Campanha de conscientização
sobre o câncer de mama também pode ser uma oportunidade para discutir
autocuidado, sobrecarga e a importância de buscar ajuda psicológica
O Outubro Rosa é tradicionalmente marcado por
ações de conscientização sobre a prevenção e o diagnóstico precoce do câncer de
mama. Mas, para o psicólogo clínico Luti Christóforo, a campanha também pode
ser uma oportunidade para ampliar o olhar sobre a saúde da mulher e discutir
aspectos que muitas vezes ficam em segundo plano, como saúde emocional,
autocuidado e a dificuldade de priorizar as próprias necessidades. Segundo o
psicólogo, a rotina de muitas mulheres é marcada pela sobreposição de
responsabilidades. Trabalho, família, filhos, relacionamentos, tarefas
domésticas e outras demandas fazem com que o cuidado com os outros
frequentemente seja colocado à frente do cuidado pessoal. “Durante muito tempo,
muitas mulheres aprenderam que deveriam cuidar de todos antes de cuidar de si
mesmas. O problema é que esse ‘depois’ pode se prolongar por meses ou até
anos”, afirma Luti.
Para ele, falar sobre
autocuidado também significa falar sobre prevenção. Além do acompanhamento
médico e da realização dos exames recomendados, é importante que a mulher
esteja atenta aos sinais apresentados pelo próprio corpo e não adie a investigação
de sintomas ou alterações que mereçam atenção. Esse olhar também deve incluir a
saúde emocional. Ansiedade, tristeza persistente, irritabilidade, insônia,
exaustão e uma sensação constante de sobrecarga podem ser sinais de que algo
não está bem e, segundo o psicólogo, não deveriam ser simplesmente
naturalizados como parte da rotina feminina. “A mulher pode ser forte,
independente e capaz de enfrentar muitas dificuldades e, ainda assim, precisar
de ajuda. Procurar apoio psicológico não significa fraqueza. Significa
reconhecer que aquilo que ela sente também merece atenção”, explica.
Luti também chama
atenção para a maneira como o conceito de autocuidado é apresentado. Em uma
rotina já marcada por inúmeras responsabilidades, transformar o autocuidado em
mais uma lista de tarefas pode produzir justamente o efeito contrário,
aumentando a sensação de culpa e insuficiência. O cuidado pode começar por
atitudes possíveis dentro da realidade de cada mulher, como reconhecer o
próprio cansaço, estabelecer limites, dividir responsabilidades, reservar
momentos de descanso e procurar ajuda quando necessário. “Cuidar de si não
precisa significar fazer grandes mudanças de uma vez. Às vezes, começa
simplesmente quando a mulher reconhece que está cansada e entende que não
precisa continuar suportando tudo sozinha”, afirma. O psicólogo ressalta ainda
que a sobrecarga feminina não deve ser entendida apenas como uma
responsabilidade individual. A divisão das tarefas domésticas, o apoio
familiar, os relacionamentos e as condições de trabalho também influenciam
diretamente a possibilidade de uma mulher cuidar da própria saúde.
Na avaliação de Luti, a
busca por atendimento psicológico não precisa acontecer apenas quando o
sofrimento já atingiu um nível elevado. A psicoterapia pode ser procurada
diante de dificuldades emocionais, conflitos, sensação de sobrecarga ou mesmo
quando existe a percepção de que a maneira de viver já não está fazendo
sentido. “Não é necessário chegar ao limite para procurar ajuda. Muitas vezes,
perceber que algo não está bem já é um motivo suficiente para buscar um espaço
de escuta e reflexão”, afirma. Nesse sentido, o Outubro Rosa pode servir como
um lembrete para que a mulher olhe para a própria saúde de maneira mais ampla.
Além de perguntar quando foi o último exame ou consulta médica, pode ser
importante perguntar também como estão o sono, as emoções, os relacionamentos,
os limites e a qualidade de vida.
Para Luti Christóforo, cuidar de si não significa deixar de cuidar das pessoas que fazem parte da vida. Significa reconhecer que a própria saúde também precisa ocupar um lugar de importância. “O cuidado começa quando conseguimos olhar para nós mesmos com a mesma atenção que tantas vezes dedicamos aos outros. Prevenção também é escuta, atenção e cuidado. E cuidar de si é uma forma de respeito pela própria vida”, conclui.
Luti Christóforo - CRP 08/18577 - Psicólogo Clínico
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