O cirurgião ginecológico Dr. Igor Chiminacio explica por que as baixas temperaturas aumentam a sensibilidade dolorosa em mulheres com endometriose e alerta que dor incapacitante nunca deve ser considerada normal
Com a chegada do inverno e a queda das
temperaturas, é comum que pessoas com doenças crônicas relatem uma piora nos
sintomas. Entre as mulheres que convivem com a endometriose, a percepção de
mais dor durante os dias frios costuma gerar uma dúvida recorrente: afinal, o
frio faz a doença avançar? A resposta é não. O frio não acelera a
progressão da endometriose nem provoca novas lesões. O que acontece é um
aumento da sensibilidade do organismo à dor, tornando os sintomas mais intensos
para quem já convive com a doença.
Segundo o cirurgião ginecológico Dr. Igor
Chiminacio, habilitado em Endoscopia Ginecológica pela Associação Médica
Brasileira (AMB) e pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), essa diferença é
importante para evitar interpretações equivocadas sobre a evolução da doença.
"O frio não faz a endometriose crescer nem
cria novas lesões. O que acontece é um aumento da sensibilidade à dor. O
organismo fica mais suscetível aos estímulos dolorosos, e isso faz com que
muitas pacientes sintam os sintomas de forma mais intensa durante o
inverno", explica Dr. Igor Chiminacio.
A endometriose é uma condição inflamatória crônica
caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio fora da cavidade
uterina. Esse processo pode provocar dor pélvica intensa, alterações
intestinais e urinárias, infertilidade e comprometimento da qualidade de vida.
Mas a intensidade da dor nem sempre está diretamente relacionada ao tamanho ou
à extensão das lesões.
Segundo Dr. Igor, fatores que aumentam a sensibilidade
do sistema nervoso, como frio, estresse, ansiedade e depressão, podem
amplificar significativamente a percepção dolorosa. "Quem apresenta
ansiedade ou depressão costuma desenvolver um limiar de dor menor. A doença
permanece a mesma, mas o cérebro interpreta os estímulos dolorosos de forma
mais intensa. O frio funciona de maneira semelhante: ele não modifica a
endometriose, mas aumenta a sensibilidade do organismo à dor."
Esse fenômeno ajuda a explicar por que muitas
pacientes relatam piora dos sintomas durante o inverno, mesmo sem qualquer
progressão da doença.
O que acontece no organismo
feminino durante o frio?
As baixas temperaturas favorecem a contração
muscular, reduzem a circulação periférica e aumentam a tensão corporal. Em
pessoas que já convivem com dores crônicas, esse conjunto de fatores pode
potencializar desconfortos existentes. No caso da endometriose, em que já
há um processo inflamatório e frequentemente fibrose e aderências em diferentes
regiões da pelve, qualquer aumento da sensibilidade dolorosa pode ser percebido
de forma significativa.
Por isso, embora o frio não interfira na evolução
da doença, ele pode tornar o período mais desafiador para quem convive com a
condição. Alguns cuidados cotidianos podem contribuir para reduzir o desconforto
durante os meses mais frios. Entre eles estão:
- manter
o corpo aquecido, especialmente as extremidades;
- evitar
exposição prolongada ao frio;
- aquecer
os ambientes sempre que possível;
- realizar
alongamentos ou exercícios leves antes de sair de casa;
- manter
uma rotina regular de atividade física de acordo com a indicação do seu
médico;
- utilizar
bolsas de água quente ou bolsas térmicas sobre a região dolorosa, quando
orientado pelo médico.
"A atividade física regular ajuda muito no
controle da dor crônica. Mesmo um treino funcional leve ou alguns minutos de
alongamento logo pela manhã já podem fazer diferença para muitas
pacientes", afirma Dr. Igor.
Dor intensa não deve ser
normalizada
Embora a cólica menstrual ainda seja frequentemente
tratada como um desconforto esperado, especialistas alertam que dores
incapacitantes não fazem parte de um ciclo menstrual saudável. Quando a dor
impede atividades diárias, compromete o trabalho, os estudos, a vida social ou
exige uso frequente de medicamentos, é fundamental procurar avaliação médica.
"O principal alerta é que a dor incapacitante
nunca deve ser considerada normal. Quanto mais cedo a paciente recebe um
diagnóstico adequado, maiores são as possibilidades de controlar os sintomas e
preservar sua qualidade de vida”, resume Dr. Igor.
Nas últimas décadas, a compreensão científica da
endometriose evoluiu significativamente. Atualmente, estudos mostram que a
doença vai muito além da antiga teoria da menstruação retrógrada e possui
características complexas relacionadas ao desenvolvimento embrionário e à
resposta inflamatória do organismo.
Dr. Igor Chiminacio, com 18 anos de experiência em
cirurgia ginecológica e membro da AAGL desde 2018, desenvolveu uma abordagem
cirúrgica baseada na remoção da doença em bloco, respeitando os territórios
anatômicos onde a endometriose costuma se desenvolver: "O objetivo é
compreender toda a extensão da doença e não apenas remover lesões isoladas.
Esse entendimento permite um tratamento mais completo, preservando órgãos e funções
sempre que possível."
Apesar dos avanços científicos, o maior desafio
continua sendo o diagnóstico precoce. Reconhecer que dores intensas não são
normais e buscar avaliação especializada ainda representa um dos passos mais
importantes para reduzir o impacto da doença na vida das mulheres. É
importante procurar avaliação médica quando houver cólicas incapacitantes, dor
durante as relações sexuais, dor especialmente no período menstrual, dor
pélvica contínua ou dificuldade para engravidar. O diagnóstico é fundamental
para controlar a progressão da doença, aliviar os sintomas e preservar a
qualidade de vida e a fertilidade da mulher.
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