Quem vai para qual partido, quais são os
pré-candidatos aos cargos em disputa, que alianças precisarão ser feitas para
viabilizar as chapas nos estados e no Governo Federal. 2026 é um ano marcado
por essas dúvidas e bastidores muito voltados às eleições - e nem tem como ser
diferente. Mas esse contexto traz um desafio muito conhecido em Brasília: o
tempo efetivo para o avanço de pautas estruturantes fica mais curto, disputado
à unha com o noticiário eleitoral. Acontece que, quando o assunto é saúde e
educação, essa lógica não poderia ser aplicada.
Nos últimos meses, estivemos no Congresso
Nacional, ao lado de entidades representativas do setor filantrópico,
em agendas de diálogo com parlamentares e suas equipes. O objetivo
era dar visibilidade aos impactos da reforma tributária sobre instituições
beneficentes sem fins lucrativos que desempenham papel essencial no atendimento
à população. Em linhas gerais, a regulamentação da reforma precisa garantir a
compensação de créditos tributários às instituições filantrópicas. É uma
questão técnica, mas, sobretudo, uma condição essencial para a sustentabilidade
de organizações que atuam diariamente na oferta de serviços de saúde, educação
e assistência social. E precisamos lembrar que a reforma já está em vigor, com
implementação gradual até 2033, o que torna esse debate ainda mais urgente.
E, embora o retorno que recebemos tenha sido, em
grande parte, de reconhecimento à relevância do tema, surge uma preocupação
legítima com o calendário de um ano atípico, que limita o ritmo de tramitação
das matérias. Por isso, o assunto exige prioridade agora.
Cabe destacar que, mesmo em um ano mais desafiador,
a atuação de algumas lideranças no Congresso mostra que há caminhos possíveis.
Mas todos eles alertam para a prioridade política do ano: as eleições.
Na prática, o que está em jogo é simples.
Instituições filantrópicas, embora isentos de impostos na prestação de
serviços, acumulam créditos ao longo da cadeia produtiva. Afinal, itens como os
medicamentos e insumos médicos, equipamentos, energia elétrica e serviços de
limpeza e manutenção já têm impostos embutidos. Sem mecanismos de compensação,
o dinheiro que não é gasto em impostos diretos deixa de retornar para onde
fazem toda a diferença: o atendimento em saúde, a oferta de educação e outras frentes
de impacto social.
Segundo levantamento do Fórum Nacional das
Instituições Filantrópicas (Fonif), o país conta com mais de 10,2 mil
instituições filantrópicas mantenedoras e mais de 27 mil estabelecimentos
ativos nas áreas de saúde, educação e assistência social, presentes em 3.234
municípios e alcançando aproximadamente 89% da população brasileira. É um setor
grande e relevante demais para esperar uma regulamentação tardia. O interesse
público precisa orientar as decisões, mesmo em anos de agenda mais apertada. A
previsibilidade para o terceiro setor não pode depender do calendário, sob o
risco de afetar diretamente milhões de brasileiros que dependem desses
serviços.
Quando se trabalha com filantropia, não existe
pausa ou espera possível. As demandas seguem acontecendo todos os dias. As
pessoas seguem precisando do trabalho dessas organizações todos os dias. É
fundamental que as regras acompanhem essa realidade e garantam condições para
que essas instituições continuem atuando.
O Brasil deu um importante passo ao aprovar a
reforma tributária. Agora é o momento de assegurar que sua regulamentação
considere todos os atores envolvidos — especialmente quem está na ponta,
atendendo à população, e que não pode esperar pelo próximo ano.
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