Inteligência artificial amplia o acesso à informação, mas não substitui pensamento crítico, curadoria humana e capacidade de formular perguntas
Em um cenário em que ferramentas de inteligência artificial são
capazes de responder perguntas em segundos, produzir textos completos e reunir
informações sobre praticamente qualquer assunto, saber pesquisar é uma
habilidade que ganha ainda mais relevância. A chegada da IA transformou a forma
como as pesquisas são realizadas, mas não eliminou a necessidade de
competências humanas essenciais, como análise crítica, interpretação de dados e
capacidade de questionamento.
Celebrado em 8 de julho, o Dia Nacional da Ciência e o Dia
Nacional do Pesquisador Científico, instituídos pelas Leis nº 10.221/2001 e nº
11.807/2008, são um convite para refletir sobre a importância da investigação,
da curiosidade e da construção do conhecimento em uma sociedade cada vez mais
impactada pela tecnologia: fomentar o interesse dos jovens pela ciência e
ampliar a valorização do conhecimento científico são fundamentais para
enfrentar os desafios do presente e do futuro.
IA ajuda, mas o pensamento humano é mais importante
"A IA tornou o acesso à informação mais rápido e democrático,
mas isso não significa que todo conteúdo gerado seja necessariamente correto,
relevante ou adequado. O grande desafio da educação hoje não é apenas ensinar
os alunos a encontrar respostas, mas ajudá-los a formular boas perguntas, avaliar
fontes e desenvolver critérios para interpretar aquilo que recebem",
afirma Carla Mitsy, coordenadora pedagógica do colégio Progresso
Bilíngue de Indaiatuba
(SP).
Segundo a educadora, a formação de pesquisadores vai muito além da
preparação para a carreira acadêmica: trata-se de desenvolver competências que
serão fundamentais em qualquer profissão, especialmente em um mundo marcado por
transformações constantes e pelo surgimento acelerado de novas ocupações.
"Vivemos em um contexto em que o conhecimento se atualiza o
tempo todo. Por isso, uma das competências mais importantes para as novas
gerações é a aprendizagem contínua, o chamado lifelong learning. O
profissional do futuro precisará aprender, desaprender e reaprender diversas
vezes ao longo da vida. E isso começa na escola, quando o estudante aprende a
investigar, buscar evidências, comparar informações e construir conhecimento de
forma autônoma", opina.
A inteligência artificial, nesse contexto, pode atuar como uma
importante aliada do processo educativo, desde que seja utilizada de forma
consciente. Ferramentas digitais podem auxiliar na organização de informações,
ampliar repertórios e apresentar diferentes perspectivas sobre um tema. No
entanto, a etapa mais importante continua sendo a humana.
"A tecnologia pode acelerar etapas da pesquisa, mas não
substitui a reflexão, a criatividade, a capacidade de argumentação, nem a
autoria. A curadoria humana continua sendo indispensável para identificar
vieses, verificar a confiabilidade das fontes e transformar informação em
conhecimento significativo", destaca a especialista.
Dados divulgados pela Elsevier e pela Agência Bori mostram que, em
2024, foram publicados 73.220 artigos científicos no Brasil, um crescimento de
4,5% em relação ao ano anterior. O País ocupa a 14ª posição no ranking global
de produção científica – lista liderada pela China e pelos Estados Unidos,
seguida por países como Índia, Reino Unido, Alemanha e Japão. Ainda assim, a
produção científica brasileira não impacta tanto o nosso crescimento: o Brasil
ocupa atualmente a 52ª posição no Índice Global de Inovação, o que reforça a
importância de ampliar investimentos em educação, ciência e formação de novos
pesquisadores.
Pesquisa como prática cotidiana
No colégio Progresso Bilíngue, a formação investigativa é
desenvolvida por meio do Trabalho de Pesquisa Individual (TPI), projeto que
acompanha os estudantes em um percurso estruturado de investigação científica.
Durante o processo, os alunos são incentivados a escolher temas de
interesse, formular perguntas de pesquisa, buscar fontes confiáveis, analisar
informações, organizar argumentos e apresentar suas conclusões com autoria.
Mais do que um trabalho escolar, a iniciativa busca desenvolver habilidades
relacionadas ao pensamento científico e à autonomia intelectual.
"O TPI ensina algo que será cada vez mais valioso no século
XXI: a capacidade de aprofundar um tema, conectar informações e construir uma
visão própria sobre determinado assunto. Mesmo com todas as facilidades
proporcionadas pela inteligência artificial, a curiosidade, o senso crítico e a
disposição para investigar continuam sendo competências insubstituíveis",
afirma Carla.
Para a docente, a discussão sobre IA nas escolas não deve estar
centrada na substituição do trabalho humano, mas na construção de uma relação
equilibrada entre tecnologia e pensamento crítico. "Quanto mais avançadas
se tornam as ferramentas digitais, mais importante se torna a formação de
pessoas capazes de analisar, questionar e tomar decisões com responsabilidade.
O verdadeiro diferencial não estará em acessar informações, mas em saber o que
fazer com elas", conclui.
A especialista: Carla Mitsy é pedagoga e bacharel em Publicidade e Propaganda.
Possui pós-graduação em Educação, Criatividade e Tecnologia, Artes Visuais e
Metodologias Ativas. Atua há mais de 20 anos na área da educação, com
experiência em docência, gestão pedagógica, formação de professores e inovação
educacional. Ao longo de sua trajetória, trabalhou como assessora de tecnologia
educacional, desenvolvendo ações voltadas à integração de tecnologias digitais
e da inteligência artificial aos processos de ensino e aprendizagem.
Atualmente, é coordenadora pedagógica dos Anos Finais no Colégio Progresso
Bilíngue, em Indaiatuba, onde acompanha o desenvolvimento curricular, a
aprendizagem dos estudantes e a formação continuada de educadores. Seus
interesses de estudo e atuação concentram-se nas metodologias ativas, na cultura
digital, na inteligência artificial aplicada à educação e no desenvolvimento de
práticas pedagógicas que promovam aprendizagens significativas e competências
para o século XXI.
Para mais informações, acesse o site

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