Existe uma forma de violência emocional silenciosa, sutil
e altamente sofisticada que atravessa as organizações contemporâneas: a violência
do não-dito. Não é o conflito explícito, a crise aberta ou a
discussão acalorada é o desconforto que circula nas entrelinhas, é o tema que
todos percebem, mas ninguém verbaliza.
Como diz Madalena Feliciano:
“Nas empresas, o silêncio nunca é neutro. Ele sempre
comunica às vezes mais do que qualquer discurso de liderança.”
Essa economia do silêncio organiza culturas, molda
comportamentos, define carreiras e, silenciosamente, determina quem prospera e
quem se cala.
Quando todos sabem, mas ninguém diz
Quem já participou de uma reunião onde todos percebem que
a decisão é equivocada, que o caminho é arriscado e que há problemas
estruturais ignorados, mas mesmo assim ninguém ousa nomear o óbvio?
Isso não é timidez, falta de habilidade ou “problema de
comunicação”. É sintoma de algo muito maior:
Uma cultura onde falar a verdade é mais arriscado do que
conviver com o erro.
Madalena observa em seus atendimentos e consultorias que:
“O colaborador não se cala por falta de coragem. Ele se
cala porque já aprendeu, por experiência, que falar custa caro.”
Esse custo pode ser rejeição, perda
de espaço, punições veladas, isolamento ou a simples invalidação da própria
percepção.
O silêncio como arquitetura de poder
Organizações não precisam escrever regras proibindo temas.
O silenciamento acontece por micro sinais, expressões sutis,
tons de voz, olhares desviados, mudanças de assunto e respostas impacientes que
ensinam:
“Aqui, isso não deve ser dito.”
E Madalena reforça:
“Toda empresa ensina seus colaboradores a falar ou a calar
mesmo sem dizer uma palavra.”
Esses ambientes criam uma pedagogia invisível que organiza
quem pode opinar, quem será ouvido e quem jamais terá sua fala legitimada,
mesmo quando tem razão.
Quando o silêncio vira cultura e vira hábito
Com o tempo, o silêncio deixa de ser uma escolha
consciente. Ele se transforma em atmosfera. À medida que as pessoas se calam
repetidamente, começam a acreditar que essa é a única forma de conviver naquele
ambiente.
E é aí que Madalena identifica um ponto crucial:
“O silêncio repetido vira normalidade. As pessoas deixam
de perceber que existem outras formas de trabalhar, liderar e existir no
ambiente profissional.”
O resultado?
Equipes que se isolam emocionalmente, líderes que se
cercam de discursos agradáveis e organizações que perdem a chance de evoluir
porque ninguém ousa mostrar o que está errado.
Silêncio também é comportamento e comportamento é leitura
No modelo DISC, que Madalena aplica com frequência no
desenvolvimento de equipes, o silêncio também serve como indicador:
- Perfis influentes (I) se calam quando percebem punição emocional.
- Perfis dominantes (D) se calam quando percebem ameaça à própria
autonomia.
- Perfis estáveis (S) se calam para evitar conflito.
- Perfis conformes (C) se calam quando não encontram espaço racional
e estruturado para suas análises.
Ou seja, todo silêncio tem uma intenção emocional,
comportamental e estratégica por trás.
O silêncio como sofrimento e como solidão relacional
Há ainda uma dimensão que Madalena destaca como
extremamente preocupante:
“As pessoas não estão apenas se calando. Elas estão
ficando sozinhas dentro das organizações.”
Dois profissionais podem trabalhar juntos por anos e,
mesmo assim, viver uma espécie de isolamento invisível onde nada profundo é
compartilhado e onde a convivência se resume a tarefas.
Esse tipo de solidão não é individual; é coletiva,
produzida por ambientes onde o não-dito domina.
Liderança que pede sinceridade, mas pune a verdade
Muitos líderes dizem:
“Falem abertamente, quero ouvir todos.”
Mas, na prática, suas reações mostram o contrário.
Madalena é categórica:
“Quando a fala é incentivada no discurso e punida na
prática, cria-se a pior forma de violência emocional: a violência da
contradição.”
Isso desmoraliza equipes, destrói confiança e transforma
qualquer tentativa de comunicação em um teatro previsível.
A verdadeira transformação não acontece com treinamento
acontece com mudança de estrutura
É comum ver empresas tentando resolver o problema do
silêncio com:
- treinamentos
de comunicação
- workshops
de assertividade
Mas, segundo Madalena:
“Você não muda o silêncio pedindo que as pessoas falem.
Você muda o silêncio mudando o que acontece quando elas falam.”
E isso envolve:
- líderes
preparados para ouvir críticas
- decisões
baseadas em transparência
- respostas
coerentes ao que é verbalizado
·
ambientes psicologicamente seguros
O silêncio que protege e o silêncio que adoece
Nem todo silêncio é ruim. Há silêncios que são sabedoria:
o silêncio que respeita, que observa, que protege, que amadurece.
Mas há silencios que são adoecimento: o silêncio que causa
medo, que paralisa, que sufoca, que isola.
Madalena explica:
“Organizações maduras não eliminam o silêncio. Elas
diferenciam o silêncio saudável do silêncio nocivo.”
Essa distinção é o que separa ambientes tóxicos de
culturas sustentáveis e humanizadas.
A mudança começa onde ninguém quer olhar
No fim, o que determina se uma cultura é saudável não são
os discursos motivacionais, os murais de valores ou as campanhas internas.
É aquilo que não é dito, mas sentido.
Como afirma Madalena Feliciano:
“Se você quer entender uma empresa, observe o silêncio.
Ele revela mais do que qualquer manual de cultura.”
E ela completa:
“O maior ato de liderança não é falar. É criar um ambiente
onde as pessoas possam falar e, acima de tudo, possam confiar no que acontecerá
depois.”
Conclusão: o silêncio não é ausência é resultado
O silêncio organizacional não é falta de voz.
É produto de medo, poder, cultura e estrutura.
E transformar esse cenário exige coragem emocional,
maturidade relacional e líderes dispostos a serem desafiados.
Madalena resume perfeitamente a essência do tema:
“Onde existe
silêncio demais, existe sofrimento demais. Onde existe escuta verdadeira,
existe evolução.”
Madalena Feliciano - CEO, Consultora de Carreira, Terapeuta, Master Coach, Master em PNL e especialista em Comportamento Humano