
Mercado de saneamento precisa investir em tecnologia e dados
Imagem de kubinger/Pixabay
Com a meta de que, até 2033, 99% da população
brasileira tenha acesso à água potável e 90% ao tratamento e à coleta de esgoto,
o Marco Legal do Saneamento, em vigor desde julho de 2020, completou três anos.
De aumento do investimento à inclusão da iniciativa privada, o mercado evoluiu
consideravelmente de lá para cá.
Até 2022, o Marco Legal havia gerado cerca de R$
72,2 bilhões em investimentos para o setor, segundo dados do Ministério do
Desenvolvimento Regional (MDR). A nova regulamentação garantiu recursos com a
realização de concessão de serviços sob as regras da nova legislação. Ao todo,
19,3 milhões de pessoas foram beneficiadas em 212 municípios com as licitações,
que ocorreram, principalmente, nos estados de Alagoas, Espírito Santo, Mato
Grosso do Sul, Amapá e Rio de Janeiro.
A medida impôs algumas mudanças ligadas à nova
meta. A obrigatoriedade de licitações e a permissão da iniciativa privada de
competir nesses processos, além da exigência de que as empresas comprovem a
capacidade financeira para viabilizar a meta estipulada, foram algumas delas.
Essas alterações possibilitaram um cenário
favorável para promoção de renovações do setor, viabilizando um ambiente de
maior concorrência entre as companhias.
Nesse cenário mais competitivo, o solo ficou fértil
para o surgimento de novas iniciativas, tanto de empresas públicas, quanto
privadas. O marco reacendeu holofotes voltados a demandas represadas, além de
chamar atenção para pendências relacionadas à gestão de recursos hídricos,
tratamento de água, reserva e a distribuição de água, assim como a coleta e
tratamento de esgoto, que precisam ser resolvidas para o cumprimento da meta.
O uso de tecnologia no setor, por sua vez, foi
impulsionado, visto que o marco acelerou iniciativas ligadas à inovação, gestão
de clientes e automação dos processos. Contudo, a velocidade de desenvolvimento
é uma questão que ainda demanda mais atenção.
Apesar da meta estipulada, conforme o Sistema
Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), quase três anos após a
aprovação do novo Marco Legal, mais de 35 milhões de brasileiros ainda vivem
sem água tratada e mais de 100 milhões não têm coleta e tratamento de esgoto.
Nesse sentido, qual seria o próximo passo para acelerar os resultados e
alcançar o objetivo dentro do tempo estipulado?
Inteligência de dados é a maior aliada do setor
A princípio, compreender o cenário e como se
comporta cada projeto para dar direcionamento aos investimentos de maneira
inteligente é a medida mais urgente, pois indicará quais iniciativas demandam
maior atenção e precisam de uma resolução rápida de problemas. E um dos
principais aliados nessa trajetória é o uso da inteligência de dados.
O investimento em uma tecnologia capaz de registrar
de maneira precisa informações relacionadas ao consumo, tempo de uso de certos
equipamentos e monitoramento de consumo em tempo real de inúmeras variáveis,
auxiliam na compreensão do ambiente e garantem tomadas de decisões mais
assertivas.
Plataformas de dados que permitam o desenvolvimento
de soluções, a otimização dos processos, a criação de novos modelos de negócio
e novas experiências dos clientes são exemplos de ferramentas imprescindíveis
nesse contexto de inovação e busca pela universalização do saneamento básico no
país.
A partir dos dados captados por sensores de IoT,
por exemplo, é possível termos uma gestão efetiva dos dados operacionais e
trabalharmos com preditividade para o combate de perdas na distribuição de
água, automatizar o processo de medição por meio de medidores inteligentes ou
mesmo monitorarmos a disponibilidade de água, acelerando processos internos que
garantem uma geração de dados precisos, trazendo a possibilidade da implantação
de soluções SmartGrid no setor.
Fora isso, o investimento em tecnologia não deve
estar ligado apenas a aparelhos físicos, mas também a softwares que auxiliarão
na gestão de informações. Nesse sentido, potencializar as plataformas de dados
via ferramentas, funcionalidades, técnicas e processos que garantam uma maior
governança na gestão do ciclo de vida dos dados é extremamente importante.
Pensando na integração, consumo e exposição desses
dados com segurança e agilidade, a adoção de plataforma de gestão de APIs
também se apresenta como fundamental, seja para consumir informações externas
para determinada análise, ou mesmo expor informações e serviços ao “mundo
externo”. Envolver parceiros de negócio para oferecer serviços não regulados,
por exemplo, visando novas receitas, ou explorar - por meio de aplicativos e
sites - informações e insights gerados, só é possível graças à aplicabilidade
do ecossistema de APIs.
A inovação, portanto, depende do trabalho junto a
vários parceiros, universidades, instituições de pesquisas, entre outros, e é
fundamental adotar uma mentalidade API First para facilitar a interação entre
esses atores, assim como agilizar a jornada que vai desde a conceitualização dos
problemas e ideias até a implantação e disseminação da tecnologia inovadora.
Entretanto, o investimento em tecnologia da
informação ainda é considerado relativamente baixo no setor do saneamento
nacional, que muitas vezes precisa priorizar problemas mais primários, como a
própria infraestrutura, e lidar com as barreiras do limite financeiro.
Diante desse cenário, o mercado de saneamento é uma
fatia que ainda se utiliza pouco da tecnologia disponível na atualidade, tendo
ainda poucas empresas com capacidade de possuir e implementar as inovações que
estão ao nosso alcance. Nesse sentido, ainda surge o desafio de captar dados de
sistemas básicos, devido a plataformas ultrapassadas que, atualmente, estão em
operação.
Apesar da democratização da tecnologia no setor
ainda ter muito a evoluir, o momento atual é ideal para direcionar os olhares
e, principalmente, investimentos em inovação e soluções que serão o piloto
central na geração de valor. Embora o mercado já tenha evoluído
significativamente, devemos ter a tecnologia como um grande habilitador para
que essa trajetória rumo à universalização do saneamento básico no país seja
possível.
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