Promessas sobre propósito, desenvolvimento e qualidade de vida perdem força quando não encontram respaldo na rotina dos colaboradores
Ter um propósito claro continua sendo um fator
relevante na relação entre profissionais e empresas, mas o discurso institucional
deixou de ser suficiente para convencer candidatos. Uma pesquisa global da
Deloitte mostra que 89% dos profissionais da Geração Z e 92% dos Millennials
consideram o senso de propósito importante para a satisfação no trabalho. Ao
mesmo tempo, o acesso a avaliações corporativas, redes sociais e relatos de
colaboradores ampliou o nível de escrutínio sobre aquilo que as organizações prometem
e efetivamente entregam.
A mudança tem levado profissionais a observar com mais atenção a
coerência entre discurso e prática antes de aceitar ou permanecer em uma
empresa. Benefícios, oportunidades de desenvolvimento, políticas de
flexibilidade e a relação com lideranças passaram a funcionar como evidências
concretas da cultura organizacional.
O fenômeno reflete uma transformação importante na forma como os
trabalhadores avaliam empregadores. Se antes o propósito era comunicado
principalmente por meio de campanhas institucionais e discursos corporativos,
hoje ele precisa ser percebido na experiência cotidiana dos colaboradores.
A transparência promovida pelas plataformas de avaliação de
empresas e a facilidade de compartilhamento de experiências profissionais
aumentaram a capacidade dos candidatos de verificar se a realidade corresponde
à narrativa apresentada pelas organizações. Nesse ambiente, inconsistências
entre discurso e prática podem impactar diretamente a reputação empregadora.
Para
Hosana Azevedo, Gerente de RH da Redarbor Brasil, detentora do Infojobs, as
novas gerações continuam valorizando empresas que possuem propósito, mas
passaram a exigir demonstrações concretas desse compromisso.
“As pessoas não deixaram de valorizar o propósito. O que mudou foi
a forma de avaliá-lo. Hoje existe uma busca maior por evidências que demonstrem
como aquele discurso se traduz na rotina de trabalho, nas decisões da liderança
e na experiência dos colaboradores”, afirma.
Segundo a executiva, temas como desenvolvimento profissional,
flexibilidade, diversidade, inclusão e bem-estar passaram a ser analisados de
maneira mais objetiva pelos candidatos e funcionários.
“O colaborador quer entender quais ações sustentam aquele
posicionamento. Não basta afirmar que existe uma cultura colaborativa ou um
compromisso com o desenvolvimento das pessoas. É preciso que isso seja
percebido em oportunidades de crescimento, processos transparentes, lideranças
preparadas e políticas que façam sentido para quem está dentro da organização”,
explica.
A discussão ganha relevância em um momento em que engajamento e
retenção permanecem entre os principais desafios das empresas. Dados da Gallup
mostram que apenas 21% dos trabalhadores no mundo se declaram engajados no
ambiente de trabalho, reforçando a importância de construir relações de
confiança e pertencimento entre organizações e profissionais.
Para Hosana, as empresas que conseguem alinhar comunicação,
cultura e experiência tendem a construir vínculos mais sólidos e duradouros com
suas equipes.
“O propósito continua sendo um diferencial importante, mas o
mercado passou a exigir coerência. A discussão deixou de ser sobre o que a
empresa promete e passou a ser sobre aquilo que ela efetivamente entrega no dia
a dia. É essa consistência que fortalece a marca empregadora e contribui para a
retenção de talentos”, conclui.

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