Campanhas simultâneas de Amazon, Mercado Livre, Shopee e outros marketplaces ampliam o potencial de vendas, mas especialistas alertam que descontos sem planejamento podem transformar recordes de faturamento em prejuízo
Julho, tradicionalmente considerado um período de menor
movimento para o varejo, deixou de ser um mês de transição e passou a ocupar
posição estratégica no calendário do comércio eletrônico. Impulsionado pelo
Prime Day da Amazon, pelas campanhas 7.7, pelo Descontaço do Mercado Livre e
por ações promocionais de outras grandes plataformas, o período concentra uma
disputa intensa pela atenção do consumidor e também pela sobrevivência da
margem de lucro dos vendedores.
O cenário cria uma falsa impressão de que vender mais
significa, necessariamente, ganhar mais. Na prática, segundo a curitibana
Seconds Tecnologia, maior plataforma brasileira de gestão para sellers de
marketplaces, muitos lojistas encerram essas grandes campanhas com faturamento
recorde, mas lucro reduzido ou até negativo.
Responsável por gerenciar operações que movimentam mais de R$ 12 bilhões por ano e reúnem
cerca de 7 mil sellers ativos, a Seconds acompanha diariamente
o comportamento de milhares de operações em marketplaces e observa um padrão
recorrente: a corrida por descontos costuma levar muitos vendedores a decisões
tomadas mais pela pressão da concorrência do que por análise de dados.
"O maior erro é acreditar que basta
reduzir o preço para vender mais. Desconto sem estratégia pode aumentar o
volume de pedidos e, ao mesmo tempo, comprometer completamente a rentabilidade
da operação. O faturamento cresce, mas a margem desaparece",
afirma Thiago Trincas,
CEO da Seconds.
Neste ano, a concorrência ganhou ainda mais intensidade.
Enquanto a Amazon realiza mais uma
edição do Prime Day, o Mercado Livre reforçou sua estratégia com o Descontaço,
campanha que disputa diretamente o consumidor com Amazon, Shopee e outros
grandes players. O resultado é uma das primeiras quinzenas de julho mais
competitivas já registradas pelo e-commerce brasileiro.
Segundo Trincas, participar dessas campanhas deixou de
ser apenas uma decisão comercial e passou a exigir inteligência operacional.
"Hoje, competir apenas por preço é uma
estratégia extremamente perigosa. Quem entra em uma guerra de descontos sem
conhecer seus custos, sem acompanhar o comportamento dos concorrentes e sem
entender sua margem corre um risco enorme de vender muito e lucrar pouco."
Entre os erros mais frequentes observados pela plataforma
estão descontos calculados apenas
sobre o preço do concorrente, sem considerar custos logísticos, comissões dos
marketplaces, investimentos em mídia patrocinada, frete subsidiado e impostos.
Soma-se a isso a falta de planejamento de estoque, que pode levar tanto à
ruptura de produtos quanto ao excesso de mercadorias após o fim da campanha.
Outro equívoco recorrente é acreditar que todas as
categorias respondem da mesma forma às grandes liquidações. Embora eletrônicos,
pequenos eletrodomésticos, casa, beleza e itens de consumo recorrente costumem
concentrar maior procura durante eventos como o Prime Day e o 7.7, outras
categorias dependem muito mais do comportamento específico do consumidor e da
competitividade de cada nicho.
Para o CEO da Seconds, a decisão de participar de uma
campanha promocional precisa ser orientada por indicadores concretos.
"Os dados mostram onde realmente existe
oportunidade. É preciso analisar histórico de vendas, elasticidade de preço,
comportamento da demanda, nível de estoque, posicionamento dos concorrentes e
margem disponível. Nem sempre entrar na promoção é a melhor escolha."
A preparação para julho, inclusive, começa muito antes
das ofertas chegarem ao consumidor. Grandes operações trabalham durante meses
com previsão de demanda, reposicionamento de estoque e análise de comportamento
de compra para suportar o aumento esperado nas vendas. A própria Amazon afirma
que o planejamento do Prime Day envolve meses de preparação logística e uso
intensivo de dados para antecipar demanda e distribuir produtos
estrategicamente pelos centros de distribuição.
Na avaliação de Trincas, esse movimento evidencia uma
mudança importante na maturidade do comércio eletrônico brasileiro.
"Os marketplaces evoluíram muito nos
últimos anos. Hoje, quem cresce de forma consistente não é quem oferece o maior
desconto, mas quem consegue tomar decisões rápidas baseadas em dados. A
competitividade deixou de estar apenas no preço e passou a depender de
inteligência operacional."
Para a Seconds, a tendência é que julho consolide sua posição como uma das principais datas comerciais do primeiro semestre, aproximando-se cada vez mais da relevância estratégica de eventos tradicionais como a Black Friday. Nesse cenário, o desafio para os sellers deixa de ser apenas vender mais e passa a ser preservar a rentabilidade em um ambiente onde a competição por preço se intensifica a cada nova campanha promocional.
Seconds
https://www.seconds.com.br

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