Psicóloga
perinatal Rafaela Schiavo, fundadora do Instituto MaterOnline e referência em
saúde mental materna, explica como o período após o parto pode impactar o
bem-estar emocional das mães e quais sinais merecem atenção
Muitas mulheres só entendem o que é o
puerpério quando já estão vivendo essa fase. Depois do nascimento do bebê,
entre noites mal dormidas, mudanças no corpo, inseguranças e uma rotina
completamente diferente, é comum que a mãe perceba que algo mudou, mesmo sem
conseguir identificar exatamente o que está sentindo.
O puerpério é o período de recuperação
e readaptação do organismo após a gestação e o parto. Nessa fase, o corpo passa
por alterações hormonais, recuperação física e início da produção de leite. Mas
as transformações não são apenas biológicas.
Muitas mulheres ainda chegam ao
pós-parto sem informação suficiente sobre o impacto emocional desse momento, o
que pode fazer com que sintomas importantes sejam naturalizados ou silenciados.
“O puerpério está muito mais relacionado à adaptação orgânica. Já o pós-parto
está muito mais relacionado à adaptação psicológica”, explica Rafaela Schiavo.
A Organização Mundial da Saúde (OMS)
estima que cerca de 13% das mulheres no pós-parto desenvolvam algum transtorno
mental, principalmente depressão. Em países em desenvolvimento, a prevalência
pode chegar a 19,8%. No Brasil, um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)
apontou que mais de uma em cada quatro mulheres apresentou sintomas de
depressão entre seis e 18 meses após o nascimento do bebê.
Entre a maternidade idealizada e a realidade
Para especialistas, parte do
sofrimento emocional vivido no puerpério está relacionada ao choque entre a
maternidade imaginada durante a gravidez e a experiência real após o
nascimento.
Durante a gestação, muitas mulheres
criam expectativas sobre a amamentação, o comportamento do bebê, a divisão dos
cuidados com o parceiro e até sobre a própria capacidade de maternar. Na
prática, a experiência pode ser muito diferente.
“O puerpério romantizado é vendido
para muitas pessoas. Mas o puerpério real é diferente. A mulher vai ter que
lidar com o bebê real, não com o bebê idealizado; com a maternidade real, não
com a maternidade idealizada; com a amamentação real, não com a amamentação
idealizada”, afirma Rafaela.
O bebê pode chorar mais do que o
esperado, a amamentação pode ser dolorosa ou não acontecer como planejado, e a
privação de sono pode transformar tarefas básicas em desafios diários. Quando
isso se soma à queda hormonal e à falta de apoio, o desgaste emocional tende a
aumentar.
Outro ponto destacado pela psicóloga é
a sensação de invisibilidade que muitas mães relatam após o nascimento do bebê.
“As pessoas vão visitar o bebê, não a mãe. Durante a gestação, ela recebe
atenção e cuidado. Depois que o bebê nasce, muitas vezes ninguém pergunta como
ela está”, diz.
Segundo ela, quando o cuidado se
concentra exclusivamente no recém-nascido, a mulher pode ter mais dificuldade
para reconhecer e expressar o próprio sofrimento. Visitas longas, palpites
constantes e cobranças relacionadas à amamentação e à rotina também podem
ampliar a sobrecarga emocional.
Quais sinais merecem atenção?
Oscilações emocionais nos primeiros
dias após o parto são consideradas comuns. Muitas mulheres ficam mais
sensíveis, choram com facilidade, apresentam irritação ou alternam momentos de
alegria e tristeza. Esse quadro é conhecido como baby blues ou tristeza
pós-parto.
O baby blues costuma ser
transitório e aparece nos primeiros dias após o nascimento do bebê, com
sintomas como choro frequente, ansiedade, irritabilidade e mudanças de humor. A
diferença para a depressão pós-parto está principalmente na duração e
intensidade dos sintomas.
Quando a tristeza persiste ou se
intensifica, é importante buscar avaliação profissional.
Entre os sintomas da depressão
pós-parto listados pelo Ministério da Saúde estão tristeza intensa, sensação
constante de desespero, perda de interesse pelas atividades do dia a dia,
alterações no sono e no apetite, culpa excessiva, ansiedade, dificuldade de
concentração e pensamentos de morte ou de fazer mal a si mesma ou ao bebê.
Segundo Rafaela, também merecem
atenção sinais como irritabilidade intensa, isolamento, sensação persistente de
incapacidade, alterações importantes de apetite, pesadelos e pensamentos
repetitivos. Mulheres que já tinham histórico de depressão, ansiedade ou outros
transtornos mentais antes da gestação precisam de acompanhamento mais próximo.
A orientação é não interromper medicações por conta própria ao descobrir a
gravidez e procurar avaliação médica especializada. Casos com alucinações, pensamentos
desconexos, perda de contato com a realidade ou risco para a mãe e para o bebê
exigem atendimento imediato.
Quando procurar ajuda
Especialistas recomendam procurar
ajuda quando tristeza, ansiedade, irritação ou sensação de incapacidade começam
a causar sofrimento intenso ou interferem na rotina. No Sistema Único de Saúde
(SUS), a mulher pode relatar os sintomas durante consultas de pré-natal ou
pós-parto, tanto ao obstetra quanto à equipe da unidade de saúde ou outros
profissionais que acompanhem a família. A partir disso, pode ser encaminhada
para atendimento em saúde mental.
O papel da
rede de apoio
Familiares e amigos também têm papel
importante durante o puerpério. Segundo especialistas, a ajuda deve reduzir a
sobrecarga da mãe, e não a aumentar. A orientação é evitar visitas longas,
diminuir cobranças, observar mudanças de comportamento e perguntar diretamente
como a mulher está se sentindo.
Também é importante evitar frases que
minimizem o sofrimento, como dizer que a mãe “deveria estar feliz” ou que tudo
é “normal porque ela acabou de ter um bebê”. Para Rafaela, esse tipo de reação
pode atrasar a busca por ajuda e fazer com que a mulher enfrente o sofrimento
em silêncio. A recomendação é que a rede de apoio observe sinais persistentes
de sofrimento emocional e incentive a procura por atendimento profissional
quando necessário.
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