Dr. Rodolfo Gusmão, médico integrativo e CEO do Instituto Aeon, explica por que escolhas aparentemente inofensivas da rotina podem ter relação com o equilíbrio hormonal ao longo dos anos.
Você investe em uma rotina completa de skincare, dorme cinco ou
seis horas porque “não tem tempo” e passa o dia beliscando alguma coisa entre
uma refeição e outra. Isoladamente, esses hábitos parecem não ter nenhuma
relação. Mas, quando o assunto é saúde hormonal, o organismo não funciona em
compartimentos.
Depois dos 35 anos, não existe uma mudança hormonal automática que
acontece de uma hora para outra. O que passa a ganhar importância é o efeito
acumulado da rotina: qualidade do sono, alimentação, composição corporal,
estresse e até a exposição frequente a determinadas substâncias presentes em
produtos utilizados diariamente.
“Existe uma tendência de procurar uma solução muito sofisticada
para saúde hormonal enquanto alguns hábitos básicos continuam desorganizados.
Não adianta pensar apenas em suplemento, tratamento ou exame se você dorme mal
todos os dias, se alimenta sem nenhum padrão e não presta atenção àquilo a que
está exposto de forma recorrente”, explica o Dr. Rodolfo Gusmão, médico
integrativo e CEO do Instituto Aeon.
1. Fazer skincare sem olhar o que existe no produto
Ter uma rotina de cuidados com a pele não é o problema. A questão,
segundo Dr. Rodolfo, é que a escolha de cosméticos costuma considerar textura,
fragrância, promessa de resultado e ativos dermatológicos, mas raramente leva
em conta a exposição repetida a determinadas substâncias.
Parabenos e ftalatos, por exemplo, estão entre os compostos
estudados pela ciência por seu potencial de interferir na sinalização hormonal.
Eles fazem parte de um grupo conhecido como disruptores endócrinos, substâncias
que podem interferir na ação natural dos hormônios no organismo.
Isso não significa que usar um cosmético com determinado
ingrediente provocará, sozinho, um desequilíbrio hormonal. A preocupação
científica envolve fatores como tipo de composto, dose, frequência e diferentes
fontes de exposição.
“Não é para ter medo do skincare nem abandonar os cosméticos. É
para começar a olhar a saúde da pele de uma forma mais ampla. Aquilo que você
aplica todos os dias merece atenção, assim como aquilo que oferece ao organismo
por meio da alimentação, do sono e dos seus hábitos”, explica o médico.
Para o especialista, essa visão também ajuda a quebrar outra ideia
comum: a de que cuidar da pele acontece apenas de fora para dentro. Proteínas,
vitaminas, minerais e uma alimentação adequada também fornecem elementos
necessários para manutenção e renovação dos tecidos.
2. Tratar o sono como luxo.
Dormir quando “sobra tempo” talvez seja um dos hábitos mais
normalizados da vida adulta. O problema é que, biologicamente, o sono está
longe de ser um luxo.
Durante o sono profundo acontece uma parcela importante da
liberação do hormônio do crescimento, o GH, envolvido em processos de reparação
e metabolismo. O sono também participa da regulação do cortisol e da
sensibilidade à insulina.
Um pequeno estudo publicado no JAMA ajuda a mostrar como a
privação de sono pode repercutir rapidamente no organismo. Pesquisadores
acompanharam dez homens jovens e saudáveis submetidos a uma semana dormindo
cinco horas por noite. Ao final do período, os níveis diurnos de testosterona
estavam entre 10% e 15% menores do que durante a fase em que dormiram cerca de
dez horas. Por se tratar de um estudo pequeno e de curta duração, o resultado
não deve ser generalizado, mas reforça a relação entre sono e regulação
hormonal.
“Dormir não é tempo perdido. É durante o sono que o organismo
executa processos que você não consegue compensar simplesmente tomando mais
café ou dormindo até mais tarde no fim de semana. Quando o sono vira luxo, a
recuperação do corpo também começa a pagar essa conta”, afirma Dr. Rodolfo.
3. Comer o tempo inteiro porque “não dá tempo de fazer uma
refeição
Um café aqui, uma barrinha depois, um pedaço de alguma coisa entre
reuniões e mais um lanche antes do jantar. Para quem tem uma rotina corrida,
passar o dia beliscando pode parecer mais prático do que organizar refeições.
Mas o organismo também atravessa diferentes estados metabólicos entre os
períodos de alimentação.
Um dos mecanismos estudados nesse contexto é a autofagia, processo
natural pelo qual as células degradam e reciclam componentes danificados. A
importância dessa descoberta foi reconhecida em 2016, quando o pesquisador
japonês Yoshinori Ohsumi recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina por
seus estudos sobre os mecanismos da autofagia.
Isso não significa, entretanto, que exista um número mágico de
horas sem comer capaz de ativar a “limpeza celular”, nem que todas as pessoas
devam fazer jejum intermitente.
“A ideia não é parar de comer ou transformar jejum em regra. O
ponto é que comer o dia inteiro, muitas vezes sem fome e sem qualquer
organização, também merece ser revisto. O espaçamento entre refeições pode
fazer sentido para algumas pessoas, mas precisa respeitar metabolismo, rotina,
objetivo e condição clínica”, explica o especialista.
Depois dos 35, o básico passa a importar ainda mais
Para Dr. Rodolfo, não existe uma idade exata em que os hormônios
“desregulam”. Os 35 anos funcionam muito mais como um convite para observar
hábitos que podem ter sido tolerados durante anos, mas que começam a cobrar
mais atenção conforme o organismo envelhece.
Mais do que buscar uma solução isolada, cuidar da saúde hormonal
envolve olhar para aquilo que acontece repetidamente: como se dorme, o que se
come, como está a composição corporal, o nível de estresse e até quais produtos
fazem parte da rotina.
“Depois dos 35, talvez a pergunta não seja apenas qual hormônio
você precisa dosar ou qual suplemento precisa tomar. Antes disso, vale
perguntar: como você está dormindo? Como está se alimentando? O que você repete
todos os dias? Saúde hormonal também é construída na rotina”, conclui Dr.
Rodolfo.
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