Culpa por descansar, dificuldade de dizer não e necessidade de dar conta de tudo: psicóloga explica como padrões socialmente aceitos viram fontes invisíveis de ansiedade e exaustão
Nem sempre o que afeta a saúde mental feminina surge como um
grande trauma ou um evento dramático. Na maioria das vezes, o desgaste acontece
de forma silenciosa e progressiva, diluído em comportamentos do dia a dia que a
sociedade aprendeu a encarar como “normais”. No Dia Internacional da Saúde
Mental, o alerta se volta para o impacto desses hábitos cotidianos na vida das
mulheres.
A dificuldade de dizer não, a culpa ao parar para descansar, a
cobrança invisível para dar conta de todas as áreas da vida, a comparação
constante e a sobrecarga de estar sempre disponível para os outros são padrões
frequentemente romantizados, mas que cobram um alto preço emocional.
Para Elis Carla Sardeto Silva, psicóloga clínica da Starbem e especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), o primeiro obstáculo para o bem-estar feminino é a naturalização desse cansaço: “Quando determinados comportamentos são repetidos durante anos, deixamos de percebê-los como fontes de sofrimento. A mulher pode estar profundamente exausta, mas interpretar isso apenas como ‘parte da rotina’. O primeiro passo para mudar é perceber que aquilo que foi normalizado no cotidiano pode estar custando a saúde mental”.
Abaixo, a especialista detalha os cinco comportamentos cotidianos
que mais causam desgaste emocional nas mulheres:
1. A culpa por descansar
Mesmo sem urgências pendentes, muitas mulheres sentem que deveriam
estar produzindo, cuidando da casa, da família ou adiantando demandas do
trabalho. “Descanso não precisa ser justificado pela produtividade. Quando só
nos permitimos parar depois de cumprir todas as tarefas da lista, o descanso
vira uma recompensa distante, e não uma necessidade biológica e emocional. Isso
gera um ciclo permanente de exaustão”, explica Elis.
2. A dificuldade de dizer “não”
Aceitar convites, tarefas extras, favores e responsabilidades para
evitar conflitos, não decepcionar ou não parecer egoísta.“Dizer não, não
significa falta de carinho ou de profissionalismo. Muitas vezes, estabelecer um
limite é a única forma de preservar a qualidade das relações e da própria
saúde, entregando apenas o que é sustentável sem nos anular.”
3. A ilusão do “dar conta de tudo”
A pressão para administrar carreira, vida doméstica, maternidade,
relacionamentos, aparência e saúde com excelência contínua. “A ideia de
perfeição em todas as áreas cria uma expectativa impossível de sustentar. Na
TCC, incentivamos trocar a lógica do ‘dar conta de tudo’ pela pergunta: ‘o que é
prioridade real para mim hoje?’. Nem todos os pratos precisam girar com a mesma
intensidade ao mesmo tempo.”
4. A comparação constante com outras mulheres
A armadilha de usar a rotina, o corpo, a maternidade ou o sucesso
profissional aparente de outras mulheres (especialmente nas redes sociais) como
régua de autoavaliação. “A comparação se torna tóxica quando usamos um recorte
editado da vida alheia para julgar a nossa vida inteira. Nas redes, vemos
resultados e momentos selecionados; não temos acesso às angústias e bastidores
daquela pessoa.”
5. Estar permanentemente disponível para os outros
Responder mensagens no ato, resolver problemas familiares,
antecipar necessidades alheias e assumir o papel de suporte emocional contínuo.
“Cuidar de quem amamos não significa estar disponível 24 horas por dia. Quando
a mulher sente que não pode se ausentar, pedir espaço ou simplesmente dizer que
não está bem, há um desequilíbrio que precisa ser corrigido.”
Como quebrar esse ciclo sem culpa?
Para a especialista da Starbem, cuidar da saúde mental feminina
não exige grandes revoluções imediatas, mas sim pequenos ajustes de rota
pautados na autocompaixão e na comunicação assertiva:
Mapeie os dreno de energia: Durante uma semana, note quais
situações e pedidos provocam a sensação instantânea de aperto no peito ou
ansiedade.
Redefina o descanso: Reserve momentos de pausa na agenda como compromissos
inegociáveis, sem precisar “merecer” parar.
Pratique respostas assertivas: Use frases diretas e sem longas
justificativas para impor limites (ex: "Agradeço o convite/pedido, mas no
momento não consigo assumir essa demanda").
Divida responsabilidades: Delegue tarefas domésticas e profissionais sem centralizar o controle por medo de não sair "do seu jeito".
“Cuidar da saúde mental feminina não deve começar apenas
quando o esgotamento ou o burnout se instalam. Começa no momento em que a
mulher decide questionar o que está aceitando como ‘normal’ e passa a respeitar
os próprios limites”, conclui Elis Carla.
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