Opinião
Em ano eleitoral, o Brasil volta a discutir
crescimento, emprego e produtividade. Fala-se também em reduzir desigualdades
regionais. Mas raramente se pergunta onde o país está construindo sua economia
do futuro.
Quando o tema é inovação, o debate público se
concentra nos mesmos endereços: Faria Lima, Paulista, grandes polos do Sudeste
e do Sul. Como se a tecnologia brasileira tivesse território limitado.
O país conta hoje com 113 parques tecnológicos
distribuídos nas cinco regiões. Reúnem cerca de 2,7 mil empresas, com
faturamento anual superior a R$ 15 bilhões e aproximadamente 75 mil empregos
diretos, segundo a Anprotec e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
São três décadas de políticas públicas e cerca de R$ 7 bilhões investidos.
Trata-se de infraestrutura econômica instalada.
Apesar disso, a maior parte dos investimentos
permanece nas regiões metropolitanas. Dados do IBGE mostram que o PIB
industrial e os serviços intensivos em tecnologia seguem concentrados. A
Pesquisa de Inovação (Pintec) confirma que empresas inovadoras se localizam
onde já há maior densidade econômica. O discurso menciona descentralização. A
prática reforça a concentração.
O Ipea, há anos, aponta as desigualdades regionais
como um entrave estrutural ao desenvolvimento. Produtividade e renda seguem
distribuídas de forma desigual. Estudos indicam que ambientes locais de
inovação, quando conectados a universidades e cadeias produtivas regionais,
geram efeitos sobre emprego e renda. Desenvolvimento territorial é política
econômica.
O interior não é periferia tecnológica. Em muitos
casos, a inovação nasce próxima de problemas concretos: logística,
agroindústria, energia, saneamento, saúde, eficiência industrial. São demandas
que exigem soluções aplicadas e integração com as cadeias produtivas.
Entre 2017 e 2023, pedidos de patentes vinculados a
empresas instaladas em parques tecnológicos cresceram mais de 100%. O dado não
altera a estrutura concentrada da economia, mas indica um movimento de
interiorização da inovação.
Em municípios médios, esses ecossistemas ampliam
massa salarial, arrecadação e diversificação produtiva. Também contribuem para
reter talentos. Jovens qualificados encontram oportunidades fora dos grandes
centros, reduzindo a pressão migratória e ampliando a coesão territorial.
A OCDE destaca que sistemas de inovação
distribuídos regionalmente aumentam a resiliência econômica. Alemanha, Coreia
do Sul e Estados Unidos consolidaram polos tecnológicos fora das principais
metrópoles. O objetivo não é opor capital e interior, mas estruturar um sistema
nacional capaz de difundir capacidades produtivas.
O debate eleitoral inclui reindustrialização,
economia verde, inteligência artificial e bioeconomia. Raramente especifica
onde essas agendas serão implementadas. Sem territorialização, propostas
permanecem genéricas. Ignorar a hinterlândia de inovação mantém o modelo concentrador
que o país afirma querer superar.
Porque, no fim das contas, a verdadeira escolha
política não é entre inovação e atraso. É entre concentração e desenvolvimento.
E o país que insiste em inovar apenas onde sempre inovou continuará crescendo
como sempre cresceu: de forma desigual.
Paulo R. C. Rocha - gestor, pesquisador em políticas
educacionais e vice-presidente do Biopark.
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