Especialista explica por que alterações aparentemente inofensivas na rotina, como prolongar o tempo habitual de sono, mudar os horários das refeições ou do café, podem favorecer crises de enxaqueca em pessoas predispostas.
Depois de uma semana intensa de
trabalho, dormir até mais tarde no sábado, tomar o café da manhã fora do
horário habitual e finalmente relaxar parecem atitudes naturais para recuperar
as energias. No entanto, para quem convive com a enxaqueca, essas mudanças
aparentemente inofensivas podem funcionar como gatilhos para uma crise.
Alterações no ritmo biológico, nos horários de despertar, da alimentação, da
cafeína e até a redução da tensão acumulada ao longo da semana fazem parte dos
fatores que podem favorecer o aparecimento da dor.
De acordo com a neurologista Dra.
Helena Providelli, especialista em cefaleias e Diretora Técnica do Instituto
Providelli, um dos principais mecanismos envolvidos está relacionado à
alteração do ritmo biológico. "Durante a semana, o organismo costuma
seguir horários relativamente previsíveis. Quando a pessoa prolonga o tempo
habitual de sono, atrasa as refeições ou modifica significativamente sua rotina
no fim de semana, o cérebro de quem tem enxaqueca, que é biologicamente mais
sensível às mudanças de rotina, pode responder desencadeando uma crise",
explica.
Outro fator importante é o chamado
fenômeno de "let-down headache", descrito em pacientes que
desenvolvem crises justamente após períodos de maior estresse. Segundo a
especialista, a redução brusca da tensão física e emocional vivenciada durante
a semana pode favorecer alterações neuroquímicas capazes de precipitar a
enxaqueca em pessoas predispostas. "Não existe um único responsável pelo
aparecimento da crise. Trata-se de um processo multifatorial, que envolve
diversos mecanismos do organismo atuando em conjunto", ressalta.
As mudanças no consumo de cafeína
também merecem atenção. Muitas pessoas mantêm o hábito de tomar café
diariamente em horários fixos, mas, ao acordarem mais tarde nos dias de
descanso, acabam adiando ou até deixando de consumir a bebida. "O problema
geralmente não é o café, mas a mudança brusca no consumo habitual. A retirada
relativa da cafeína pode desencadear dores de cabeça em indivíduos mais
sensíveis. O ideal é manter certa regularidade, sem grandes variações na
quantidade ou nos horários", orienta a neurologista.
A alimentação segue a mesma lógica.
Acordar tarde, pular o café da manhã ou permanecer muitas horas em jejum são
hábitos frequentes aos sábados e domingos que podem favorecer o aparecimento
das crises. Além disso, o consumo excessivo de bebidas alcoólicas, alimentos
ultraprocessados, noites mal dormidas e uma maior exposição à luz durante
passeios ou eventos também podem atuar como gatilhos em pessoas predispostas.
"O cérebro com enxaqueca gosta de previsibilidade. Quanto mais regulares
forem os horários e os hábitos, menor tende a ser a chance de ativar os
mecanismos responsáveis pela crise", afirma.
Segundo Dra. Helena, isso não significa
que quem tem enxaqueca precise abrir mão do descanso ou das atividades de
lazer. Pelo contrário. Pequenas medidas, como manter horários de sono
semelhantes aos da semana, evitar jejuns prolongados, permanecer bem hidratado
e preservar uma rotina relativamente estável, costumam reduzir bastante o risco
de crises sem comprometer o prazer de aproveitar o fim de semana.
"A enxaqueca não acontece porque o
cérebro é fraco. Ela acontece porque ele é mais sensível às mudanças. Quanto
maior a previsibilidade da rotina, menor tende a ser a chance de ativar os
mecanismos responsáveis pela crise", destaca.
A neurologista reforça que conhecer os
próprios gatilhos é um passo importante para conviver melhor com a doença, mas
que isso deve ser feito sem abrir mão da qualidade de vida. "Ter enxaqueca
não significa deixar de descansar ou aproveitar os momentos de lazer. Significa
conhecer melhor o funcionamento do próprio cérebro para fazer escolhas que
reduzam as crises. Quando identificamos os gatilhos e tratamos a doença
adequadamente, é perfeitamente possível aproveitar o fim de semana sem que a
dor estrague os planos", conclui Dra. Helena.
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