Infecção de Covid-19 favorece formação de coágulos sanguíneos, podendo causar complicações graves; médica hematologista e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz responde perguntas sobre o tema
A trombose é uma doença
que ocorre quando ocorre a formação de um coágulo sanguíneo, que bloqueia o
fluxo de sangue, causando dor e inchaço na região afetada. Por se tratar de uma
doença perigosa, que pode causar complicações graves, profissionais de saúde
promovem anualmente, no dia 13 de outubro, o Dia Mundial de Trombose, para
alertar e conscientizar a população. Desde 2020 e da pandemia de Covid-19, a
formação de coágulos sanguíneos tem sido apontada como umas das complicações
mais preocupantes causadas pela infecção. Com o objetivo de esclarecer dúvidas
sobre a ocorrência de trombose em pacientes com Covid-19, ou aqueles que já
tiveram a doença, a Dra. Daniela Palheiro, médica hematologista e pesquisadora
da Fundação Oswaldo Cruz, responde perguntas sobre o tema, incluindo causas,
medidas de prevenção e tratamento.
Como a Covid-19 está associada ao aumento do risco de trombose em
pacientes?
O aumento
do risco de trombose se dá por diversas causas, como inflamação sistêmica. A
Covid-19 pode desencadear uma resposta inflamatória excessiva no corpo, conhecida
como "tempestade de citocinas", afetando a função do sistema de
coagulação e favorecendo a formação de coágulos. Os coágulos sanguíneos, também
chamados de trombos, prejudicam a circulação, podendo levar a complicações
graves, como ataques cardíacos, derrames e embolia pulmonar. Outro fator
importante é a lesão endotelial causada pelo vírus nas células que revestem os
vasos sanguíneos, o que também favorece a formação de coágulos.
Quais grupos de pacientes com Covid-19 têm um risco particularmente elevado
de trombose?
Pacientes
hospitalizados em estado grave apresentam risco mais elevado de desenvolver
trombose, devido a vários fatores, incluindo inflamação, imobilização
prolongada, intervenções médicas invasivas e maior exposição a fatores de risco.
Além disso, pacientes com doenças cardiovasculares pré-existentes, como doença
cardíaca coronária, hipertensão arterial e insuficiência cardíaca, e pacientes
com comorbidades, como diabetes, obesidade e neoplasias, idosos e mulheres
grávidas também estão entre os grupos de risco.
Quais são os sintomas de trombose que os pacientes com Covid-19 ou que
já tiveram a doença devem ficar atentos?
Os sintomas
de trombose variam dependendo do local onde o coágulo sanguíneo se forma. É
importante observar que os sintomas de trombose em pacientes com Covid-19 ou em
pessoas que já tiveram a doença são semelhantes aos sintomas de trombose em
outras situações. Quadros de trombose venosa profunda (TVP) nas veias das
pernas ou braços podem levar a inchaço, dor ou sensibilidade, vermelhidão, ou
sensação de calor na área afetada. No caso da embolia pulmonar (EP), que ocorre
quando um coágulo é transportado até os pulmões por meio da circulação, os
sintomas podem ser súbitos e graves, como falta de ar intensa, dor no peito,
tosse com sangue e batimento cardíaco acelerado.
Quais são as medidas de prevenção adotadas em pacientes com Covid-19
para evitar o risco de trombose?
Durante a
pandemia, muitos hospitais adotaram protocolos de anticoagulação profilática
para pacientes hospitalizados com Covid-19, especialmente aqueles em estado
grave, incluindo a administração de doses baixas de anticoagulantes, como
heparina de baixo peso molecular, para reduzir o risco de formação de coágulos.
Em casos de pacientes que não podiam receber heparina, dispositivos de
compressão pneumática intermitente eram usados para ajudar a prevenir a
formação de coágulos em pacientes com Covid-19 que estavam imobilizados ou
tinham risco elevado de trombose. Além disso, os profissionais de saúde avaliam
o risco de trombose em paciente com Covid-19, com base em fatores como idade,
histórico médico, gravidade da doença e presença de outras comorbidades.
Pacientes de alto risco para trombose podem precisar de profilaxia após a alta
hospitalar.
Como é feito o tratamento de pacientes com Covid-19 que desenvolvem
trombose?
O
tratamento padrão para a trombose envolve o uso de anticoagulantes, como
heparina de baixo peso molecular, ou anticoagulantes orais diretos por 3 a 6
meses. Durante a COVID-19 uso de antagonistas de vitamina K é dificultado por
interações com outros medicamentos, que podem interferir na eficácia e
segurança, por isso em geral não são a primeira escolha. Os anticoagulantes
ajudam a prevenir a formação de coágulos adicionais e reduzem o risco de
complicações pós-trombóticas. Além do tratamento específico da trombose, os
pacientes podem precisar de oxigênio suplementar, tratamento direcionado para
complicações respiratórias ou cardiovasculares associadas à doença.
Os pacientes que se recuperaram da Covid-19 ainda apresentam risco
elevado de trombose após a infecção aguda?
Pacientes
com Covid-19 com complicações tromboembólicas têm maior risco de morte e podem
ter a qualidade de vida afetada negativamente mesmo após a recuperação. Além disso,
dados recentes relatam que o risco de tromboembolismo permanece alto até seis
meses após a infecção por Covid-19. Pesquisas estão em andamento para estudar o
risco de trombose a longo prazo em pacientes que tiveram Covid-19.
Quais são as recomendações para o acompanhamento a longo prazo de
pacientes com histórico de trombose relacionada à Covid-19?
Os
pacientes que sofreram trombose relacionada à Covid-19 devem continuar a fazer
visitas médicas regulares para monitorar sua saúde cardiovascular. Durante as
consultas, o médico pode fornecer orientações sobre tratamento e prevenção de
tromboses e suas consequências. Uma medida importante para evitar a síndrome
pós-trombótica em pacientes com histórico de TVP é o uso de meias elásticas de
média compressão. Esta é uma medida simples que diminui sintomas como dor
crônica, edema, alterações na colocação da pele, veias varicosas e úlceras no
membro. Exames de sangue e imagem periódicos também podem ser realizados para
monitorar a saúde dos pacientes. A adoção de um estilo de vida saudável,
incluindo dieta equilibrada, atividade física regular, abstenção do tabaco e do
álcool em excesso, podem ajudar a reduzir o risco de trombose e melhorar a
saúde cardiovascular.
Há alguma relação entre a vacina de Covid-19 e casos de trombose?
As vacinas
para Covid-19 Astrazeneca e Janssen que usam adenovírus foram relacionadas a um
fenômeno muito raro de trombose com trombocitopenia após a primeira dose,
também conhecido como VITT, de causa completamente diferente das tromboses
usuais. A doença se desenvolve a partir da produção de anticorpos que podem
levar a trombose em lugares incomuns, como vasos cerebrais e abdominais até 30
dias depois da vacinação. No entanto, no início da campanha de vacinação em
2021, estudos mostraram que o risco de desenvolver trombose após tomar a vacina
era muito menor que após contrair Covid-19. As vacinas desempenharam papel
crucial na redução da mortalidade e dos casos graves de Covid-19 no Brasil e no
mundo. Em relação ao risco de desenvolver trombose após vacinação, os trabalhos
não mostraram risco aumentado, mesmo após vacinas de RNA bivalentes para
Covid-19, usadas atualmente. Vale ressaltar que pacientes que já tiveram
trombose por outros motivos não tem risco aumentado para desenvolverem VITT, e,
portanto, não apresentam contraindicação para vacinação.
Sobre o Dia Mundial da Trombose – No dia 13 de outubro é lembrado o Dia Mundial
da Trombose, que tem como objetivo aumentar a consciência sobre a trombose
entre profissionais da saúde, pacientes e entidades do governo e do terceiro
setor. No entanto, devemos estar em alerta para essa afecção todos os dias. Em
âmbito global, a campanha desta efeméride é liderada pela Sociedade
Internacional de Trombose e Hemostasia (ISTH, na sigla em inglês) e, no Brasil,
por entidades médicas, entre as quais se destaca a Sociedade Brasileira de
Trombose e Hemostasia (SBTH). Para saber mais, acesse o site do Dia
Mundial da Trombose e também o site da SBTH.


