Especialista do Oncoapp ressalta que os
estudos são resultados de avaliações retrospectivas, porém o cenário é
promissor
Os
análogos de GLP-1, classe de medicamentos utilizada nas chamadas "canetas
emagrecedoras" para o tratamento da obesidade e do diabetes, começam a
despertar o interesse da comunidade científica também na oncologia. Durante a
ASCO 2026 (Encontro Anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica),
realizado entre os dias 29 de maio e 2 de junho, em Chicago (EUA),
pesquisadores apresentaram estudos que sugerem uma associação entre o uso
desses medicamentos e uma melhor resposta de pacientes oncológicos à
imunoterapia, além da redução dos efeitos adversos relacionados ao tratamento.
Para a oncologista Isadora Spricido, do OncoApp, aplicativo voltado ao acompanhamento de pacientes com câncer, o interesse pelo tema está diretamente relacionado ao fato de que a obesidade é reconhecida como um dos principais fatores de risco para diversos tipos de tumores, entre eles os de mama, endométrio e intestino. "Além disso, o diabetes também é uma condição frequente entre pacientes oncológicos, seja como doença preexistente ou como consequência de determinados tratamentos. Os dados apresentados na ASCO indicam, de forma preliminar, que os análogos de GLP-1 podem exercer um impacto positivo nesse contexto", explica.
Embora os resultados sejam considerados promissores,
a especialista ressalta que as evidências disponíveis ainda são provenientes de
estudos retrospectivos, que identificam associações, mas não estabelecem uma
relação de causa e efeito. "Ainda são necessários estudos clínicos para
determinar quais pacientes realmente podem se beneficiar dessa estratégia e
compreender se os análogos de GLP-1 poderão atuar como um adjuvante
imunometabólico, potencializando a resposta do sistema imunológico durante o
tratamento contra o câncer", afirma.
Segundo
os estudos apresentados na ASCO 2026, a hipótese é reforçada pelo conhecimento
de que a obesidade interfere diretamente no funcionamento do sistema
imunológico. Dessa forma, o controle metabólico proporcionado pelos análogos de
GLP-1 pode representar, no futuro, uma ferramenta complementar para melhorar a
resposta terapêutica em pacientes selecionados. No entanto, a utilização desses
medicamentos com essa finalidade ainda depende de novas pesquisas que confirmem
sua eficácia e segurança.
"Apesar
dos resultados promissores, o uso dos análogos de GLP-1 em pacientes com câncer
deve ser sempre individualizado e acompanhado por uma equipe multidisciplinar,
para que o tratamento ofereça benefícios sem comprometer a terapia
oncológica", destaca a médica. Segundo ela, quando utilizados antes do diagnóstico,
esses medicamentos contribuem para o controle da obesidade e do diabetes,
fatores reconhecidamente associados ao aumento do risco de diversos tipos de
câncer. Já durante o tratamento oncológico, as pesquisas ainda buscam
identificar quais pacientes realmente podem se beneficiar. "Os estudos
preliminares apontam uma possível redução da recorrência da doença, da
mortalidade e uma melhora na resposta ao tratamento. Agora, precisamos entender
em quais perfis de pacientes e em quais cenários clínicos esses benefícios
realmente se confirmam", conclui.
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