Diretora Técnica da Abimapi e nutricionista desmistificam dietas
restritivas e explicam por que a combinação dos nutrientes é o verdadeiro
segredo para a saciedade
Nos consultórios, nas academias e, principalmente, nas redes sociais, o debate nutricional ganhou ares de arquibancada. De um lado, a proteína foi elevada ao status de heroína inquestionável da saúde, da saciedade e da boa forma. Do outro, o carboidrato passou a ser frequentemente colocado na posição de inimigo da balança. Para a Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias e Pães & Bolos Industrializados (ABIMAPI), esse embate não só ignora o funcionamento biológico humano, como pode colocar a saúde em risco. A entidade afirma, portanto, que o importante é o equilíbrio nutricional.
Sonia Romani, Diretora Técnica da Abimapi, engenheira de alimentos e agrícola, explica que tirar o carboidrato da rotina pode ser prejudicial. “O carboidrato é a nossa principal e mais rápida fonte de energia. Sem o glicogênio estocado, que é o combustível exclusivo para atividades de alta intensidade, o corpo sofre uma queda drástica de rendimento físico”, explica.
A restrição
de carboidratos sem uma necessidade específica não é saudável, é o que também
pontua Bianca Naves, nutricionista e embaixadora da Abimapi. “Inclusive, porque
o carboidrato é a principal fonte de energia para o nosso corpo, para o nosso
cérebro, para os nossos músculos. E numa dieta com restrição de carboidrato, há
risco de perda de massa muscular”, pontua a especialista.
“Dietas
restritivas extremas, como a cetogênica muito severa ou a zero carb, forçam o
metabolismo a entrar em um estado de emergência chamado cetose para
sobreviver”, alerta Sonia Romani. A especialista cita um estudo realizado pela Southwest Medical University que
demonstrou que com a escassez de glicose, o fígado passa a converter gordura em
corpos cetônicos, que funcionam como um combustível alternativo para manter o cérebro
e os órgãos funcionando na ausência de carboidratos. "O cérebro, que
consome cerca de 120 gramas de glicose por dia para funcionar perfeitamente,
sofre o impacto imediato: a restrição gera desidratação acelerada, dificuldade
de concentração, dores de cabeça constantes, irritabilidade e tontura”, pontua.
O boom das
proteínas
A
preferência moderna pelas proteínas se apoia, em grande parte, na forma como o
corpo as processa. Os carboidratos, especialmente os mais simples, possuem uma
estrutura molecular que começa a ser digerida já na boca. Eles se transformam
rapidamente em glicose, o que pode gerar picos de energia e insulina seguidos
de quedas bruscas, trazendo a sensação de fome logo em seguida.
As
proteínas, por sua vez, são estruturas tridimensionais complexas que dão
trabalho ao organismo. É o que defende a Sociedade Internacional de Nutrição Esportiva
(ISSN). “O corpo gasta entre 20% e 30% das calorias da
própria proteína ingerida apenas para conseguir digeri-la e metabolizá-la. Esse
processo demorado no ambiente ácido do estômago estimula a liberação prolongada
de hormônios que inibem a fome, garantindo uma saciedade muito mais longa”,
pontua.
Mas a grande virada para o corpo humano não é escolher um ou outro. “Quando uma fonte de carboidrato e uma de proteína se encontram na mesma refeição, o organismo atinge um ritmo ideal de absorção”, defende Romani. De acordo com um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Toronto, a presença complexa da proteína faz com que o carboidrato passe muito mais devagar para o intestino. Na prática, essa combinação inteligente neutraliza os picos de açúcar no sangue, mantém a energia do corpo totalmente estabilizada e prolonga a sensação de estômago cheio por horas.
“O consumidor pode aplicar a combinação de
carboidrato e proteínas, por exemplo, combinando macarrão com carne moída
magra, pão com peito de frango ou ovos. Existem diversas combinações. O ideal
mesmo é que haja algum alimento fonte de proteína para esse equilíbrio
nutricional e também para o controle do índice glicêmico”, explica Bianca.
Engenharia de alimentos como mediadora
Com a explosão da demanda por produtos ricos em proteínas, a indústria, apoiada pela engenharia de alimentos, precisou driblar barreiras físicas e químicas severas. Sonia explica que colocar muita proteína em um pão ou uma bebida tende a deixar o produto seco, duro, com textura de areia e um forte sabor residual amargo. “Os cientistas de alimentos utilizam tecnologias para resolver isso e entregar saudabilidade com sabor. Isso inclui a quebra enzimática das proteínas, o uso de moléculas bloqueadoras que ‘desligam’ os receptores de amargo na língua do consumidor, e softwares preditivos que calculam a quantidade exata de ingredientes necessária para manter a maciez e o corpo de um produto reformulado”, exemplifica Sonia.
A
especialista explica ainda que a corrida desenfreada pelo consumo de proteínas
tem um limite claro imposto pela própria natureza. “A ciência
da nutrição documenta que o corpo humano consegue utilizar
eficientemente apenas entre 20g e 40g de proteína de alto valor biológico por
refeição para a construção e reparação muscular”, pontua. Por isso, consumir
quantidades exorbitantes de uma só vez, como 80g em um único prato, não fará os
músculos crescerem em dobro.
O ideal é
que a alimentação seja equilibrada em todos os grupos alimentares, conforme
pondera Naves. “Proteínas, carboidratos, gorduras e vitaminas minerais e fibras
devem fazer parte da dieta. Mas, no caso das proteínas, o excesso não é
bem-vindo. O ideal é que a pessoa, se ativa, consuma em torno de 1,2 a 1,6 gramas
de proteína por quilo de peso durante o dia. Esse total deve ser distribuído em
todas as refeições e principalmente nas principais refeições”, reforça a
nutricionista.
A conclusão
é clara: a saúde não é construída com exclusões sumárias ou extremismos, mas
com uma sinergia inteligente entre os nutrientes disponíveis.
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