando a diarreia é um sinal de alerta

Muitos pacientes passam anos sem o diagnóstico correto por confundirem os sintomas com verminoses ou com a Síndrome do Intestino Irritável (SII). Segundo a Associação Brasileira de Colite Ulcerativa e Doença de Crohn (ABCDII), o tempo médio para o diagnóstico correto no país pode ultrapassar um ano.

Conforme explica o Dr. Dannilo, a diferença essencial entre ambas reside na presença ou ausência de lesões estruturais ou orgânicas no tecido intestinal. "Na SII, o intestino é anatomicamente perfeito nos exames, mas funciona de forma hipersensível. Não gera feridas, úlceras ou risco aumentado de cancro. Nas DIIs, há uma resposta autoimune destrutiva, em que o próprio sistema de defesa ataca o trato digestivo, provocando úlceras abertas e sangramentos reais detectáveis por colonoscopia e biópsias."

Na primeira, o tratamento foca no manejo de sintomas, no uso de medicamentos para dor, ajustes dietéticos e controle do estresse, enquanto a segunda exige o uso de fármacos imunomoduladores que freiam o sistema imunitário e cicatriza tecidos, prevenindo obstruções perfurações. Enquanto a SII é uma doença funcional (sem lesão estrutural), as DIIs são doenças orgânicas destrutivas.

"Uma diarreia comum é autolimitada e dura entre 3 e 7 dias. Quando ela persiste por 14 ou 21 dias, já é necessário questionar a etiologia. Sintomas da DII incluem perda de peso involuntária, anemia, sangue ou muco nas fezes, dores cólicas importantes e manifestações extraintestinais, como aftas orais de repetição, dores nas articulações ou lesões oftalmológicas”, complementa o Dr. Bernardo.

Outro sinal de alerta são os sintomas noturnos: acordar de madrugada com dor ou urgência incontrolável para evacuar é característico de inflamação crônica, enquanto o intestino funcional costuma "repousar" durante o sono.



Medicamentos biológicos e robótica

O prognóstico para Crohn e retocolite ulcerativa mudou radicalmente com o foco na remissão profunda, visando a cicatrização completa da mucosa. Atualmente, o tratamento utiliza medicamentos biológicos (anticorpos monoclonais) que bloqueiam proteínas específicas da inflamação diretamente no foco, com maior biossegurança e menos efeitos colaterais que os antigos corticoides.

Nos casos em que a intervenção cirúrgica é necessária — seja por neoplasias, obstrução, fístulas ou perfurações —, a cirurgia robótica surge como um diferencial tecnológico. Desde 2019, incluindo o ano atual, o Hospital Santa Lúcia já realizou cerca de 1 mil cirurgias do aparelho digestivo nas unidades Sul e Norte.

“Com a maior experiência em cirurgia robótica do Centro-Oeste, o Grupo Santa também é referência na área em relação ao aparelho digestivo, realizando desde os procedimentos mais frequentes até cirurgias de altíssima complexidade, executadas em poucas instituições da América Latina, sempre com máxima precisão, menor agressão cirúrgica e foco absoluto na recuperação e segurança do paciente”, comenta o Dr. Victor Figueiredo, cirurgião do aparelho digestivo e coordenador do Centro de Cirurgia Robótica do Grupo Santa.

Com auxílio dos robôs Da Vinci Xi & X, em coloproctologia, é possível realizar colectomia (remoção total ou parcial do intestino grosso), retossigmoidectomia (remoção do cólon sigmoide e de parte do reto, as porções finais do intestino) e de distúrbios do assoalho pélvico (como incontinência fecal, prolapso de reto). Quanto ao aparelho digestivo como um todo, com os mesmos robôs, as possibilidades incluem hepatectomia (fígado), pancreatectomia (pâncreas), gastrectomia (estômago), bariátrica (redução do estômago), esplenectomia (baço), enterectomia (intestino), colectomia (intestino), retossigmoidectomias (intestino), cirurgia das vias biliares, cirurgia de câncer de pâncreas e cirurgia de câncer de fígado.



Centro do Aparelho Digestivo (CAD)

O tratamento das DIIs exige uma abordagem multidisciplinar integrada para garantir a funcionalidade e autonomia do paciente, especialmente considerando que a maioria dos diagnósticos ocorre entre os 15 e 40 anos.

O Hospital Santa Lúcia Sul se destaca nacionalmente por intermédio do seu Centro do Aparelho Digestivo (CAD), que concentra gastroenterologistas, cirurgiões do aparelho digestivo, coloproctologistas, nutricionistas e psicólogos em um único ecossistema coordenado. A estrutura conta com colonoscopia com cromoscopia avançada e entero-ressonância, equipe capacitada para aplicação segura de terapias biológicas com monitoramento intra-hospitalar, além de UTI especializada e pronto-socorro para intercorrências gastroenterológicas.

“Tanto no cenário local quanto no panorama nacional de saúde, o Hospital Santa Lúcia Sul posiciona-se como um centro de absoluta excelência e referência no tratamento das Doenças Inflamatórias Intestinais por intermédio do seu renomado Centro do Aparelho Digestivo”, destaca o Dr. Dannilo. “O centro dispõe de uma linha de cuidados completa e integrada, e oferece suporte de urgência 24 horas e UTI especializada em complicações gastroenterológicas.”

 

O que é o puerpério e como ele pode afetar a saúde mental das mulheres

Psicóloga perinatal Rafaela Schiavo, fundadora do Instituto MaterOnline e referência em saúde mental materna, explica como o período após o parto pode impactar o bem-estar emocional das mães e quais sinais merecem atenção


Muitas mulheres só entendem o que é o puerpério quando já estão vivendo essa fase. Depois do nascimento do bebê, entre noites mal dormidas, mudanças no corpo, inseguranças e uma rotina completamente diferente, é comum que a mãe perceba que algo mudou, mesmo sem conseguir identificar exatamente o que está sentindo.

O puerpério é o período de recuperação e readaptação do organismo após a gestação e o parto. Nessa fase, o corpo passa por alterações hormonais, recuperação física e início da produção de leite. Mas as transformações não são apenas biológicas.

Muitas mulheres ainda chegam ao pós-parto sem informação suficiente sobre o impacto emocional desse momento, o que pode fazer com que sintomas importantes sejam naturalizados ou silenciados. “O puerpério está muito mais relacionado à adaptação orgânica. Já o pós-parto está muito mais relacionado à adaptação psicológica”, explica Rafaela Schiavo.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 13% das mulheres no pós-parto desenvolvam algum transtorno mental, principalmente depressão. Em países em desenvolvimento, a prevalência pode chegar a 19,8%. No Brasil, um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) apontou que mais de uma em cada quatro mulheres apresentou sintomas de depressão entre seis e 18 meses após o nascimento do bebê.


Entre a maternidade idealizada e a realidade

Para especialistas, parte do sofrimento emocional vivido no puerpério está relacionada ao choque entre a maternidade imaginada durante a gravidez e a experiência real após o nascimento.

Durante a gestação, muitas mulheres criam expectativas sobre a amamentação, o comportamento do bebê, a divisão dos cuidados com o parceiro e até sobre a própria capacidade de maternar. Na prática, a experiência pode ser muito diferente.

“O puerpério romantizado é vendido para muitas pessoas. Mas o puerpério real é diferente. A mulher vai ter que lidar com o bebê real, não com o bebê idealizado; com a maternidade real, não com a maternidade idealizada; com a amamentação real, não com a amamentação idealizada”, afirma Rafaela.

O bebê pode chorar mais do que o esperado, a amamentação pode ser dolorosa ou não acontecer como planejado, e a privação de sono pode transformar tarefas básicas em desafios diários. Quando isso se soma à queda hormonal e à falta de apoio, o desgaste emocional tende a aumentar.

Outro ponto destacado pela psicóloga é a sensação de invisibilidade que muitas mães relatam após o nascimento do bebê. “As pessoas vão visitar o bebê, não a mãe. Durante a gestação, ela recebe atenção e cuidado. Depois que o bebê nasce, muitas vezes ninguém pergunta como ela está”, diz.

Segundo ela, quando o cuidado se concentra exclusivamente no recém-nascido, a mulher pode ter mais dificuldade para reconhecer e expressar o próprio sofrimento. Visitas longas, palpites constantes e cobranças relacionadas à amamentação e à rotina também podem ampliar a sobrecarga emocional.


Quais sinais merecem atenção?

Oscilações emocionais nos primeiros dias após o parto são consideradas comuns. Muitas mulheres ficam mais sensíveis, choram com facilidade, apresentam irritação ou alternam momentos de alegria e tristeza. Esse quadro é conhecido como baby blues ou tristeza pós-parto.

O baby blues costuma ser transitório e aparece nos primeiros dias após o nascimento do bebê, com sintomas como choro frequente, ansiedade, irritabilidade e mudanças de humor. A diferença para a depressão pós-parto está principalmente na duração e intensidade dos sintomas.

Quando a tristeza persiste ou se intensifica, é importante buscar avaliação profissional.

Entre os sintomas da depressão pós-parto listados pelo Ministério da Saúde estão tristeza intensa, sensação constante de desespero, perda de interesse pelas atividades do dia a dia, alterações no sono e no apetite, culpa excessiva, ansiedade, dificuldade de concentração e pensamentos de morte ou de fazer mal a si mesma ou ao bebê.

Segundo Rafaela, também merecem atenção sinais como irritabilidade intensa, isolamento, sensação persistente de incapacidade, alterações importantes de apetite, pesadelos e pensamentos repetitivos. Mulheres que já tinham histórico de depressão, ansiedade ou outros transtornos mentais antes da gestação precisam de acompanhamento mais próximo. A orientação é não interromper medicações por conta própria ao descobrir a gravidez e procurar avaliação médica especializada. Casos com alucinações, pensamentos desconexos, perda de contato com a realidade ou risco para a mãe e para o bebê exigem atendimento imediato.


Quando procurar ajuda

Especialistas recomendam procurar ajuda quando tristeza, ansiedade, irritação ou sensação de incapacidade começam a causar sofrimento intenso ou interferem na rotina. No Sistema Único de Saúde (SUS), a mulher pode relatar os sintomas durante consultas de pré-natal ou pós-parto, tanto ao obstetra quanto à equipe da unidade de saúde ou outros profissionais que acompanhem a família. A partir disso, pode ser encaminhada para atendimento em saúde mental.


O papel da rede de apoio

Familiares e amigos também têm papel importante durante o puerpério. Segundo especialistas, a ajuda deve reduzir a sobrecarga da mãe, e não a aumentar. A orientação é evitar visitas longas, diminuir cobranças, observar mudanças de comportamento e perguntar diretamente como a mulher está se sentindo.

Também é importante evitar frases que minimizem o sofrimento, como dizer que a mãe “deveria estar feliz” ou que tudo é “normal porque ela acabou de ter um bebê”. Para Rafaela, esse tipo de reação pode atrasar a busca por ajuda e fazer com que a mulher enfrente o sofrimento em silêncio. A recomendação é que a rede de apoio observe sinais persistentes de sofrimento emocional e incentive a procura por atendimento profissional quando necessário.


Cresce o uso de cigarros eletrônicos entre pacientes que procuram ajuda para parar de fumar

 Levantamento do PrevFumo, ambulatório de cessação do tabagismo do Hospital São Paulo da UNIFESP, aponta aumento no uso de vapes entre pacientes atendidos pelo serviço

 

O uso associado do cigarro tradicional e dos dispositivos eletrônicos para fumar (DEF), conhecidos popularmente como vape, tem se tornado cada vez mais frequente entre pessoas que procuram tratamento para abandonar o tabaco. Dados do PrevFumo, ambulatório de cessação do tabagismo do Hospital São Paulo (HSP) da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), mostram crescimento do uso prévio de cigarros eletrônicos entre pacientes atendidos pelo serviço entre 2018 e 2025. 

O levantamento, realizado com pacientes acompanhados pelo ambulatório, identificou aumento no percentual de usuários de dispositivos eletrônicos ao longo do período analisado. Entre 2018 e 2025, a proporção de pacientes que relataram uso prévio de vape dobrou, passando de 4,1% para 8,1%. Em 2025, aproximadamente um em cada 12 pacientes atendidos relatava já ter fumado o cigarro eletrônico. 

Segundo especialistas do serviço, muitos pacientes chegam ao atendimento acreditando que os vapes podem auxiliar na interrupção do cigarro convencional ou representar uma alternativa menos prejudicial à saúde. No entanto, o uso associado frequentemente mantém a dependência à nicotina, substância responsável pela continuidade do vício e que também causa prejuízos à saúde. 

“O que temos observado é que muitos pacientes não substituem completamente o cigarro convencional pelo eletrônico, mas passam a utilizar os dois produtos simultaneamente, mantendo a dependência à nicotina”, afirma a pneumologista e coordenadora do projeto, Dra. Lygia Sampaio. 

Os dados também apontam predominância feminina no uso prévio de dispositivos eletrônicos ao longo de todo o período analisado, com distribuição relativamente estável entre os sexos. Em 2025, as mulheres representaram 59% dos pacientes que relataram uso prévio de cigarros eletrônicos. 

Em relação à faixa etária, a maior concentração de pacientes com histórico de uso de vape está entre adultos de 30 a 39 anos, que representam 39% do total, seguidos pelo grupo com menos de 30 anos (28%). Pacientes entre 40 e 49 anos correspondem a 21% dos casos, enquanto aqueles com 50 anos ou mais representam 12%. 

Apesar de ainda representar uma parcela relativamente pequena entre os pacientes atendidos, o crescimento progressivo do uso de dispositivos eletrônicos preocupa especialistas, especialmente diante da percepção de que os vapes seriam menos nocivos à saúde e poderiam auxiliar na cessação do tabagismo sem riscos. 

Neste 31 de maio, data em que é celebrado o Dia Mundial Sem Tabaco, especialistas do Prevfumo reforçam a importância da conscientização sobre os riscos relacionados aos dispositivos eletrônicos e da busca por acompanhamento especializado para parar de fumar, sem a adoção de outras práticas prejudiciais.

O PrevFumo oferece atendimento gratuito pelo SUS. Para agendamento, os pacientes podem entrar em contato pelos telefones (11) 5572-4301 e (11) 5576-4848 (VOIP: 7004).


Popularização das canetas emagrecedoras acende alerta para tratamento sem acompanhamento


Especialistas do CEJAM alertam que medicamentos exigem mudança de hábitos, acompanhamento prolongado e tratamento individualizado

 

Por muito tempo, a obesidade foi tratada apenas como consequência de maus hábitos ou falta de disciplina. Com o avanço das pesquisas e abordagens terapêuticas, essa percepção vem mudando, ampliando o debate sobre a doença e formas de tratamento. Nesse sentido, a popularização das “canetas emagrecedoras” colocou o tema no centro do debate público e acendeu o alerta para os riscos do uso sem avaliação profissional.

Dados do Vigitel, sistema de monitoramento do Ministério da Saúde, divulgados em 2025, apontam que o percentual de adultos com excesso de peso no Brasil saltou de 42,6% em 2006 para 62,6% em 2024. No mesmo período, os índices de obesidade mais que dobraram, saindo de 11,8% para 25,7%. O cenário segue uma tendência mundial e ganha a atenção de especialistas pelos impactos na saúde e na qualidade de vida.

Segundo a endocrinologista Dra. Patrícia Zach, do Hospital Dia Campo Limpo, unidade da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo (SMS-SP) e gerenciada pelo CEJAM - Centro de Estudos e Pesquisas "Dr. João Amorim", entender a obesidade como uma doença crônica é um passo importante para quebrar estigmas e ajuda o paciente a compreender que o tratamento não tem prazo para acabar.

“É uma condição multifatorial e envolve alterações metabólicas, inflamação crônica e aumento do risco para diversas doenças. Hipertensão, diabetes, apneia do sono, asma, osteoartrite e alguns tipos de câncer estão entre os problemas associados.”

Nesse contexto, as canetas emagrecedoras ganharam espaço pois se mostram bastante eficazes. O problema, segundo ela, é que o crescimento acelerado também deixa margem para distorções. A busca estética sem orientação profissional cresceu nos últimos anos, impulsionada por conteúdos nas redes sociais e promessas milagrosas.

Dra. Patrícia afirma que um dos erros mais comuns é acreditar que o medicamento, sozinho, resolverá o problema. Sem mudanças consistentes na rotina, os impactos podem aparecer rapidamente.

Entre as complicações do uso inadequado estão a pancreatite, colelitíase, alergias, anorexia e sarcopenia, condição caracterizada pela perda progressiva de massa muscular. Muitos pacientes apresentam essa perda porque não mantêm uma rotina de exercícios físicos. Outros sofrem com queda de cabelo acentuada por deficiência na ingestão de proteínas.

A médica reforça que o tratamento precisa ser contínuo e multidisciplinar, envolvendo uma avaliação, alimentação adequada, prática de atividade física e suporte individualizado.

“Como uma doença multifatorial, o acompanhamento correto se faz necessário para a atenção integral ao paciente, colaborando para a mudança dos hábitos”, destaca.

Quando bem indicados e orientados corretamente, os medicamentos podem trazer benefícios importantes além da redução do peso corporal.


Cuidado contínuo e acompanhamento no SUS 

É justamente nesse ponto que a Linha de Cuidado da Saúde da Pessoa com Obesidade do CEJAM busca ampliar o olhar sobre a doença. A linha organiza o atendimento de forma contínua e integrada nas unidades gerenciadas pela instituição, tendo a Atenção Primária como principal porta de entrada do cuidado.

Na prática, o atendimento começa nas unidades básicas de saúde, com identificação dos casos, avaliação de risco e assistência inicial. Quando necessário, o paciente é encaminhado para a Atenção Especializada ou para serviços de alta complexidade, incluindo cirurgia bariátrica.

Para Clevia Pampolha, gerente da UBS Jardim São Bento, unidade da SMS-SP, também gerenciada pelo CEJAM, a continuidade do cuidado é essencial porque o foco não está apenas na redução do peso, mas também na melhora da saúde e no controle das doenças associadas.

“O tratamento clínico deve considerar também outras condições importantes, como ansiedade, depressão, transtornos alimentares, qualidade do sono, sedentarismo, condições hormonais e o contexto social e familiar do paciente”, explica.

O atendimento multiprofissional também é um dos pilares da Linha de Cuidado, reunindo médicos, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos, educadores físicos e assistentes sociais na construção de um plano terapêutico individualizado.

“Cada profissional contribui com sua expertise para atender a pessoa de forma integral, considerando também sua realidade, dificuldades e potencialidades, promovendo uma atenção integral com resultados mais duradouros”, destaca Clevia.

A Linha de Cuidado também orienta que medicamentos para obesidade, incluindo as canetas emagrecedoras, sejam utilizados apenas como parte de um tratamento mais amplo e sob supervisão médica. 


CEJAM - Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim”
@cejamoficial       


Depressão lidera em duração dos afastamentos por saúde mental no trabalho

Levantamento da VR aponta que afastamentos acima de 30 dias representam 11% das ocorrências, mas concentram 58% do total de dias ausentes no primeiro quadrimestre de 2026
 

Um levantamento da VR, empresa de soluções para trabalhadores e empregadores, mostra que, no primeiro quadrimestre de 2026, foram registrados 2.247 episódios de afastamento por questões de saúde mental entre suas mais de 75 mil empresas-clientes que utilizam os serviços de RH digital da companhia. Os dados foram coletados a partir do envio de atestados médicos dos trabalhadores que fazem a marcação de ponto e precisaram justificar as ausências. Os casos representaram 32.957 dias de ausência entre janeiro e abril, alta de 832% na comparação com os 3.534 dias contabilizados no mesmo período de 2025.

Ansiedade liderou como principal motivo dos afastamentos no quadrimestre, respondendo por 51% dos casos, seguida pela depressão, com 23%. Apesar de aparecer em menor proporção entre os diagnósticos, a depressão é o transtorno que mais prolonga o tempo fora do trabalho: enquanto a ansiedade representa 28% dos dias de ausência, somando 74.296 horas, a depressão concentra 36% dos dias afastados, o equivalente a 95.976 horas.

Ainda em relação aos motivos de afastamento, os quadros mistos, que combinam ansiedade e depressão, aparecem em terceiro lugar, com 18% dos casos. Na sequência, vêm os afastamentos por fadiga, estresse e burnout, que somam 8%.
 

Grupo

% casos

% dias afastados

Ansiedade

51%

28%

Depressão

23%

36%

Mistos

18%

23%

Relacionados ao trabalho

8%

12%


Millennials lideram afastamentos e São Paulo concentra os casos

No recorte por gerações, millennials (1981 e 1996) foram os que mais se afastaram no quadrimestre, com 35% dos casos. A geração X (1965 e 1980) aparece em seguida, com 20%, enquanto a geração Z (1997 e 2012) responde por 12%. Regionalmente, São Paulo segue na liderança e concentra 39% dos afastamentos, seguido pelo Paraná, com 11,4%, e Minas Gerais, com 10%.
 

Quem cuida de quem cuida?

O levantamento também chama atenção para o impacto nas áreas de RH. O setor responde por 9% das ocorrências registradas no quadrimestre, mas concentra 12,9% dos dias afastados, sinalizando casos mais longos e maior impacto operacional proporcionalmente.
 

NR-1 pressiona empresas a adotarem gestão ativa da saúde mental

Segundo o executivo da VR, com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), as empresas estão deixando modelos reativos para adotar gestões mais ativas e baseadas em riscos ocupacionais. “A NR-1 é o ponto de partida, e cabe às lideranças das empresas criar práticas que tragam a saúde mental para o centro do ambiente de trabalho. Para isso, os dados se configuram como informação para tomada de decisão pelos gestores, dando a chance de construir planos mais assertivos. Nesse contexto, controle de jornada e marcação de ponto são fundamentais para identificar excessos, sobrecarga e riscos psicossociais, especialmente em um contexto de intensificação das demandas e transformação das relações de trabalho”, observa Willian Gil.
 


Atualização da norma que entrou em vigor em 26 de maio reforça atenção aos riscos psicossociais no trabalho e amplia debate sobre estratégias complementares para reduzir estresse e exaustão emocional

  

O esgotamento emocional deixou de ser apenas uma percepção individual para se tornar uma preocupação crescente dentro das empresas. Cansaço constante, irritabilidade, dificuldade de concentração, sensação de sobrecarga e exaustão mental estão entre os sinais mais associados ao burnout, fenômeno reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como resultado do estresse crônico relacionado ao trabalho.

No Brasil, o tema ganhou ainda mais relevância após a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passou a valer em 26 de maio de 2026 e reforçou a necessidade de atenção aos riscos psicossociais dentro do ambiente corporativo. A norma amplia o olhar sobre fatores como pressão emocional, excesso de demandas, desgaste mental e organização do trabalho nas estratégias de prevenção em saúde ocupacional.

Segundo a neurocientista e aromaterapeuta Daiana Petry, o avanço da discussão representa uma mudança importante na forma como empresas e trabalhadores enxergam saúde mental no ambiente profissional.

“O cérebro humano não foi projetado para permanecer em estado contínuo de alerta, cobrança e hiperestimulação durante longos períodos. Quando isso acontece de maneira crônica, surgem alterações emocionais, cognitivas e físicas que impactam produtividade, memória, concentração, sono e até relações interpessoais”, explica.

Nesse cenário, práticas complementares de bem-estar, como a aromaterapia, vêm despertando interesse tanto do público quanto da ciência como possíveis ferramentas auxiliares no manejo do estresse ocupacional.

Daiana ressalta que os óleos essenciais não substituem acompanhamento médico ou psicológico, especialmente em casos de burnout instalado, ansiedade severa ou depressão. Ainda assim, ela afirma que alguns aromas vêm sendo investigados pela ciência por sua possível influência no sistema nervoso e na percepção de relaxamento.

“O olfato possui conexão direta com áreas cerebrais relacionadas às emoções, memória e resposta ao estresse. Alguns aromas podem atuar como estímulos sensoriais que ajudam o cérebro a reduzir estados de tensão e hiperativação”, afirma.

Uma revisão sistemática publicada em 2021 na revista científica Research, Society and Development analisou estudos sobre o uso da aromaterapia na redução do estresse ocupacional e no cuidado da síndrome de burnout. Os pesquisadores avaliaram trabalhos publicados entre 2007 e 2021, principalmente com profissionais da saúde, e observaram que alguns óleos essenciais — especialmente o óleo essencial de lavanda — foram associados à redução do estresse, melhora do bem-estar e relaxamento emocional.

Os autores destacam que a aromaterapia pode funcionar como ferramenta complementar de cuidado em ambientes de alta sobrecarga emocional, embora reforcem a necessidade de mais estudos clínicos e limitações metodológicas em parte das pesquisas existentes.

Outro aroma frequentemente investigado em estudos relacionados ao estresse é o óleo essencial de bergamota. Em uma pesquisa realizada com 54 professores do Ensino Fundamental, a difusão ambiental do óleo por dez minutos demonstrou reduzir níveis de estresse e ansiedade moderada a grave. Os pesquisadores observaram alterações em parâmetros ligados ao sistema nervoso autônomo, incluindo redução da frequência cardíaca e da pressão arterial.

Já outro estudo semelhante, realizado com 29 professores, comparou o uso do óleo essencial verdadeiro de bergamota com um aroma sintético placebo. Apenas o grupo que utilizou o óleo essencial autêntico apresentou redução significativa do estresse ocupacional, embora os efeitos tenham sido menores em situações de sobrecarga extrema de trabalho.

Na prática clínica da aromaterapia, outros óleos também costumam ser associados a estratégias voltadas ao manejo do esgotamento emocional. Entre eles estão patchouli, vetiver e copaíba, frequentemente utilizados em propostas relacionadas ao alívio do estresse, redução da ansiedade e promoção de sensação de estabilidade emocional.

“Não existe aroma capaz de resolver sozinho um ambiente tóxico ou uma rotina adoecedora. Mas algumas estratégias sensoriais podem funcionar como apoio dentro de um cuidado mais amplo envolvendo sono, pausas reais, redução de hiperestimulação, terapia, atividade física e reorganização emocional”, destaca Daiana. 

Com a nova NR-1 ampliando o debate sobre saúde mental corporativa, especialistas acreditam que o tema deve ganhar ainda mais espaço dentro das empresas, especialmente diante do aumento dos casos de exaustão emocional, afastamentos relacionados à saúde mental e discussões sobre qualidade de vida no trabalho.



Daiana Petry - Aromaterapeuta, perfumista botânica, naturóloga e especialista em neurociência. Professora dos cursos de formação em aromaterapia, perfumaria botânica e psicoaromaterapia. Autora dos livros: Psicoaromaterapia, Cosméticos sólidos e Maquiagem ecoessencial. Fundadora da Harmonie Aromaterapia.
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@daianagpetry


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